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Palestina: “Eu não era assim antes"

24/10/2019
Crise invisível de saúde mental assola a Cisjordânia
Palestina: “Eu não era assim antes"

Foto: Juan Carlos Tomasi

Desde 1996, MSF oferece consultas de saúde mental na cidade de Hebron, na Cisjordânia, onde civis palestinos sofrem abusos frequentes, como demolição de suas casas, detenção arbitrária e ataques sistemáticos. Além de sofrerem lesões físicas, homens, mulheres e principalmente crianças sofrem impactos significativos na saúde mental que perduram no longo prazo.
 
Rahaf, de 14 anos de idade, experimentou graves sintomas psicossomáticos, como insônia e mãos trêmulas, nos últimos dois anos, após a prisão e detenção de seu pai e três irmãos. "Estávamos dormindo e quando acordamos eles estavam em cima de nossas cabeças", diz ela sobre o exército israelense, que rotineiramente invade a casa da família desde que ela se recorda. "Em um mês, eles invadiram a casa duas vezes". 
 
O ponto de ruptura de Rahaf ocorreu quando eles detiveram seu quarto irmão, Hamzeh, enquanto ele estava no trabalho. "Eu nunca pensei que eles levariam Hamzeh", diz ela. “Quando o detiveram, ele estava trabalhando no posto de gasolina. Houve uma gravação de vídeo, e nós os vimos espancando-o. Não ouvimos nada sobre ele até que o trouxeram para casa 60 dias depois".
 
A história de Rahaf é familiar. Palestinos em toda a Cisjordânia, e em particular em Hebron, sofrem experiências semelhantes todos os dias. Alguns são perseguidos por colonos que desejam estabelecer a propriedade da terra, enquanto outros recebem notícias de que sua casa será demolida. Alguns testemunham as demolições, enquanto outros entram em batalhas legais que podem durar anos. Juntas, essas experiências criam um ambiente de constante instabilidade, ansiedade e estresse, o que pode afetar seriamente sua saúde mental.
 
Mãe de seis filhos, Raghda está familiarizada com esta rotina. Ela tem lutado contra uma ordem de demolição emitida para a casa que divide com dois de seus filhos nos últimos 11 anos e, finalmente, procurou ajuda psicológica de MSF em 2014, quando seu filho de 12 anos foi detido pelos militares israelenses e preso por seis meses. Ela começa a chorar ao contar esse episódio, descrevendo o impacto que isso teve sobre ela e seus filhos.
 
“Eu não sou o tipo de pessoa que normalmente mostra tristeza, mas por causa de tudo o que passei, comecei a chorar na frente deles. Eu não era assim antes. Quando cheguei a esse ponto, reconheci que estava quebrando. Eu não sou uma pessoa agressiva que bate em crianças, então comecei a quebrar pratos e copos. Senti que estava deixando escapar minha raiva quebrando essas coisas, em vez de machucar meus filhos ou a mim mesma”.
 
Os problemas de saúde mental que surgem em resposta a eventos traumáticos como os sofridos por Ragha podem levar a um sentimento prolongado de frustração que, por sua vez, pode resultar em colapso familiar ou comunitário. Em Hebron, MSF trabalha para combater os piores impactos dos problemas de saúde mental, oferecendo apoio psicológico gratuito por profissionais de saúde mental treinados para aqueles que apresentam sintomas como pesadelos ou tremores.
 
Abu Firas é um dos agentes psicossociais de MSF em Hebron que apoia famílias que apresentam sintomas de problemas de saúde mental. Ele trabalha no projeto Hebron com MSF há quase 20 anos. “Você pode imaginar qual será a resposta de uma mãe ou de um pai quando testemunharem a demolição de sua casa, que antes consideravam uma área segura. Nesses casos, as pessoas sofrem de estresse, ansiedade, problemas de sono; sentem o tempo todo que suas vidas estão ameaçadas, não têm visão do futuro, estão sempre frustradas e sem esperança”, diz ele. “Nosso papel é fazer o possível para ajudá-los e apresentá-los aos recursos internos que eles já têm, para que possam continuar suas vidas normalmente. Alguns deles voltaram para suas universidades, escolas, alguns foram capazes de voltar ao trabalho e alguns foram capazes de sustentar suas famílias. Para mim, isso é uma conquista”.
 
Os efeitos desse tipo de violência são abrangentes e deixam muito poucas pessoas intocadas, com crianças em particular vulneráveis a problemas de saúde mental a longo prazo, como resultado de testemunhar ou sofrer eventos traumáticos. Entre fevereiro e julho de 2019, MSF alcançou 8.145 pessoas com serviços de saúde mental, das quais mais de 60% eram crianças.  O projeto continua em expansão, buscando prestar serviços ao maior número possível de pessoas afetadas. 
 

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