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“As pessoas têm pouquíssimo tempo para viver o luto no Paquistão”

03/09/2014
Responsável pelo programa de saúde mental do país por nove meses, psicóloga fala sobre sua experiência e casos marcantes

“Muitas pessoas se surpreendem com o fato de que conversas e aconselhamento podem ajudar. É uma sociedade muito dependente de medicamentos. Quando alguém tem um problema, a tendência é que tome um remédio”, conta a psicóloga australiana Saràh Dina. Ela deixa o país motivada pelos resultados positivos das sessões de saúde mental entre a população afetada pelo conflito, pela pobreza e pelas condições de vida desafiadoras. Enquanto esteve no país, Saràh coordenou o trabalho de uma equipe de conselheiros de MSF na província do Baluchistão. Nesta entrevista, ela explica o que aprendeu com a experiência.

Por que MSF mantém um programa de saúde mental no Baluchistão?
Nosso programa de saúde mental na província beneficia pacientes dos projetos que MSF administra na capital, Quetta, e na cidade vizinha de Kuchlak. Começamos o programa em 2008. Um médico que trabalhava em Kuchlak naquele período contou que muitas mulheres chegavam à clínica com queixas físicas, dores generalizadas pelo corpo e dores de cabeça que não podiam ser explicadas de forma médica. Ao se aprofundarem no assunto, ficou claro que havia razões psicológicas para as dores. O programa foi estendido para o hospital pediátrico de Quetta alguns anos atrás.

Quais os tipos de pessoas demandam os serviços?
A maioria dos nossos pacientes são mulheres (cerca de 82%), predominantemente adultas, mas também atendemos crianças, e essa parte do programa está crescendo. A maioria dos pacientes têm nível socioeconômico baixo. Muitos vêm do Afeganistão e chegaram como refugiados anos atrás. Atendemos muitas mulheres com depressão e ansiedade. Superficialmente, pode parecer algo comum em qualquer outro lugar do mundo, mas, quando você vai um pouco mais fundo, percebe que as razões para esses problemas são bastante específicas da região.

Quais são os fatores mais recorrentes que afetam a saúde mental das pessoas?
Observamos muitas questões relacionadas com violência. Geralmente, as pessoas nos procuram com uma combinação de diferentes fatores que afetam seu bem-estar psicológico. Algumas foram expostas à guerra e ao conflito. Muitas vivenciaram muito luto e muita perda, também como forma de retaliação a situações como mortes maternas e infantis. Dito isso, é uma comunidade muito resiliente.

Você poderia descrever alguns casos típicos?
É tão difícil descrever um caso típico, mas, para citar um exemplo, temos atendido mulheres que perderam seus maridos muitos anos atrás durante a guerra, e, ainda assim, mantém acesa a esperança de que eles possam estar vivos. Isso pode assombrar algumas mulheres pelo resto de suas vidas. Espera-se que, agora, elas sejam financeiramente responsáveis por seus filhos e, caso não tenham familiares por perto para ajudá-las, isso significa uma enorme pressão sobre elas.

Algumas mulheres também se deparam com violência em ambiente familiar e procuram os conselheiros para buscar algum alívio, já que não podem falar sobre o assunto de forma tão aberta e franca em nenhum outro lugar. Também recebemos homens e mulheres com sintomas de estresse pós-traumático. Alguns têm pesadelos e flashbacks relacionados com períodos de suas vidas, os quais prefeririam esquecer.

Como essas mulheres lidam com seu luto?
Geralmente, as pessoas têm pouquíssimo tempo para viver o luto. Algumas mulheres com 30 ou 40 anos já tiveram mais de dez filhos, algumas até 15 ou 16, e nem todos sobreviveram. Atendemos casos de mulheres que chegaram a perder quatro ou cinco de seus filhos e espera-se que elas simplesmente se recuperem e sigam com suas vidas depois de cada morte. É importante, no entanto, ressaltar que esse não é o caso de todas as famílias.

Qual o retorno que dos nossos pacientes?
Muitas pessoas se surpreendem com o fato de que conversas e aconselhamento podem ajudar. É uma sociedade muito dependente de medicamentos. Quando alguém tem um problema, a tendência é que tome um remédio. Muitas pessoas têm tomado medicamentos psiquiátricos por muitos anos e, quando elas vêm até nós, dizem que os medicamentos não ajudam. Isso se deve às excessivas prescrições de medicamentos inadequados e ao diagnóstico equivocado. No início, não sabíamos como funcionaria esse programa, porque os conceitos de aconselhamento e de saúde mental são muito novos no Baluchistão, mas, com o passar dos anos, observamos um aumento muito positivo no número de pessoas acessando nossos serviços. Em média, nossos conselheiros atendem cinco pacientes por dia, que é um número alto, se você passa tempo considerável com cada um deles. E os pacientes nos procuram por três ou quatro vezes. Algumas pessoas param seus tratamentos após essas sessões por se sentirem melhor, outras precisam voltar. Não temos equipamentos adequados para lidar com casos psiquiátricos graves, como psicose. Esses pacientes têm que ser encaminhados para centros especializados. Nós podemos atender um paciente por muitos anos, mas não é nosso objetivo oferecer aconselhamento de longo prazo.

Você poderia compartilhar uma experiência positiva conosco?
Dada à incerteza do contexto em que atuava, nunca sabia ao certo se conseguiria ter uma consulta de acompanhamento com um paciente. A equipe de conselheiros me informava do progresso de mulheres que eu pudesse ter conhecido. Uma mulher foi atendida por um dos conselheiros e eu sabia que meu tempo no programa estava próximo do fim. Sem saber se nos encontraríamos novamente, ela pediu ao conselheiro que a ensinasse algumas palavras em inglês. Então, ela me agradeceu por nosso trabalho com seu pouco inglês pelo telefone. Percebi que é possível a comunicação com profundidade e gentileza sem que seja necessário falar a mesma língua.

MSF oferece sessões de aconselhamento em saúde mental em duas diferentes localidades na província do Baluchistão: na capital, Quetta, e em Kuchlak, região adjacente. Em Kuchlak, a organização administra uma clínica voltada para cuidados materno-infantis e um programa para leishmaniose. Em Quetta, MSF administra um hospital pediátrico que trata, principalmente, recém-nascidos e também oferece serviços de nutrição. Entre janeiro e julho de 2014, as equipes de MSF conduziram 3.176 consultas voltadas para a saúde mental. A meta para o ano inteiro era chegar próximo das 4 mil.

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