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A opinião de uma médica sobre a importância de obstetrizes

01/10/2019
A referente médica de MSF Laura Rinchey conta sua experiência pessoal e profissional
A opinião de uma médica sobre a importância de obstetrizes

Foto: Severine Sajous/MSF

Sou médica especializada em medicina de família e mãe de três meninos, todos vieram ao mundo em partos conduzidos por obstetrizes em centros liderados por obstetrizes. Essa foi uma escolha ativa que fiz desde o início de cada gravidez, porque sabia, por meu treinamento médico e experiência obstétrica, que isso significava que haveria menos risco de complicações para mim e para meu bebê, que minha recuperação seria mais rápida e que toda a experiência seria mais pessoal e menos clínica.

Conheci o grupo de obstetrizes que me acompanhou pela primeira vez nas consultas pré-natais e o relacionamento seguiu desde a clínica até o parto, até os cuidados pós-natais que recebi para verificar minha recuperação e a do bebê.  A obstetriz é a pessoa que está com a mãe durante o parto e eu realmente senti que era exatamente isso que esse grupo de obstetrizes fez por mim, do começo ao fim de cada uma das minhas gestações.
Alguns anos depois, comecei a trabalhar com Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Beirute. Lá, percebi que a taxa de cesarianas era muito maior do que a do meu país.  O Líbano reconhece que tem uma alta taxa de cesariana, muitas vezes citada como alcançando 40% a 50% dos partos, enquanto, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa-alvo mundial é de aproximadamente 10% a 15%.  Existem muitos fatores que encorajam essa taxa mais alta de cesarianas no Líbano, mas atualmente há apoio no país para tentar corrigir esse desequilíbrio.

Fiquei feliz em ver que MSF estava contribuindo para esse esforço. Desde 2012, oferecemos um pacote abrangente de saúde reprodutiva liderado por obstetrizes no Líbano, com o objetivo de reduzir os custos médicos desses serviços, a taxa geral de cesarianas e as complicações associadas. As evidências mostram que a continuidade dos cuidados liderados por obstetrizes aumenta a satisfação materna e evita o nascimento prematuro em 24%. Um serviço de qualidade também melhora as taxas de aleitamento materno e os resultados psicossociais, reduz o uso de intervenções desnecessárias em alguns casos e aumenta o acesso ao planejamento familiar.
Atualmente, MSF oferece assistência pré-natal e pós-natal e serviços de planejamento familiar em várias clínicas no vale do Bekaa, no leste do Líbano, e no sul de Beirute. Esses centros permitem que as mulheres acessem gratuitamente todos os serviços relacionados aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva em um local fixo, com profissionais que podem acompanhar a gravidez do começo ao fim. Testemunhamos todos os dias relações de confiança sendo desenvolvidas entre as pacientes e as obstetrizes durante todo o projeto.

Desde 2018, MSF também mantém uma parceria com o Hospital Universitário Rafik Hariri (RHUH) em Beirute, onde testamos nosso modelo liderado por obstetrizes dentro do hospital. O RHUH é o primeiro hospital público libanês que adota essa abordagem bastante diferente. Em nosso centro de nascimento de MSF, as obstetrizes gerenciam partos vaginais e cuidados neonatais não complicados (de baixo risco), enquanto quaisquer emergências maternas e / ou neonatais são transferidas para as enfermarias especializadas do hospital, para posterior gerenciamento pelas equipes médicas do hospital. A boa colaboração entre o hospital e MSF ilustra como obstetras e obstetrizes podem realmente trabalhar juntos para garantir partos seguros e saudáveis.
MSF também implementa esse modelo em duas outras maternidades em Arsal e Majdal Anjar, no vale do Bekaa. Alguns dos desafios para o desenvolvimento desse modelo no Líbano são o baixo número de obstetrizes sendo treinadas a cada ano e a falta de oportunidades disponíveis para as obstetrizes praticarem e desenvolverem as habilidades que aprenderam durante o treinamento. Em MSF, queremos dar às obstetrizes a oportunidade de praticar e desenvolver suas habilidades em nossos centros. Somente no ano passado, elas ofereceram apoio durante quase 5 mil partos no país.

Ao longo de minhas experiências pessoais e profissionais, sempre fui convencida de que as obstetrizes desempenham um papel fundamental em nossas sociedades. Meu trabalho atual no Líbano apenas reforça esse sentimento e espero que mais hospitais públicos adotem esse modelo de atendimento no país. Dar à luz um filho é um dos momentos mais importantes da vida de uma mulher. Ser capaz de fazê-lo naturalmente, quando a situação médica permitir, deve sempre ser possível, e as obstetrizes devem estar capacitadas a gerir esses partos da melhor maneira possível, com conhecimento, treinamento e habilidades.
 

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