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Populações vulneráveis necessitam de tratamento para picada de cobra

22/05/2019
Os soros antiofídicos são caros e as clínicas que oferecem este tratamento são escassas
Populações vulneráveis necessitam de tratamento para picada de cobra

Foto: MSF

Pela décima nona vez, Awien, de 10 anos de idade, está sendo levada ao centro cirúrgico. Seu braço direito, com lesões irreparáveis, está pendurado frouxamente em uma tipoia em volta do pescoço. Mas pelo menos ela ainda o tem. E, o mais importante, ela ainda está viva.

Dois meses atrás, Awien foi picada por uma cobra enquanto dormia à noite. Como muitas outras pessoas picadas por cobras na África subsaariana, Aiwen não conseguiu obter tratamento médico a tempo. Ela vive em um pequeno vilarejo no Sudão do Sul, longe da estrada mais próxima e ainda mais longe do hospital mais próximo. Em áreas rurais como esta, a primeira reação das pessoas a uma picada de cobra geralmente é tratá-la com métodos tradicionais locais. A família de Awien tentou várias coisas: um sapo foi cortado ao meio e colocado sobre a picada para remover o veneno; ela bebeu ovo cru e depois uma mistura de sementes e folhas para fazê-la vomitar, para tirar o veneno de seu corpo. Nenhum desses remédios ajudou, então seu tio decidiu levá-la em suas costas para o hospital mais próximo. Ele levou uma noite inteira para caminhar até Agok, onde Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém o único hospital da região.
 

Grande problema, pouco remédio

Em Agok, MSF trata cerca de 300 sobreviventes de picada de cobra por ano, a maioria deles durante a estação de chuvas, que é quando as picadas de cobra são mais frequentes. Para escapar da água, as cobras costumam entrar nas casas das pessoas, que é onde cerca de metade das vítimas é mordida. As crianças que brincam fora de casa e as pessoas que trabalham nos campos também estão em risco. Mas, onde quer que sejam picados, todos têm o mesmo problema: como obter tratamento. A maioria das pessoas afetadas por picada de cobra vive em áreas remotas e tem que viajar longas distâncias para receber cuidados. Durante a estação de chuvas, quando as estradas podem ficar intransitáveis, as pessoas podem ter que viajar por vários dias para chegar a um hospital.

No vilarejo de Rumdong, a algumas horas a pé de Agok, o líder local, James Kuol War, conta que um homem morreu este ano depois de ser picado por uma cobra porque não chegou ao hospital a tempo. Duas outras pessoas do mesmo vilarejo, incluindo uma menina de 13 anos, receberam tratamento para picada de cobra no hospital de MSF, no último ano. É um problema de longa data. Outro habitante do vilarejo – um homem com seus 70 anos – diz que teve sorte de sobreviver a duas picadas de cobra diferentes na mesma perna ao longo dos anos. Seu pé agora está muito deformado, mas ele é saudável e ainda pode pescar e cultivar.

Globalmente, cerca de 5 milhões de pessoas são picadas por cobras, e cerca de 100 mil pessoas morrem por ano, 30 mil delas na África. O diretor clínico de MSF, Jacob Chol Atem, explica: “Algumas pessoas chegam tarde demais e outras não vêm, então, na verdade, não sabemos a extensão total da carga de picada de cobra na área. Mas sabemos que é um grande problema e que as pessoas perdem a vida porque não conseguem tratamento.” 
 

Soro antiofídico fora de alcance e fora do preço

O envenenamento por picada de cobra – condição médica resultante de uma picada de cobra – precisa ser tratado com soro antiofídico na maioria dos casos. Mas o soro antiofídico é caro e não está disponível em muitas instalações de saúde. Pode custar centenas de dólares por paciente, mais de um ano de salário para muitas pessoas, especialmente nas áreas rurais, onde vive a maioria das pessoas afetadas por picada de cobra. A picada de cobra é uma doença que afeta pessoas pobres, mas as empresas farmacêuticas não criam medicamentos para os pobres; elas criam produtos que serão lucrativos. Anteriormente, MSF usava um soro antiofídico chamado FAV-Afrique, um soro antiofídico multifuncional que foi usado para tratar o envenenamento de dez diferentes espécies de cobra na África Subsaariana. Mas o fabricante decidiu parar de produzi-lo e o último lote expirou em junho de 2016. Como não havia equivalente disponível, MSF teve que encontrar tratamentos alternativos adequados. Dois anos depois, as equipes médicas de MSF agora estão usando com sucesso dois novos soros antiofídicos no Sudão do Sul: o EchitabPlus e o SAIMR-Polyvalent. Jacob Chol Atem diz: “Antes era mais simples: podíamos dar o mesmo soro antiofídico mesmo se não soubéssemos qual cobra havia picado o paciente. Agora, o tratamento se tornou mais complexo e administramos o soro antiofídico dependendo dos sintomas do paciente. Mas, no geral, funciona e estamos contentes de ter encontrado uma alternativa.” 

Embora isso seja uma boa notícia para os pacientes de MSF em Agok, esta não é a solução para todas as pessoas afetadas por picadas de cobra, pois a escolha entre dois soros antiofídicos, baseada em sintomas, é difícil para não-especialistas. Soros antiofídicos eficazes contra cobras venenosas em qualquer área precisam ser disponibilizados em todas as unidades de saúde, mas o alto preço desses itens é um problema. É um círculo vicioso, onde os países não compram soros antiofídicos para seus hospitais porque são muito caros e as empresas farmacêuticas não os fazem porque há poucos compradores. O resultado é que eles permanecem em grande parte fora do alcance das pessoas que precisam deles.
 

Soro antiofídico nem sempre é suficiente

Mesmo com o soro antiofídico, o tratamento para picada de cobra é muito mais difícil quando as vítimas chegam tarde ao hospital. Os atrasos podem causar mais danos, incluindo a síndrome do compartimento, quando o inchaço causado pelo veneno aumenta a pressão dentro de um compartimento muscular, ao ponto que o sangue não pode suprir os músculos e nervos com oxigênio e nutrientes. Se a picada não for tratada, os músculos e nervos falham e podem eventualmente falecer. Uma vez que a síndrome do compartimento agudo ocorre, a cirurgia é a única opção. Nos casos mais graves, os danos podem ser tão extensos que os pacientes perdem o uso de seus membros ou precisam de amputações. Estima-se que 400 mil pessoas no mundo ficam aleijadas ou deficientes todos os anos como resultado de picada de cobra.
 

Longo caminho para uma cura

Awien está no hospital há dois meses. Ela estava em estado grave quando chegou e foi tratada com três doses de soros antiofídicos. Ela ficou inconsciente durante os primeiros cinco dias, mas eventualmente acordou e sua condição começou a melhorar. Ela fez várias cirurgias para remover o tecido morto, pois os músculos de seu braço estavam lesionados sem possibilidade de recuperação como resultado da síndrome compartimental. Dezenove procedimentos cirúrgicos parece muito, mas sua família não queria que seu braço fosse amputado e pediu à equipe médica que fizesse o possível para salvá-lo. Awien teve sorte de receber tratamento; este não é o caso de inúmeros outros.

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