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Picada de cobra: uma crise negligenciada

06/06/2016
MSF teve de adaptar o tratamento de pacientes de picada de cobra na medida em que o soro antiofídico mais efetivo do mercado teve sua produção paralizada
Picada de cobra: uma crise negligenciada

Foto: Cédric Gerbehaye/Agence Vu

Nyekuony, de 35 anos, estava pescando em um rio próximo de sua casa nos pântanos Sudd, no Sudão do Sul, uma das maiores áreas úmidas do mundo, quando foi picada no pé por uma cobra. Ela buscou ajuda com um curandeiro tradicional, depois usou medicamentos de uma farmácia local, mas a ferida persistia. Em pouco tempo, sua carne e seus ossos começaram a apodrecer, corroendo seu pé e parte de sua perna. Impossibilitada de andar, Nyekuony passou a se movimentar engatinhando. A essa altura, a região estava tomada pelo conflito sul-sudanês, e era muito perigoso tentar chegar a um hospital.

Epidemiologista de MSF conduz pesquisa sobre picada de cobra na região de Agok, no Sudão do Sul (Foto:  Pierre-Yves Bernard/MSF)Dois anos após ser picada, Nyekuony chegou à clínica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Mayom, de onde foi transferida para o hospital de MSF em Agok. Um cirurgião amputou sua perna para prevenir maiores danos e, hoje, Nyekuony está andando em pé novamente com a ajuda de muletas. Nyekuony teve sorte ao sobreviver, mas, se ela tivesse sido tratada antes, sua perna poderia ter sido salva.

Nyekuony é apenas uma das cerca de 5 milhões de pessoas picadas por cobras a cada ano. Dessas, 125 mil morrem e 400 mil ficam permanentemente incapacitadas ou desfiguradas. Muitas das vítimas são crianças e a maioria vive em áreas rurais onde pode ser difícil encontrar um médico. Mas mesmo aquelas que conseguem chegar a um centro de saúde abastecido com soros antiofídicos efetivos por vezes não têm condições de pagar pelo tratamento, que pode custar até 250 dólares por paciente – o equivalente a dois anos de salário para alguns deles.

Equipes de MSF estão oferecendo tratamento gratuito para um número cada vez maior de pessoas picadas por cobras, incluindo mais de 300 por ano no hospital em Agok – a única instalação de saúde da região que contém soros antiofídicos seguros e efetivos.

Nyajinma, de seis anos, tratada por MSF após ser picada por uma cobra enquanto dormia (Foto: Alexandra Malm/MSF)O soro antiofídico fundamental para salvar a vida de Nyajinma, de seis anos, que foi levada ao hospital de Agok em uma noite com a pele empolada, a frequência cardíaca perigosamente alta e a mão, o braço e o peito inchando rapidamente. Picada por uma cobra enquanto dormia, Nyajinma foi carregada pela mãe por uma hora e meia até o centro de saúde mais próximo, apenas para descobrir que não havia soro antiofídico disponível. Nyajinma, então, foi encaminhada para o hospital de MSF em Agok. “Nós demos a ela duas doses de soro antiofídico imediatamente”, diz Bonface Omuli, profissional de saúde de MSF. “Nós tivemos de agir rápido porque temíamos que a menina morresse. Mas, felizmente, ela se recuperou.”

MSF tratou Nyajinma com o soro antiofídico FAV-Afrique, produzido pela empresa farmacêutica francesa Sanofi-Pasteur. É o soro antiofídico mais polivalente disponível atualmente, o que significa que é efetivo no tratamento de picadas de dez das cobras mais comumente venenosas de partes da África subsaariana.   

No entanto, a Sanofi-Pasteur interrompeu a produção do FAV-Afrique. As doses existentes expirarão no fim de junho de 2016. Embora existam outros soros antiofídicos, eles não são efetivos contra todos os tipos de venenos de cobras, e só tiveram sua segurança e eficácia testada em pequenos estudos ou em contextos geográficos limitados na África.

“Nós teremos de usar dois soros antiofídicos diferentes como uma solução provisória”, diz Christine Jamet, gestora dos programas de MSF no Sudão do Sul. “Será muito mais complexo tratar pacientes, na medida em que os soros antiofídicos alternativos não cobrem a mesma gama de espécies de cobras como o FAV-Afrique. Esse é um problema, já que as vítimas raramente sabem o tipo específico de cobra que as picou. Agora, teremos de tratá-las de acordo com os sintomas. Não temos certeza de qual impacto isso terá em nossos pacientes, mas, hoje, não temos outra escolha.”

Para vítimas de picada de cobra no Sudão do Sul, obter tratamento permanece uma enorme dificuldade. Essa situação é sintomática de uma crise generalizada: a maioria das vítimas de picada de cobra no mundo não tem condições de obter o tratamento que poderia salvá-las da morte ou de uma desfiguração permanente. Até que os soros antiofídicos sejam seguros, estejam disponíveis e tenham um preço acessível, centenas de milhares de pessoas continuarão sendo vítimas negligenciadas de uma crise negligenciada.