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Pacientes de cólera são deixados ao relento no Zimbábue

10/03/2009
MSF denuncia que a crise de cólera no país deixa pacientes do lado de fora das clínicas

"Nós somos refugiados em nosso próprio país", diz Blessing, um jovem zimbabuano, enquanto observa o campo em frente à clínica na cidade de Bindura Chiwardzo. Deitados na sujeira, debaixo de um sol devastador estão 71 pacientes de cólera que as autoridades locais preferiram deixar do lado de fora, no campo, do que no prédio policlínico bem em frente. Alguns encontraram bancos quebrados para deitar, enquanto outros se protegem debaixo dos retalhos das pequenas tendas erguidas ali. A única tenda ao ar livre ainda em pé está super lotada e imunda, a maioria das pessoas não tem abrigo contra o sol forte ou as chuvas torrenciais, frequentes nesta época do ano.

A crise de cólera no Zimbábue está longe do fim, o crescimento dos casos na capital, Harare, diminuiu, mas os surtos nas cidades de médio porte e nas áreas rurais continuam. A previsão de que o Zimbábue atingiria a marca de 50 mil casos de cólera foi ultrapassada meses atrás. A epidemia ainda avança por todo o país, infectando mais de 89 mil pessoas, de acordo com a estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), feita no dia 8 de março deste ano. Médicos Sem Fronteiras (MSF) já tratou aproximadamente 56 mil destes pacientes, através de suas unidades móveis e da abertura e funcionamento de dezenas de Centros de Tratamento de Cólera (CTC) ao redor do país.

Um dos últimos surtos é na cidade de Bindura, na região nordeste do Zimbábue. Há uma semana, as autoridades de saúde locais cogitaram fechar o pequeno CTC que MSF havia ajudado a construir em frente à clínica. MSF conseguiu convencê-los a não fechar o Centro, já que ainda havia uma média de dez pacientes recebendo tratamento nesta área.

No dia 22 de fevereiro, a unidade móvel de MSF checou este local e descobriu que houve um aumento de casos, com 56 pacientes admitidos no campo; em dois dias o número cresceu para 71. As autoridades locais se recusaram a permitir que os pacientes fossem transferidos para dentro do prédio vazio da clínica, em frente ao campo, alegando dificuldades de limpeza e desinfecção das instalações após o fim da crise. MSF considera que tal número de pacientes não pode ser adequada e humanamente tratado do lado de fora, no pátio.

Neste momento, tanto os pacientes quanto as enfermeiras do governo estão sem comida neste CTC improvisado. Alguns parentes de doentes conseguem levar alimentos, mas isto aumenta os riscos de infecção, já que a comida está sendo preparada nos pátios onde o surto de cólera surgiu. No entanto, estes pacientes têm sorte, já que os demais não têm ninguém que leve comida para eles, ou as famílias simplesmente não têm alimentos em casa.

Além disso, o problema da escassez de alimentos está afetando os profissionais de saúde. "A moral da equipe de enfermagem está baixa", comenta um dos oficiais de saúde do distrito, em uma reunião dos parceiros de saúde. Não é de se admirar. Não só a equipe de enfermagem do governo não é paga há meses, agora eles não recebem alimentação nem no trabalho. Apesar disso, as enfermeiras do governo zimbabuano trabalham incansavelmente dia e noite para tentar garantir que os pacientes continuem vivos.

Para piorar, o processo de gestão dos pacientes é difícil devido às más condições do local. Uma mulher de 50 anos morreu dois dias atrás, depois que MSF chegou à cidade de Chiwarizo, mas, no lugar apinhado de gente nenhum profissional notou que ela estava morta até algumas horas depois. A mulher estava deitada junto com outras vítimas inertes e exaustas da cólera. Os oficiais de Saúde Ambiental de MSF (EHO) tiveram que desinfetar e embrulhar o corpo na frente de outros pacientes, não havia outro lugar para fazer isto.

"Como vocês podem tratar alguém assim?" questionou uma das EHOs de MSF. Não há necrotério nem na clínica nem no campo. O corpo foi colocado no campo, ao lado dos pacientes deitados sob o forte sol,por não haver outro local para colocá-lo. Onze horas se passaram antes que fosse levado dali. "Isto é um ser humano", acrescenta ela, sacudindo tristemente a cabeça, "não deveria ser assim".

Nota: Desde que este artigo foi escrito, as autoridades locais cooperaram tornando um campo de futebol da região disponível para MSF construir um novo CTC ali. As autoridades do Ministério da Saúde também prometeram responder mais rapidamente a situações de emergência e facilitar os processos burocráticos.