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“As pessoas nos dizem que essas são as piores inundações que já viram”

05/12/2019
Kim Phillips, coordenadora de logística de MSF no Sudão do Sul, conta sobre as atuais enchentes no país
“As pessoas nos dizem que essas são as piores inundações que já viram”

Foto: Nicola Flamigni

“Uma das áreas mais afetadas é Ulang, no nordeste. A devastação que estamos testemunhando lá é sem precedentes. As pessoas nessas áreas estão acostumadas a inundações, mas nos dizem que essas são as piores que já viram.

Muitas pessoas perderam tudo. Elas perderam suas casas, perderam seu gado e perderam suas colheitas. São pessoas que já tinham muito pouco, mas agora estão em uma situação desesperadora.

Nossas equipes de emergência estão lá todos os dias, viajando em barcos de vilarejo em vilarejo. Como organização de emergência, precisamos ir aonde as pessoas estão. Fornecemos assistência médica por meio de clínicas móveis e distribuímos itens essenciais, como lonas de plástico, cobertores, panelas e redes mosquiteiras, assim como água. Também instalamos unidades de tratamento de água em duas áreas.

Estamos fazendo o possível para mover as pessoas que precisam de cuidados médicos adicionais para fora da área. Nossa maior preocupação no momento, no entanto, é o risco de um surto de cólera. Também estamos atentos a um aumento nos casos de diarreia e a um aumento nos pacientes com malária.

As pessoas aqui são incrivelmente resilientes. Muitas áreas ficaram isoladas e vilarejos inteiros estão embaixo d'água ou foram transformados em pântanos. Sob essas condições, qualquer deslocamento é muito difícil. Elas não podem sair da área, pois existe um risco real de cobras e crocodilos.

Conhecemos uma mulher que perdeu praticamente tudo. Sua casa estava em ruínas, mas ela estava determinada a fazer algo para ajudar. Ela pegou as paredes de madeira de sua casa e construiu uma jangada improvisada para levar as crianças à área seca. Ela estava fazendo o que podia.

Locomover-se por essa área do Sudão do Sul é um desafio, mesmo em momentos melhores. É uma região remota e inacessível, com poucas estradas. Embora tenhamos passado alguns dias sem chuva, não há sinais de que as inundações estejam diminuindo. A água ainda vem da Etiópia pelo rio Sobat.

Mesmo quando a água finalmente recuar, as pessoas aqui ainda enfrentarão sérias dificuldades. Elas precisarão de novos abrigos e, com a agricultura destruída e o gado perdido, a desnutrição será um risco real e duradouro.

É de partir o coração pensar nos anos de conflito e guerra civil pelas quais essas pessoas já passaram. E agora elas sofrem ainda mais. É difícil não se emocionar com isso. Às vezes, depois de sair com os barcos e voltar para minha tenda, onde está seco e tenho comida, pergunto-me se poderíamos e deveríamos fazer mais. “Como podemos alcançar mais pessoas? O que podemos fazer para ajudar?” Eu sei que o resto da equipe sente o mesmo.

Mas isso nos estimula a continuar. Estou com MSF há muitos anos, mas nunca me canso do trabalho. Sou sempre grata por poder fazer o que faço. Isso porque eu sei o impacto que MSF tem. Mesmo depois que essa inundação acabar, eu sei que ainda estaremos aqui, oferecendo assistência vital onde pudermos”.
 

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