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A população traumatizada de Mossul

09/04/2018
Deslocados internos que tentam voltar para casa sofrem agora com o perigo de armadilhas explosivas
A população traumatizada de Mossul

Foto: Hussein Amri

O período mais recente de conflito no Iraque, de 2014 a 2017, precipitou uma prolongada crise humanitária. Durante esse período, cerca de 5,8 milhões de iraquianos fugiram de suas casas e buscaram abrigo contra a violência. A situação se estabilizou desde outubro de 2017. Enquanto mais de 3,5 milhões de deslocados iraquianos voltaram para suas casas, 2,3 milhões de pessoas permanecem deslocadas e as necessidades humanitárias no país continuam grandes.

Abdalla Hussein trabalhou recentemente no Iraque como coordenador-geral de Médicos Sem Fronteiras (MSF) durante dois meses. Em entrevista, ele compartilha sua experiência de trabalho com deslocados internos no Iraque que agora vivem em acampamentos perto de Mossul.

P: Você poderia fornecer uma visão geral da situação humanitária no Iraque?

R: A situação humanitária é bastante urgente. Muitos dos que vivem em áreas que estavam em conflito ainda sofrem porque não conseguem ter acesso a cuidados de saúde. Mais de 1 milhão de pessoas vivem em assentamentos temporários, incluindo acampamentos. Alguns começaram a voltar para suas casas, mas há problemas com segurança e abrigo. Muitas das instalações de saúde no país foram destruídas durante a guerra e algumas áreas ainda estão em conflito, fazendo com que a situação permaneça instável.

P: Você poderia descrever a situação dos deslocados internos nos arredores de Mossul?

R: Não é uma situação fácil. Muitas pessoas gostariam de voltar para casa, mas não podem por diversas razões. Várias organizações humanitárias estão presentes nos acampamentos (existem 80 acampamentos abertos e planejados no país), mas eles não conseguem atender a todas as necessidades de saúde. Em Qayyarah, MSF mantinha três centros de alimentação terapêutica para lidar com a desnutrição, principalmente a infantil. Percebemos que faltavam serviços básicos de saúde primária para os deslocados, por isso estamos trabalhando para ampliar nossas atividades. Oferecemos tratamento de doenças crônicas, como doenças cardíacas e hipertensão, e em breve forneceremos serviços como aconselhamento em saúde mental e assistência à saúde materna.

P: Como é a vida das pessoas dentro dos acampamentos em comparação com aquelas que estão voltando para casa?

R: Nos acampamentos, as pessoas geralmente têm acesso a comida e água, mas em alguns lugares para onde as pessoas estão retornando, não há acesso a água e eletricidade. No entanto, em alguns aspectos, as necessidades nos acampamentos são semelhantes às necessidades fora deles. Por exemplo, nas áreas rurais da província de Ninewa, faltam cuidados de saúde primária e ainda há muitos problemas de saúde mental. A população ficou traumatizada, tanto física como mentalmente. Nossas equipes estão cada vez mais se conscientizando sobre o impacto psicológico que a guerra teve sobre a população. As pessoas tentam voltar para seus lugares de origem, como Mossul. Em alguns casos, as pessoas estão retornando aos acampamentos porque suas casas não estão seguras.

P: Quais são alguns dos perigos que eles enfrentam quando tentam voltar para casa?

R: Em muitos desses lugares, os serviços de saúde são limitados. Ainda há muitos explosivos remanescentes da guerra e algumas casas estão com armadilhas explosivas. Por exemplo, a parte leste de Mossul está amplamente contaminada com minas e dispositivos explosivos improvisados remanescentes da violência dos últimos anos.

P: Você pode nos contar mais sobre a situação em Mossul?

R: Há diversos sinais visíveis de trauma.  As autoridades locais estão se esforçando para retirar corpos dos escombros, então imagine como é para as pessoas voltarem para lá.  Você pode entrar na sua casa e não saber se há um dispositivo explosivo dentro dela. Essa é uma das razões pelas quais MSF está planejando abrir um projeto de saúde mental no leste de Mossul. Isso é o que mais me impressionou - a visibilidade do trauma naquela cidade e o trauma invisível.

MSF trabalha no Iraque desde 1991 e atualmente mantém projetos médicos em oito províncias. MSF fornece cuidados básicos de saúde e de traumas, programas de nutrição, cirurgias emergenciais, serviços para gestantes e de pós-parto, tratamento de doenças crônicas, apoio à saúde mental e atividades de educação em saúde. De julho a dezembro de 2017, MSF ofereceu 28.658 consultas emergenciais e realizou quase 2 mil cirurgias.

MSF oferece assistência médica neutra e imparcial, independentemente de raça, religião, gênero ou filiação política. A fim de garantir nossa independência, não aceitamos financiamento de nenhum governo ou agência internacional para nosso trabalho no Iraque, contando apenas com doações privadas de pessoas ao redor do mundo para realizar nosso trabalho.

 

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