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Pessoas do sudoeste da Ásia ficam cegas devido a um vírus negligenciado

01/12/2007
Estudo publicado na PloS Medicine mostra que é possível integrar prevenção ao CMV aos programas da Aids existentes

A falha de diagnóstico e tratamento do citomegalovírus retinite (CMV) em pessoas com a Aids está fazendo com que muitos pacientes fiquem cegos, indica um estudo que será publicado neste sábado na revista científica "PLoS Medicine". Ao realizar um estudo piloto, os autores descobriram que a CVM retinite, que foi drasticamente reduzida nos países ricos desde o surgimento da terapia anti-retroviral, ocorreu em 23, 27 e 32% dos pacientes com Aids em estado avançado no Camboja, Mianmar e Tailândia, respectivamente. Treinando clínicos para identificar o problema e tornando o melhor tipo de tratamento mais acessível, os autores defendem que o diagnóstico e tratamento podem ser facilmente integrados aos programas de Aids já existentes.

"Nós podemos diagnosticar CMV retinite de maneira fácil e eficaz em menos de dois minutos e há um tratamento prático e eficaz", afirmou Dr. David Wilson, um dos autores do estudo e ex-coordenador médico de MSF na Tailândia. "Em vez de enfrentarmos o problema, é como se o mundo tivesse fingindo que as mortes e as causas da cegueira CMV não existissem, ou pior, estamos apenas aceitando-as".

O diagnóstico e tratamento precoce do CMV retinite poderia parar o lento, porém contínuo, progresso da doença que leva à cegueira em entre três a seis meses em pacientes cujo sistema imunológico está gravemente enfraquecido pelo HIV. Mas porque freqüentemente não há manifestação de sintomas em um estágio inicial da doença, a CMV só pode ser diagnosticada através de uma análise de todos os pacientes potencialmente em risco.

"Exames de retina rotineiros em pacientes soropositivos de alto risco em Mianmar nos permitiram salvá-los da cegueira relacionada à CMV", contou Dr. Kalpana Sabapathy, conselheiro de HIV/Aids para MSF, citando recentes estudos realizados no programa de Mianmar por um oftalmologista e especialista em CMV da Fundação Seva, Dr. David Heiden.

Em muitos países, a melhor opção de tratamento, valganciclovir oral, custa mais do que US$ 10 mil por um mês de tratamento. Um tratamento alternativo com ganciclovir intravenoso é cansativo, uma vez que requer infusões duas vezes por dia por duas ou três semanas, e depois infusões diárias por outros dois ou três meses. Um terceiro método para tratar CMV retinite, com injeções intraoculares de ganciclovir – médicos realizaram pulsões em um ou ambos os olhos dos pacientes – é ainda mais inapropriada. Essa técnica invasiva requer treinamento especial e não funciona para prevenir formas fatais da CVM que ocorrem na parte exterior dos olhos.

A integração da CMV retinite nos programas de HVI é possível, mas depende da realização de exames regulares de pacientes potencialmente em ricos e do acesso garantido do medicamento oral valganciclovir, defendem os autores. Até lá, o CMV retinite vai continuar a ser uma doença negligenciada associada à epidemia da Aids.

"Esse é um caso clássico de círculo vicioso", diz o Dr. Tido von Schoen-Angerer, diretor da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de Médicos Sem Fronteiras. "Como o preço do medicamento é muito caro, os programas de HIV não estão realizando os exames e por isso não há o registro de muitos pacientes com CMV. Mas uma vez que há o registro de tão poucos pacientes, diminuir o preço do tratamento e garantir seu acesso nunca foram uma prioridade".

CMV retinite não é mencionada nas diretrizes atuais e pendentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o tratamento de HIV nos países desfavorecidos.

Apesar de ter havido algum progresso com relação ao acesso de valganciclovir, isso ainda é limitado. ONGS propuseram o estabelecimento de um preço com desconto pela Roche de € 1,281 (US$ 1,899) para um mês de terapia, mas essa oferta também é cara e exclui muitos países onde o problema de CMV retinite é mais grave.

Isso fez com que difíceis compromissos fossem assumidos. Na Tailândia, junto com parceiros locais, MSF decidiu usar a fórmula suboptima intravenosa de ganciclovir, além das injeções intravenosas. Na China, MSF paga o preço sem descontos pelo valganciclovir oral, que custa € 6.930 (US$ 10.273). Custa mais caro do que um carro econômico chinês.

Há uma necessidade urgente de que a Roche estenda seus preços com descontos para todos os países em desenvolvimento e que diminua ainda mais seu preço. Os preços atuais na China e Tailândia são similares aos dos países ricos, onde é quase que exclusivamente usado para prevenir CMV nos pacientes que serão submetidos a transplantes de órgão. Roche tem como alvo um mercado pequeno e lucrativo , e está protegendo sua posição através de patentes, incluindo na Índia, uma fonte significante de medicamentos para os países em desenvolvimento.

No Brasil, a situação da patente do Valcyte (Valganciclovir) é complexa. Apesar de várias irregularidades e de um parecer negativo da Anuência Prévia, o INPI optou por conceder a patente e publicou este parecer. Aproveitando da discordância, a Roche entrou com uma ação na justiça para conseguir a patente e conseguiu. A Anvisa está recorrendo da decisão. O preço do Valcyte no Brasil é de R$ 7.847 segundo o website do Ministério da Saúde. Não temos informações recente a respeito da questão do acesso no Brasil.

O estudo do PLoS foi escrito por uma equipe internacional de oftalmologista e de especialistas de HIVe tem como base a experiência clínica de Médicos Sem Fronteiras e outros programas estudados pelo autor, Dr. David Heiden, consultor da Fundação SEVA,baseada no Centro Médico Califórnia Pacific, em São Francisco. O artigo " Cytomegalovirus Retinitis: The Neglected Disease of the AIDS Pandemic" pode ser gratuitamente acessado em:

http://medicine.plosjournals.org/perlserv/?request=get-document&doi=10.1
371/journal.pmed.0040334