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Preço de novas vacinas precisa ser reduzido

24/04/2013
MSF pede que a GAVI e as empresas farmacêuticas estendam os descontos para que mais crianças possam ser beneficiadas

Às vésperas da Cúpula Global de Vacinas, organizada por Ban Ki-Moon, Bill Gates e pelo general Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe de Abu Dabi, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou para o fato de que os altos preços das novas vacinas podem submeter os países em desenvolvimento à precária situação de não conseguirem vacinar suas crianças no futuro.


“Uma ação urgente é necessária para conter a disparada dos preços para vacinar uma criança, que subiram 2.700% na última década”, afirma o Dr. Manica Balasegaram, diretor executivo da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “Os países onde trabalhamos perderão o apoio de seus financiadores para pagar pelas vacinas em breve, e terão de decidir contra quais doenças mortais protegerão suas crianças.”


Estima-se que a “Década das Vacinas”, iniciativa global de vacinação para os próximos dez anos, custe R$ 115 bilhões, sendo que mais da metade do valor será utilizado para pagar pelas vacinas. Em 2001, gastava-se R$ 2,76 para vacinar uma criança contra seis doenças. Embora o pacote atual inclua 11 vacinas, o preço total subiu para R$ 78,26, muito por conta da inclusão de duas vacinas novas e caras – contra a doença pneumocócica e o rotavírus -, que representam três quartos do custo. Essas vacinas são produzidas exclusivamente pela Pfizer, pela GlaxoSmithKline (GSK) e pela Merck. Vacinas mais novas são significativamente mais caras: vacinar uma criança contra o sarampo custa R$ 0,5, enquanto proteger uma criança contra doenças pneumocócicas custa, na melhor das hipóteses, R$ 42,36.


MSF vacina milhões de pessoas a cada ano e apoia inteiramente a introdução de novas vacinas em países em desenvolvimento. Mas, no que diz respeito às vacinas mais recentes, as negociações entre as farmacêuticas e a Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (GAVI), financiada, em sua maior parte, por contribuintes, não resultaram em grandes reduções de custos que ajudariam a beneficiar mais crianças. A falta de transparência das empresas quanto aos custos de fabricação das vacinas e seu direcionamento voltado para o lucro, ao invés da garantia de preços sustentáveis para as vacinas para países de baixa renda, são a raiz do problema.


Recentemente, a GAVI anunciou um novo acordo para reduzir o preço da vacina pentavalente. Esse é um excelente exemplo do que a GAVI pode conseguir, principalmente quando há diversos fabricantes no mercado e concorrência saudável. A GAVI deve priorizar urgentemente negociações para as duas vacinas mais novas e mais caras e as empresas farmacêuticas devem apresentar melhores propostas.


“Quando você parte de preços extremamente inflados em países ricos, mesmo que o desconto seja de 90%, significa que o preço a pagar é muito alto para os países pobres no longo prazo”, afirma Kate Elder, consultora para políticas voltadas para vacinas da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “Nosso objetivo é que mais crianças sejam vacinadas com o dinheiro dos impostos. Para isso, precisamos que esses preços sejam muitos mais próximos dos preços de custo. A GAVI deveria fazer mais para acelerar a entrada de fabricantes de baixo custo, para que a competição possa reduzir os preços. Isso é particularmente importante para as vacinas mais novas, que são inexplicavelmente caras.”


MSF também está preocupada com o fato de que organizações não governamentais e atores humanitários estão tendo acesso negado a descontos negociados pela GAVI. MSF frequentemente vacina grupos vulneráveis, como crianças refugiadas, portadoras de HIV e crianças mais velhas e que não foram vacinadas, que não se enquadram no perfil de programas de vacinação padrão. No entanto, MSF não tem conseguido acesso sistemático aos baixos preços negociados pela GAVI, tendo tido de recorrer a lentas negociações com a Pfizer e com a GSK no decorrer dos últimos quatro anos para obter a vacina pneumocócica. Embora as empresas tenham oferecido doações a MSF, esse não é uma solução sustentável e de longo prazo para a organização, à medida que trabalha para responder rapidamente às necessidades em campo e deseja ampliar as campanhas de vacinação de grupos vulneráveis em muitos países.


“Estamos pedindo que a GAVI estenda o benefício dos descontos de preço obtidos em suas negociações para atores humanitários que, geralmente, estão em melhores posições para vacinar populações em crise”, conclui o Dr. Balasegaram.