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Paquistão: Atendimento médico não consegue suprir demanda

30/06/2009
Unidades médicas de Mardan estão sobrecarregadas com a chegada de deslocados das zonas de conflitos, no Vale do Swat e em Buner

Na ala das mulheres no Complexo Médico de Mardan, uma mãe deslocada do Swat senta em uma cama com seu bebê de três meses. O menino pesa apenas 1,8kg e está mole em seus braços. O hospital distrital em Mardan transferiu o bebê para ala gerenciada por Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Complexo Médico de Mardan, um hospital próximo à cidade.

“Esse bebê desnutrido precisa de observação 24 horas por dia e deve ser alimentado com leite terapêutico a cada três horas”, disse o Dr. Salha Issoufu, o coordenador de emergência de MSF em Mardan. “É muito difícil para a equipe no hospital distrital oferecer esse tipo de tratamento quando o número de pacientes que eles recebem praticamente triplicou desde a chegada de tantas pessoas deslocadas.”

O hospital distrital, no centro de Mardan, é de fácil acesso aos habitantes locais e aos recém deslocados, e foi rapidamente sobrecarregado pelo aumento no número de pacientes, depois que os conflitos começaram no Vale do Swat e Buner. Enquanto as autoridades de saúde do Paquistão rapidamente reforçam suas equipes, enviando pessoal médico de todo o país a Mardan, o hospital permanece, mesmo assim, funcionando além de sua capacidade. Para aliviar a carga de pacientes, MSF abriu uma ala de 20 leitos no Complexo Médico de Mardan no dia 4 de junho, que rapidamente dobrou de tamanho. Em 19 de junho, MSF começou a trabalhar na emergência do hospital.

“Nós não vimos sinais alarmantes de uma emergência médica típica, a não ser a necessidade de aumentar a capacidade das estruturas de saúde locais”, disse o Dr. Issufou. “Alguns dos problemas médicos mais comuns que vimos até agora estão relacionados à desidratação, devido a diarreia e calor intenso. As famílias deslocadas vêm de um clima muito mais frio nas montanhas. Crianças e idosos são particularmente vulneráveis ao calor. Em relação a epidemias, a cólera é endêmica na região, então uma vigilância epidemiológica foi montada pelas autoridades, e MSF está pronta para oferecer apoio se necessário.”

Expandindo serviços para suprir necessidades crescentes

O Centro Rural de Saúde Takht Bhai fica a cerca de 30 minutos de carro do Complexo Médico de Mardan. Em cooperação com as autoridades de saúde locais, MSF começou a trabalhar no local no dia 2 de junho, e está conduzindo consultas para pessoas deslocadas, incluindo pré-natal. A organização também montou uma sala de parto nesse centro.

“Quando chegamos ao Centro de Saúde Takht Bhai, a situação parecia caótica porque a equipe estava totalmente sobrecarregada”, disse Jean Pierre Amigo, coordenador de emergência de MSF em Mardan. “MSF já estava realizando consultas em campos vizinhos para pessoas deslocadas, mas nós também precisávamos dar apoio às unidades de saúde fora do campo. Havia uma necessidade específica de providenciar uma sala de parto 24 horas, então renovamos a que já existia em Takht Bhai e asseguramos um atendimento médico 24 horas para dar assistência nos partos”.

Junto com as autoridades de saúde locais, MSF começou uma campanha para assegurar que as mulheres soubessem da existência dos serviços 24 horas gratuitos. “Não existe nenhuma razão realmente para que as mulheres tenham que dar a luz em condições perigosas quando elas têm um centro recém reabilitado, com uma equipe médica disponível 24 horas por dia para ajudá-las”, disse Jean Pierre. “Toda semana, o número de partos e consultas dobra, incluindo pré-natal. Nós estamos reabilitando mais salas no centro de saúde, para expandir a capacidade.”

De volta ao Complexo Médico de Mardan, um menino com diarreia aguda chega de um hospital distrital e é rapidamente isolado.

“Eles não têm salas para casos isolados no hospital distrital, então o menino foi enviando para cá”, disse o Dr. Issufou. “O hospital distrital está tão cheio que existem dois ou três pacientes para cada cama na ala pediátrica. Em alguns leitos, você pode encontrar um menino como esse, com diarreia aguda, dividindo espaço com uma criança sofrendo de infecção respiratória. Superlotação aumenta o risco de infecções se espalharem entre os pacientes.”

Enquanto isso, o pequeno bebê desnutrido admitido no dia anterior parece mais alerta e está começando a olhar em volta – um bom sinal.

“Eu passei os últimos meses levando-o a diferentes hospitais”, disse a mãe, “mas eu não consegui continuar indo a Peshawar porque é muito caro. Então, eu o trouxe para casa, no Swat. Nós fugimos dos conflitos e viemos ficar com nossa família que vive aqui. Eu tenho sete filhas e este é o meu único filho. Eu só quero que ele melhore.”

O Dr. Issufou está otimista.“Nas últimas 24 horas a situação do bebê melhorou. Ele está comendo bem e está bem mais acordado do que quando chegou. Em mais duas semanas, ele deve estar bem o bastante para deixar o hospital”, diz.

Entre 4 e 20 de junho, um total de 153 pacientes foram admitidos na ala de MSF no Complexo Médico de Mardan. No dia 19 de junho, MSF começou a trabalhar na sala de emergência, onde 41 pacientes foram tratados nos primeiro três dias de atividade.

No Centro Rural de Saúde de Takht Bhai, um total de 2.900 atendimentos de saúde básica e consultas de emergência aconteceram entre os dias 2 e 20 de junho, somado às 205 consultas pré-natal e aos 13 partos. No distrito de Mardan, MSF também opera em clínicas ambulatoriais e em campos para pessoas deslocadas, abrigando 5.800 pessoas e oferecendo refúgio, itens de emergência e serviços de água e saneamento. Clínicas móveis oferecem consultas pré-natal e foram a oito escolas diferentes que estão abrigando famílias deslocadas.

No Paquistão, MSF não aceita financiamento de nenhum governo ou agência doadora e confia somente nos doadores privados do público em geral para realizar este trabalho.

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