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Presidente internacional de MSF participa da 68ª Assembleia Mundial da Saúde

01/06/2015

Foto: Fernando Calero/MSF

A Dra. Joanne Liu, presidente internacional da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), falou durante a 68ª Assembleia Mundial da Saúde em Genebra, na Suíça, sobre o surto de Ebola na África Ocidental e a reforma proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Abaixo o discurso na íntegra:

“A epidemia de Ebola na África Ocidental é uma das maiores operações de emergência de MSF em nossos 44 anos de história. Nós lançamos uma resposta sem precedentes para um surto excepcional. Equipes de MSF trataram mais de 5 mil pacientes de Ebola, um terço de todos os casos confirmados da doença relatados pela OMS.

A epidemia de Ebola ainda não acabou. Novos casos continuam variando de semana para semana. Com apenas um caso, o surto continua. Temos de dobrar nossos esforços.

A epidemia de Ebola expôs a dura realidade do quão ineficientes e lentos são os sistemas de saúde e de ajuda para responder a emergências. Gritos da reforma começaram a ecoar pelos corredores do poder, mas eles se traduzirão em ação? A OMS irá mostrar a liderança de saúde global de que precisamos em campo em situações de emergência?

Mas, sem uma forte vontade política dos Estados-membros, a OMS não fará uma reforma, nem terá  poder e autoridade para funcionar como a líder de saúde global que deveria ser. E, sem isso, qualquer reforma morrerá no papel. É tempo de malhar o ferro enquanto ainda está quente, enquanto o pesadelo do Ebola ainda está marcado a fogo na mente daqueles que o viveram. O momento de hoje não pode ser perdido.

Está claro que todos estamos, lamentavelmente, despreparados para epidemias massivas de doenças. Os países têm pouco incentivo para soar o alarme e declarar e responder aos surtos, por medo de prejudicar o comércio e suas economias. Países que declaram e lutam contra uma epidemia devem encontrar encorajamento no sistema, não a punição econômica e política.

A reforma de resposta de emergência é sobre de tratar pessoas, não apenas a respeito de segurança sanitária mundial ou reforço dos sistemas de saúde. Os Estados-membros com possibilidades de responder a surtos de doenças mortais em outros países não podem agir somente a partir de seus interesses nacionais, fechando suas fronteiras e esperando que a situação se resolva. Eles devem, rapidamente, enviar recursos para combater a doença em sua origem, para salvar vidas e prevenir futuras propagações. As comunidades infectadas por um vírus altamente contagioso não são um risco biológico. São pacientes com famílias.

O atual sistema de pesquisa e desenvolvimento falhou com esses pacientes no surto de Ebola. É preciso inovação biomédica baseada nas necessidades dos pacientes, que não seja guiada pelo medo do bioterrorismo e por agendas defensivas. As descobertas de P&D devem ser acessíveis e estar disponíveis para aqueles em necessidade.

Em última análise, a saúde é um bem público e, portanto, deve continuar como uma responsabilidade pública compartilhada. Os Estados devem permanecer totalmente responsáveis pela saúde de seus cidadãos e serem responsabilizados por isso.

O sucesso da reforma da OMS não será mensurado pelos milhões de dólares prometidos hoje ou pelos discursos que declaram ‘nunca mais’. Nós já ouvimos essa retórica antes e essas palavras por si só não salvam vidas.

Nós saberemos se a reforma realmente funcionou quando os pacientes em campo sentirem diretamente seus benefícios; quando as pessoas competentes, com recursos suficientes, forem enviadas desde o início de uma emergência com o único objetivo de salvar vidas, deixando a política de lado em favor da saúde. Acontecerá uma mudança cultural dentro da OMS, colocando o imperativo humanitário de salvar vidas em seu núcleo em situações de emergência?

Nós, como médicos, devemos nos tornar aliados na luta pela saúde de nossos pacientes. Meu apelo, de médico para médico: Estados-membros, assumam sua responsabilidade política. Dinheiro e palavras por si só não irão salvar vidas sem uma vontade política por trás deles.

Não respondemos a tempo, mas devemos verdadeiramente fazer a reforma. Não podemos falhar duas vezes. Muitas vidas estão em jogo.”

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