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"Os hospitais no Iraque têm sempre que estar preparados”

10/01/2018
Patrick Durrant foi coordenador do projeto de Médicos Sem Fronteiras em Sulaymaniyah, no norte do Iraque, e fala sobre como tudo pode mudar em minutos na conjuntura local
"Os hospitais no Iraque têm sempre que estar preparados”

Foto: Sacha Myers

MSF começou a trabalhar em Sulaymaniyah em 2015, quando um grande influxo de pessoas que escaparam da violência em suas cidades chegou à região. Inicialmente, fornecemos serviços de água e saneamento no acampamento de Arbat para pessoas deslocadas e, em seguida, ampliamos o projeto para prestar serviços de saúde mental no campo de Ashti e reabilitação e apoio com profissionais para o hospital de emergência de Sulaymaniyah. O projeto terminou em 30 de novembro de 2017. Com o seu fim, Patrick refletiu sobre os desafios, as conquistas e o estado da saúde no Iraque.  


Qual é o estado da saúde no Iraque?

O Iraque tem um sistema de saúde decente, mas depois de décadas de conflito, instabilidade e dificuldades econômicas, ele está bastante sobrecarregado. E, embora as áreas ocupadas pelo grupo autoproclamado Estado Islâmico (EI) tenham sido retomadas, o Iraque continua a ser um lugar volátil - os atentados e os conflitos ainda são uma ocorrência regular. Os hospitais no Iraque têm sempre que estar preparados. Você nunca sabe o que acontecerá no próximo dia, hora ou minuto. Muitos hospitais não têm recursos para lidar com essas situações e é aí que MSF entra.

Por que MSF começou a trabalhar em Sulaymaniyah?

MSF começou a trabalhar em Sulaymaniyah em 2015, quando um grande influxo de pessoas que escaparam da violência em suas cidades chegou à região. As pessoas sentiram que Sulaymaniyah era um refúgio seguro.

No início, fornecemos atividades de água, saneamento e higiene no campo de Arbat. Depois, avaliamos os serviços de saúde nas áreas circundantes. Nós percebemos que o principal hospital de emergência - o único hospital de traumatologia em Sulaymaniyah - estava realmente sofrendo com o aumento acentuado de deslocados internos que chegavam. O número de admissões passou de 400 pacientes por dia para 800 por dia.

A região também enfrentava uma crise econômica e o hospital não tinha profissionais suficientes para lidar com a situação. Faltavam equipamentos adequados e partes do edifício estavam caindo aos pedaços. Como resultado, também houve um aumento no número de pessoas que morreram no hospital, então decidimos intervir e fornecer apoio.

Também identificamos a saúde mental como uma necessidade fundamental para deslocados internos, tendo em vista a violência que vivenciaram. Em resposta, criamos serviços de saúde mental no campo de Ashti em setembro de 2016.

O que continha o projeto?

No hospital de emergência de Sulaymaniyah, focamos na Emergência e na Unidade de Tratamento Intensivo. Concentramos nossos esforços em capacitar os profissionais e adequar o hospital aos procedimentos e normas internacionais. Nós também remodelamos totalmente a Emergência e a UTI. Agora, vê-se uma grande diferença nas instalações. Tivemos uma parceria positiva com a Direção de Saúde e vimos um grande aumento no número de vidas salvas no hospital.

MSF treinou um grande número de profissionais da Direção de Saúde em áreas como suporte vital e planejamento de atendimento de feridos em massa. Também começamos a treinar outros profissionais médicos na região. Tivemos um impacto maior do que pretendíamos no começo.

MSF também trabalhou no campo de Ashti, realizando atividades de promoção da saúde e saúde mental. O acampamento é o lar de pessoas que fugiram do conflito ainda em curso e não podem voltar para casa. Muitas pessoas testemunharam eventos muito traumáticos e precisam de apoio psicossocial nos campos.

No acampamento de Ashti, tínhamos uma equipe de conselheiros que forneciam consultas em salas privadas e também tínhamos agentes comunitários de saúde mental que iam de tenda em tenda tentar identificar as pessoas que precisavam de ajuda e prestar apoio aos casos identificados. Criamos um ambiente seguro para que as pessoas conversassem com conselheiros e recebessem apoio psicossocial.

A saúde mental é estigmatizada em muitos lugares no Iraque e muitas vezes as pessoas sentem vergonha de procurar ajuda. Tentamos reduzir esse estigma por meio de sessões de conscientização e reuniões em grupo no acampamento para que as pessoas se sentissem confortáveis ao acessar nossos serviços.

Por que você está encerrando o projeto?

MSF encerrou o projeto no hospital de emergência de Sulaymaniyah e no campo de Ashti em 30 de novembro de 2017. No acampamento, o número de famílias diminuiu para cerca de 2.500, à medida que mais pessoas retornam para casa. Trabalhamos de perto com o gerenciamento do campo para transferir as atividades de saúde mental para outras organizações locais que continuarão a trabalhar no campo.

No hospital, tivemos parceria positiva com a Direção de Saúde e vimos um grande aumento no número de vidas salvas. Treinamos muitos profissionais, remodelamos a unidade de terapia intensiva e a sala de emergência e capacitamos a equipe num ponto que acreditamos que o hospital é forte o suficiente para continuar sozinho sem o apoio de MSF.

MSF continuará a trabalhar em todo o Iraque. À medida que terminamos alguns projetos, estamos avaliando outras áreas e criamos novos projetos onde as necessidades são maiores.
 

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