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Os desafios logísticos de um campo de refugiados no Sudão do Sul

06/02/2015
Por seis meses, brasileiro esteve à frente de uma equipe de 65 profissionais nacionais

Quando a pessoa se forma em Engenharia Elétrica com especialização em Engenharia Microeletrônica, imagina que enfrentará atividades extremamente desafiadoras quando selecionada para trabalhar em projetos da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). A primeira tarefa de André Isidio como logístico no campo de refugiados de Doro, no Sudão do Sul, foi um tanto surpreendente: “Logo que cheguei, no meu primeiro dia em campo, uma das médicas colocou em minhas mãos um esfigmomanômetro, que é aquele aparelho de medir a pressão. Eu teria de consertá-lo. Passei algum tempo tentando desvendar como resolveria essa questão, para, finalmente, entregar o aparelho funcionando. Ela ficou muito feliz, e apontou para uma caixa cheia de equipamentos iguais àquele, todos precisando de reparo”, lembra ele, que agora acha graça do episódio. Mas, durante os seis meses que ficou no acampamento como logístico clínico, os desafios foram ganhando cada vez maior proporção, uma vez que o contexto é tenso e envolve a violência de confrontos armados.

A prioridade inicial de André no projeto foi a reestruturação do estoque para evitar a ruptura no abastecimento das quatro instalações de saúde de MSF no acampamento e do hospital na comunidade, ao qual a organização presta suporte. A equipe era composta de 65 sul-sudaneses. “Precisei concentrar esforços em motivar a equipe e, para isso, promovi a rotação de posições, além da reorganização do time para otimizar o tempo. Essas coisas costumam ser demoradas, mas posso dizer que, ao final de quatro meses, minha equipe estava bem formada”, conta.



 

Em seguida, as melhorias foram priorizadas. “Começamos cobrindo as tendas com shade net montadas em estruturas metálicas. Isso já permitiu uma redução perceptível da temperatura e se podia trabalhar ali sem pingar de suor. Fizemos também uma inovação misturando materiais tradicionais, naturalmente bons para isolação térmica, com materiais semipermanentes, conseguindo associar durabilidade, isolamento térmico e custo. Depois, passamos para a construção de três estruturas permanentes”, explica.





André teve ainda de lidar com a dificuldade de ter tido um de seus funcionários levados pelo SPLA (Exército da Salvação do Povo do Sudão, em tradução livre do inglês), e negociar sua libertação. “Não dá para entender exatamente o que causou essa apreensão. Tentei estabelecer uma conversa para entender a situação e ter a chance de explicar que ele trabalhava conosco”, relembra. “Ele sempre foi uma espécie de ‘funcionário modelo’, cheio de disposição para fazer qualquer coisa. Fiquei particularmente abalado com o que aconteceu a ele, que passou a ter problemas de saúde mental e recebeu atenção especial para isso.”

Durante os seis meses que permaneceu no projeto, André se emocionou algumas vezes. Mas foi no momento de sua despedida que se sentiu mais tocado, quando os refugiados o homenagearam em uma festa. “É como se o tempo que a gente passa ali, com aquelas pessoas, fosse uma ‘microvida’. É possível que não mais as vejamos, é como se fosse uma história que tivesse tido começo, meio e fim nela mesma”, diz André. Ele, agora, aguarda a próxima oportunidade de trabalhar com MSF em campo e escrever novas histórias.