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P&D de medicamentos não atendem as necessidades de saúde dos países em desenvolvimento

16/11/2004
MSF cobra da ‘Cúpula Ministerial sobre Pesquisa em Saúde’, que acontece esta semana no México, o desenvolvimento de novos medicamentos para doenças negligenciadas. 1% dos medicamentos desenvolvidos nos últimos 25 anos foi para as doenças tropicais

O atual sistema de pesquisa e desenvolvimento (P&D) na área de saúde não está conseguindo trazer progressos médicos para a população mais empobrecida, diz a organização humanitária da área de saúde, Médicos Sem Fronteiras. Esta declaração de MSF foi feita na abertura da ‘Cúpula Ministerial sobre Pesquisa em Saúde - Unindo o Conhecimento para Alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio', na Cidade do México.

“O sistema atual de P&D para os pobres é um duplo fracasso: os novos medicamentos que chegam ao mercado são muito caros e as necessidades de saúde das pessoas nos países em desenvolvimento estão sendo ignoradas”, disse Ellen‘t Hoen, Diretora da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de MSF. “Para que esta Cúpula seja um sucesso, precisará definir as políticas que garantam o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas e ferramentas de diagnóstico para as doenças negligenciadas”.

A pesquisa e o desenvolvimento (P&D) de medicamentos estão praticamente restritos ao setor privado, cujos objetivos são os retornos financeiros e não as necessidades de saúde pública. Como resultado, apenas 1% dos medicamentos desenvolvidos nos últimos 25 anos foi para tratar as doenças tropicais. Estas doenças matam centenas de milhares de pessoas por ano, a maioria nos países em desenvolvimento.

“Muitas vezes, nossos pacientes têm mais medo de morrer devido ao tratamento do que da doença”, disse Virginia Morrison, uma enfermeira de MSF que trabalha em Angola. “O protocolo nacional para um segundo estágio da doença do sono em Angola é o melarsoprol, um remédio horrível, descoberto há 55 anos, que queima a veia e mata um em cada vinte pacientes. A única alternativa atual é a eflornitina, que requer quatro infusões por dia, por um período de 14 dias e que não é adaptado às estruturas dos países mais pobres. Mesmo havendo muitas pesquisas básicas sobre a doença, os resultados não estão sendo transformados em medicamentos e diagnósticos novos, efetivos, seguros e fáceis de usar”.

Outro exemplo é a doença de Chagas, uma doença parasitária que causa danos irreparáveis aos órgãos internos e mata 50 mil pessoas por ano, principalmente nas áreas rurais de comunidades pobres da América Latina. “Os pacientes de Chagas não são do interesse da indústria farmacêutica; muitas pessoas morrem antes mesmo de serem diagnosticadas. Precisamos desesperadamente de novos medicamentos para tratar as pessoas com Chagas”, disse Silvia Moriana, coordenadora geral de MSF na Bolívia.

Os gastos globais em pesquisa de saúde aumentaram de 30 bilhões de dólares em 1986 para 106 bilhões de dólares em 2004. No entanto, 90% dos recursos são gastos com problemas de saúde que afetam menos de 10% da população mundial.

“Os governos precisam assumir a responsabilidade das políticas de P&D em saúde”, diz Ellen‘t Hoen. “Temos ouvido muitas promessas, mas não vemos nenhuma ação”.