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Profissionais do sexo na linha de frente da resposta ao HIV no Malaui

03/05/2019
Profissionais do sexo possuem cinco vezes mais chance de contrair HIV do que outras mulheres no país
Profissionais do sexo na linha de frente da resposta ao HIV no Malaui

Foto: Isabel Corthier/MSF

Um programa de Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantido em quatro distritos no sul do Malaui está ajudando milhares de mulheres que ganham a vida com trabalho sexual a superar as barreiras de acesso a serviços de saúde, por meio de treinamentos e emprego de profissionais do sexo como profissionais de saúde em suas comunidades.

Os nomes foram alterados, a não ser que seja indicado o contrário

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Bernadette perdeu os pais quando tinha 7 anos e foi acolhida pelos avós, que precisavam enviá-la para a escola sem comida.

“Comecei a fazer sexo em troca de coisas, porque meus avós não conseguiam me sustentar. Foi assim que engravidei e larguei a escola”, diz Bernadette, que se mudou de seu vilarejo para Dedza, no Malaui, no final de 2018. “Quando me tornei profissional do sexo, não sabia nada sobre preservativos ou qualquer outro método de planejamento familiar. Eu tinha ouvido falar em HIV, mas nunca imaginei que eu mesma poderia contraí-lo”, diz ela.

“Esta foi a primeira vez que tive informações sobre questões como teste para o HIV e saúde sexual”, diz Bernadette, depois que a agente comunitária de saúde de MSF, Emily, ministrou uma sessão de educação em saúde no bar onde ela trabalha e mora. "Eu vi aquilo como uma oportunidade incrível, que poderia me ajudar a ser saudável, não importa as minhas circunstâncias." Emily ouviu atentamente o que Bernadette tinha a dizer. Como também é profissional do sexo, ela sabia de onde Bernadette vinha e o que ela enfrentava todos os dias.

 

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No Malaui, onde a pobreza e o desemprego continuam altos, muitas mulheres como Bernadette recorrem ao trabalho sexual – oferecendo serviços sexuais em troca de algum tipo de pagamento – para sustentar a si e suas famílias.

O Malaui tem uma das maiores taxas de HIV do mundo, mas, enquanto o país fez grandes avanços no combate à epidemia, as profissionais do sexo continuam extremamente expostas. Com um acesso muito menor à informação sobre saúde e a cuidados de saúde do que outras mulheres, as profissionais do sexo têm cinco vezes mais chances de contrair o HIV e enfrentam riscos muito mais elevados de gravidez indesejada e infecções sexualmente transmissíveis (IST) [1].

Profissionais do sexo relatam o estigma e muitas vezes violência em seu cotidiano – por parte da polícia, clientes, donos de bares e até parceiros. Uma vez que esses riscos são vistos por muitos como parte do trabalho, capacitar profissionais do sexo com conhecimento e métodos de prevenção é fundamental para proteger sua saúde e segurança.

“No passado, a maioria das profissionais do sexo evitava visitar centros de saúde por medo de discriminação e estigma, especialmente se fossem detectadas como soropositivas. Se as mulheres precisassem de profilaxia pós-exposição (tratamento que previne a infecção de HIV se tomado em até 72 horas após a exposição), elas não iam ao hospital porque sabiam que não receberiam ajuda”, disse Alice Matambo (nome verdadeiro), uma agente comunitária de saúde de MSF em Dedza. "Profissionais do sexo precisam de cuidados de saúde em seu cotidiano: se um preservativo estourar; se elas contraírem uma doença sexualmente transmissível ou precisarem fazer teste para câncer de colo de útero."

Reconhecendo essas lacunas, MSF tem trabalhado com o Ministério da Saúde para oferecer serviços que atendam às necessidades específicas das profissionais do sexo. Para se conectar com profissionais do sexo nas cidades de Dedza, Mwanza, Zalewa e Nsanje, MSF treinou profissionais do sexo como Emily e Alice como agentes comunitárias de saúde, pois elas próprias vivenciaram os desafios e perigos associados ao trabalho sexual. Essa experiência compartilhada permite que elas se conectem discretamente com outras profissionais do sexo, compreendam sua situação de saúde e expliquem os serviços médicos de que precisam. A equipe médica do projeto também recebeu treinamento especializado para adaptar seus serviços às profissionais do sexo.

“Nós abordamos as profissionais do sexo com delicadeza e respeito, o que as faz aceitar nossa abordagem e procurar ajuda médica”, diz Emily.

Margret, agente comunitária de saúde de MSF em Mwanza, explica essa maneira de trabalhar.  “O meu trabalho inclui ir de porta em porta e visitar lojas de bebidas alcoólicas e bordéis onde encontro profissionais do sexo e forneço informações relacionadas ao teste de HIV e como elas podem cuidar de sua saúde. Para aquelas que concordam em fazer o teste para o HIV, organizamos uma visita domiciliar”, diz ela.

As agentes comunitárias de saúde também orientam as profissionais do sexo para clínicas “one-stop” (“visita única”, na tradução livre para o português) mantidas por MSF em instalações do Ministério da Saúde ou em quartos alugados em comunidades próximas a locais onde profissionais do sexo vivem e trabalham.

As clínicas "one-stop" são fáceis para as profissionais do sexo buscarem cuidados discretamente e em horários convenientes. Em uma única visita, os médicos prestam serviços como teste de HIV, tratamento e aconselhamento; rastreamento de TB e encaminhamento para cuidados; e cuidados de saúde sexual e reprodutiva, incluindo triagem e tratamento para doenças sexualmente transmissíveis, acesso a diferentes métodos de contracepção, rastreio de câncer de colo de útero e tratamento para violência sexual, que é feito no local ou através de encaminhamento. 

“Com esses serviços, sinto-me mais capacitada do que antes e consigo negociar com meus clientes para que se protejam. Eu sei como colocar um preservativo corretamente, e agora temos lubrificante, o que evita acidentes[2]”, diz Bernadette.

Muitas das agentes comunitárias de saúde empregadas por MSF dizem que recorreram ao trabalho sexual depois de terem filhos em uma idade jovem e serem abandonadas por suas famílias ou perderem o apoio de seus maridos para cuidar de seus filhos. Elas são muitas vezes rejeitadas por suas famílias e comunidades, enfrentando abuso e hostilidade por causa do que fazem.

A presença do programa permitiu a redução do estigma contra profissionais do sexo em suas áreas, e teve um impacto positivo no acesso a testes de HIV e cuidados de saúde sexual.

"Algumas pessoas olhavam para nós como animais, mas as coisas mudaram", diz Margaret. “Hoje, a percepção que as pessoas têm em relação às profissionais do sexo é melhor. Hoje, as pessoas entendem que o HIV afeta a todos. E, se quisermos lidar com o HIV de uma vez por todas, o primeiro passo é aceitar e reconhecer que, apesar de sermos diferentes, somos todos seres humanos.”



[1]             Profissionais do sexo estão expostas a um risco de infecção pelo HIV 5,4 vezes maior que as outras mulheres. Esta estimativa baseia-se na prevalência total de mulheres entre os 15 e os 49 anos na população geral do Malaui (dados nacionais do Estudo Demográfico e de Saúde do Malaui 2015-2016) em comparação com os dados do projeto de MSF (2018) de profissionais do sexo de todas as idades.

[2]             Os lubrificantes desempenham um papel essencial no sexo seguro. A lubrificação adequada é essencial para evitar o atrito excessivo, o que pode causar a ruptura do preservativo, resultando em infecção pelo HIV ou gravidez.

 

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