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Ponto zero: deslocado e precisando de tratamento

14/04/2018
Hospital

Cerca de 60 mil pessoas se deslocaram de Ghouta Oriental para o noroeste da Síria em apenas um mês. Diversas pessoas, como homens, mulheres e crianças, estão feridas ou doentes e necessitam de cuidados médicos. Médicos Sem Fronteiras (MSF) participa da resposta médica e apoia o principal hospital responsável pela triagem e tratamento desses pacientes em um local conhecido como “ponto zero”, onde os recém-chegados saltam dos ônibus. Refaat Al Obed, diretor médico da instalação, descreve a situação.

“Estou trabalhando no hospital Qalaat Al Madiq desde que ele foi inaugurado, há cerca de um ano e meio. Nosso hospital é especializado em oferecer assistência médica materno-infantil e está localizado em uma área onde não há muitos outros hospitais e, por isso, tratamos em média 300 pacientes diariamente. 

Nosso hospital está localizado bem na frente de batalha entre as áreas controladas pelo governo da Síria e por grupos armados de oposição. Na prática, isso significa que, geralmente, quando é firmado um acordo de reconciliação entre beligerantes em diferentes partes do país, as pessoas são transferidas para Idlib, e passam primeiro por Qalaat Al Madiq.

“Fomos pegos de surpresa quando 5 mil pessoas foram deixadas em frente a nossa instalação”

Toda vez que isso acontece, tentamos nos preparar o máximo que podemos. Então, algumas semanas atrás, quando fomos informados de que as pessoas chegariam de Ghouta Oriental, nós começamos a nos preparar. Entramos em contato com MSF e pedimos à organização que nos fornecesse suprimentos e instalações para realizarmos mais cirurgias, sessões de reabilitação e encaminharmos pacientes a outros hospitais da região. MSF nos enviou suprimentos médicos, kits de preparação para emergências e uma tenda para fazermos a triagem dos pacientes. A organização também nos ajudou na logística e nos aconselhou tecnicamente.

No entanto, quando as pessoas de Ghouta Oriental começaram a chegar a Qalaat Al Madiq, ficamos sobrecarregados e pressionados com tanto trabalho. Fomos pegos um pouco desprevenidos no primeiro dia, quando 5 mil pessoas foram deixadas em frente a nossa instalação. Não estávamos prontos para tratar tantos pacientes. Toda vez que mais deslocados internos chegavam, enfrentávamos os mesmos tipos de desafios e dificuldades. Mas dessa vez, o número de pessoas foi muito maior do que o esperado.

Muitas pessoas feridas ou necessitando de cuidados médicos urgentes.

Mais de 200 pacientes com lesões traumáticas chegaram ao nosso hospital nos primeiros dias. A maioria das pessoas foi atingida por bombardeios durante a recente ofensiva, mas havia também pacientes atingidos por balas. Além disso, tivemos que realizar mais de 20 partos, naturais e cesarianas . Todos os dias mobilizávamos nosso pessoal médico para lidar com essa emergência. Além das lesões traumáticas, também estávamos diagnosticando muitas necessidades médicas que normalmente deveriam ser tratadas por especialistas. Tivemos que atender algumas crianças sofrendo de desnutrição, por exemplo. Não tínhamos profissionais de saúde especializados para atender a essas necessidades, e não tínhamos uma seção dedicada a esses tipos de caso em nosso hospital.

Tratamos o maior número possível de pacientes, enquanto outros foram transportados e encaminhados a instalações com departamentos médicos especializados. Embora nosso hospital tenha sido e ainda seja crítico no contexto de resposta a essa emergência, nós realmente tivemos que depender de outros hospitais e organizações para fornecer melhor assistência às pessoas.

Nossas instalações são relativamente pequenas e temos apenas uma sala de cirurgia, então simplesmente não conseguimos lidar com esse fluxo de pacientes por conta própria. Por exemplo, em algum momento, um dos comboios foi alvo de tiroteios durante o trajeto em direção ao noroeste da Síria e oito pacientes feridos a bala chegaram de uma só vez, direto do ônibus. Precisaríamos de duas a três salas de cirurgia para lidar com a chegada desses pacientes.

Um grande número de pessoas vindo de Ghouta Oriental se estabeleceu em Qalaat Al Madiq e seus arredores. A pressão, o estresse e a carga de trabalho permanecem altos: todos os dias, encontramos pessoas que precisam de tratamento e pacientes que precisam ser operados. Tivemos um grande aumento no número de pacientes que chegam diariamente as nossas instalações. Este último mês tem sido muito difícil para nós: somos poucas equipes médicas  e lidamos com milhares de pacientes.”

MSF tem auxiliado a oferta de assistência médica às comunidades na região de Ghouta Oriental desde 2013. Incapaz de estar fisicamente presente, a organização humanitária médica apoiou médicos sírios remotamente. No norte da Síria, MSF mantém diretamente cinco instalações de saúde e três equipes em clínicas móveis, e é parceira de cinco instalações. A organização também apoia remotamente cerca de 25 centros de saúde em todo o país, localizados em áreas onde as equipes não podem estar permanentemente presentes.

As atividades de MSF na Síria não incluem áreas controladas pelo grupo Estado Islâmico, uma vez que nenhuma garantia de segurança e imparcialidade foi obtida de sua liderança. MSF tampouco trabalha em áreas controladas pelo governo, uma vez que os pedidos de permissão de MSF até o momento não resultaram em nenhum acesso. Para garantir independência de pressões políticas, MSF não recebe financiamento de qualquer governo para o seu trabalho na Síria.


 

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