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Ondas de deslocamento e medo no Lago Chade

24/06/2015
Conflito entre Boko Haram e forças militares estão afetando milhares de pessoas

Foto: Abubakr Bakri/MSF

Devido ao conflito entre o grupo Boko Haram e o exército da Nigéria, e à recorrente insurgência de ataques a civis que vivem no estado de Borno, no nordeste da Nigéria, milhares de pessoas estão, regularmente, fugindo de suas casas em busca de segurança. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), atualmente, há mais de 1,5 milhão de pessoas deslocadas na região. A maioria delas estão deslocadas internamente na Nigéria, particularmente na parte nordeste do país, enquanto cerca de 157 mil fugiram, desde janeiro de 2015, rumo aos países vizinhos Níger, Chade e Camarões. Esses países também estão enfrentando a ameaça de ataques esporádicos a suas fronteiras e ofensivas militares em seus territórios, levantes estes que causaram dezenas de vítimas e ondas de deslocamentos internos dentro de seus países. Só na semana passada, na noite de 17 de junho, um ataque a dois vilarejos no sudeste do Níger matou dezenas de pessoas; dois dias antes, em 15 de junho, dois ataques com bombas, supostamente ligados ao Boko Haram, atingiram Chadian, capital de N’djamena.

A crise nigeriana está acentuando uma situação já precária, afetando uma população que já era extremamente vulnerável. Além disso, na medida em que a insegurança continua, organizações humanitárias estão enfrentando dificuldades enormes para obter uma visão clara das necessidades na região. Hoje, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma das poucas organizações presentes na área, oferecendo apoio às autoridades nacionais dos quatro países afetados ao redor do Lago Chade, para aliviar o sofrimento dessa população.

Nigéria

A situação de segurança no estado de Borno continua extremamente volátil e tensa. Há mais de um milhão de deslocados internos em Borno e cerca de 400 mil deles vivem hoje em Maidaguri, a principal cidade da região. Muitos são ajudados por comunidades locais, enquanto 77.758 pessoas estão reunidas em 13 acampamentos para deslocados internos na cidade. MSF realiza atividades médicas em quatro desses acampamentos, respondendo às necessidades de saúde primária de mais de 34.300 pessoas. Toda semana, equipes realizam centenas de consultas, principalmente para crianças com menos de cinco anos, na área médica de cada acampamento. MSF também está oferecendo suporte no abastecimento de água (mais de dois milhões de litros por mês) e estruturou um sistema de monitoramento de saúde em cinco acampamentos.

Na medida em que a situação nos acampamentos é estabilizada, hoje, a prioridade de MSF é garantir apoio a todas as pessoas deslocadas abrigadas pelas comunidades locais, assim como às próprias comunidades que as acolhem. MSF montou uma clínica no centro de saúde de Maimusari, no distrito de Jere, uma favela da cidade de Maiduguri, para oferecer serviços de saúde a 120 mil pessoas, tanto para deslocados quanto para comunidades de acolhimento. A instalação inclui uma maternidade de 12 leitos e 60 leitos para cuidados intensivos, pediátricos e nutricionais.

Níger

De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), há 175 mil pessoas deslocadas na região de Diffa, no sudeste do Níger. Muitas delas chegaram recentemente, após autoridades exigirem que toda a população abrigada nas ilhas do Lago Chade deixasse a área por conta de um ataque mortal do Boko Haram. Cerca de 25 mil pessoas estão abrigadas em dois acampamentos, um em Bosso e outro em Nguigmi, duas cidades localizadas próximas ao lago.

MSF enviou clínicas móveis a dois desses acampamentos, que oferecem serviços básicos de saúde para essa população deslocada e isolada e fazem encaminhamentos de pacientes ao hospital de Diffa, caso seja necessário. MSF também está administrando o centro de referência de saúde materno-infantil, incluindo as alas de maternidade, pediátrica e o laboratório, na cidade de Diffa. Nos arredores da região, a organização está apoiando três centros de saúde em Geskerou, Ngaroua e Nguigmi, onde mais de 16 mil consultas médicas foram realizadas até agora em 2015, sendo 65% delas para crianças com menos de cinco anos.

A situação poderia se deteriorar nas próximas semanas, na medida em que a estação chuvosa está começando e as condições sanitárias nos acampamentos não são boas. Assim, um surto de cólera poderia surgir facilmente. Além disso, espera-se que haja um pico de desnutrição e casos de malária durante o período de fome, que está próximo. “As principais necessidades são de abrigo, água, saneamento, saúde e proteção. No entanto, ainda há poucas organizações trabalhando na região”, diz Aissami Abdou, coordenador do projeto de MSF em Diffa.

Camarões

Há alguns quilômetros ao leste, em Camarões, a situação de segurança na fronteira com a Nigéria permanece volátil, com invasões regulares do Boko Haram. Refugiados continuam chegando diariamente aos acampamentos estruturados por autoridades nacionais na região do extremo norte.  

“Eu acabo de chegar a Gawar com meu marido e quatro de meus filhos. Combatentes do Boko Haram sequestraram nossas três filhas. Nós não sabemos nada sobre eles, só podemos orar por elas”, diz Emmanuelle, uma das 40 mil refugiadas que estão abrigadas nos dois acampamentos de Minawao e Gawar, onde MSF colabora com autoridades nacionais e outras agências humanitárias para oferecer cuidados de saúde primária e água e saneamento. Hoje, 60% da água dos acampamentos é fornecida por MSF e mais de 500 consultas médicas são realizadas por mês.

“O aumento da população, causado pelos deslocamentos frequentes, apresenta um risco real à insegurança alimentar na região”, diz Hassan Maiyaki, coordenador-geral de MSF em Camarões. “Hoje, estamos reforçando nosso apoio ao centro de nutrição terapêutica no hospital do distrito de Mokolo, onde oferecemos cuidados pediátricos e nutricionais aos refugiados, deslocados internos e à população local que precisam de internação.” MSF também está presente na cidade de Kousseri, na fronteira com o Chade, por onde cerca de 30 mil deslocados internos estão espalhados. Equipes de MSF estão oferecendo apoio cirúrgico ao hospital da cidade, onde 36 casos foram tratados somente no mês de maio.

Chade

MSF começou a responder ao deslocamento na região do Lago Chade causado pelo Boko Haram no fim de fevereiro. De acordo com o Acnur, atualmente, há 18 mil refugiados da Nigéria que escaparam da insegurança em seu país. Eles chegaram ao Lago Chade, uma das regiões mais pobres do país, onde a cobertura vacinal é baixa e o risco de epidemias é alto.

O Boko Haram representa uma ameaça ao Chade, e promove ataques ao redor do Lago Chade. A segurança no país continua se deteriorando. Em fevereiro, um ataque aconteceu em Ngouboua, levando milhares de moradores e refugiados a deixarem suas casas em busca de segurança. Mais recentemente, em 15 de junho, dois ataques com bombas, supostamente ligados ao Boko Haram, atingiram Ndjamena, capital do país, matando 27 pessoas e ferindo 101. MSF apoiou os principais hospitais do Ministério da Saúde, fornecendo kits médicos e cirúrgicos para o influxo de pacientes. Recentemente, MSF também organizou um treinamento e uma simulação de gestão de vítimas em massa no hospital geral.

Atualmente, MSF está administrando clínicas móveis em Forkouloum, realizando cerca de 850 consultas médicas por semana, respondendo, principalmente, à diarreia e infecções respiratórias. Muitos dos pacientes são chadianos que foram deslocados por causa da violência. Uma atividade fundamental da resposta de MSF tem sido o apoio psicológico. As equipes estão oferecendo cuidados de saúde mental por meio de sessões individuais e em grupo no campo de refugiados de Dar as Salam. Cuidados médicos e apoio de saúde mental também são oferecidos a vítimas de violência sexual. Até o momento, MSF realizou 223 consultas de saúde mental.

Em colaboração com autoridades locais, MSF também distribuiu kits de higiene e de abrigo, que incluem cobertas e lonas plásticas, assim como mosquiteiros para proteger contra a malária, para cerca de 6 mil pessoas em Ngouboua, Bagasola, e nos arredores de Forkouloum.

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