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Presidente Internacional de MSF fala sobre expulsão de Darfur

06/03/2009
Christophe Fournier lamenta decisão das autoridades sudanesas e pede que equipes possam voltar e oferecer assistência às populações do país

Presidente Internacional de Médicos Sem Fronteiras (MSF), Christophe Fournier fala sobre a saída da organização do Sudão. Abaixo, o relato na íntegra:

"Primeiro de tudo, deixe-me contar o que aconteceu conosco. Na segunda-feira, as autoridades sudanesas nos mandaram retirar imediatamente todos nossos funcionários internacionais de vários locais de Darfur Sul e Oeste. As autoridades sudanesas argumentaram que elas não estavam em posição de oferecer segurança às nossas equipes, especialmente tendo em vista o anúncio da decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI).

Nós protestamos, mas nos disseram que não tínhamos escolha a não ser remover de Darfur 70 de nossos trabalhadores humanitários internacionais.

Na quarta-feira, fomos informados que a seção holandesa de Médicos Sem Fronteiras havia sido expulsa e que nossos colegas teriam de deixar o país imediatamente, sem nenhuma explicação. Na manhã de hoje, a seção francesa recebeu a mesma ordem: deixar o país imediatamente.

Outras grandes agências humanitárias, um total de 13, também tiveram de deixar imediatamente o país.

Quais são as consequências para a população hoje em Darfur? De fato, o Governo de Darfur decidiu encerrar as atividades humanitárias que estavam sendo oferecidas para as populações de Darfur. Como vocês provavelmente sabem, 2 milhões de pessoas deixaram suas casas em Darfur, a vasta maioria dependente de ajuda humanitária internacional externa para água comida, abrigo e atendimento médico. Eles não vão ter mais essa ajuda, uma vez que as agências restantes, incluindo três seções de MSF que ficaram, não têm como cobrir as necessidades da população, espalhada por uma região do tamanho da França.

Isso é totalmente inaceitável. É inaceitável porque nós, Médicos Sem Fronteiras, somos uma organização totalmente independente e imparcial. Isso é bem conhecido. Não temos nada a ver com o Tribunal Penal Internacional, não cooperamos com o Tribunal Penal Internacional, nem fornecemos qualquer tipo de informação.

Então fomos feitos reféns, nós e a população, fomos feitos reféns de um processo judicial e político. Isso é totalmente inaceitável. Nós não queremos comentar a decisão do Tribunal Penal Internacional ou a posição do Governo do Sudão em relação à decisão do TPI.

Somos apenas uma organização médica que deseja continuar oferecendo à população de Darfur tratamento médico diário e capaz de salvar vidas, e temos a capacidade de fazer isso.

Como exemplo, temos visto a meningite surgir em vários campos de deslocados internos no sul e oeste de Darfur. Estamos planejando vacinar mais de cem mil pessoas. Nenhum outro organismo vai conseguir fazer isso. É apenas um exemplo.

Peço que o Governo do Sudão e o presidente Bashir reconsiderem sua posição. Estou realmente pedindo que reconsiderem sua posição porque as agências que tiveram autorização para continuar em Darfur não terão como cobrir as necessidades da população hoje".