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“O Sudão do Sul vai enfrentar uma emergência humanitária nos próximos meses”

03/02/2014
Arjan Hehenkamp, diretor-geral de MSF, fala sobre situação no Sudão do Sul

“Quando deixei o Sudão do Sul, há dez anos, tendo trabalhado aqui por quatro anos, eu parti cheio de esperança. Um cessar-fogo havia sido assinado e um acordo de paz estava em discussão. Alguns anos depois, o Sudão do Sul tornou-se um país independente, senhor do próprio destino.

Eu não era tão ingênuo a ponto de pensar que isso tudo aconteceria sem momentos difíceis, mas a escala, a velocidade e o impacto da violência que eclodiu em dezembro me chocaram. Era muito difícil ouvir sobre isso de longe, por amigos sul-sudaneses, então eu voltei ao Sudão do Sul, no dia 20 de janeiro, agora como diretor-geral da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), para ajudar na supervisão de nossas operações de emergência.

Nos últimos quinze a vinte dias, tenho escutado histórias terríveis de violência durante minhas visitas às operações de MSF. Em Nimule, um jovem chamado Deng se aproximou de mim pedindo ajuda depois de ter perdido toda a sua família em Bor. Eu testemunhei o impacto de centenas de milhares de pessoas sendo forçadas a deixar seus lares, fazendo longas viagens com pouca comida, água, acesso a abrigo ou assistência médica. Em nossa clínica em Lankien, conheci Marion, que fugiu da violência em Bor enquanto estava nos momentos finais de sua gravidez, tendo feito uma longa e árdua viagem até nossa clínica em tempo de dar à luz uma saudável menina. E vi pessoas enclausuradas em acampamentos, vítimas de seu próprio medo, vivendo sob condições inimagináveis, com receio de se aventurar fora deles e incertas quanto ao futuro.

Eu vi hospitais e clínicas de MSF sobrecarregados – em Lankien, no estado de Jonglei, nosso número de pacientes quadruplicou e a população local triplicou, devido ao influxo de deslocados. E, com tristeza, vi serviços médicos essenciais de MSF sendo paralisados quando eram ainda mais necessários, devido à violência, aos saques e à destruição.

Cidadãos comuns do Sudão do Sul foram extremamente afetados pela violência dos acontecimentos das últimas semanas. A destruição de hospitais e mercados, assim como a crescente pressão sob as comunidades que recebem os deslocados em meio a movimentações em massa, me levam à seguinte conclusão: o Sudão do Sul vai enfrentar uma emergência humanitária nos próximos meses e seu povo vai precisar do máximo de ajuda que conseguir.

MSF atua na área que hoje constitui o Sudão do Sul há mais de 30 anos. Nossas equipes de emergência já foram enviadas a Juba, Awerial, Lankien, Nasir e Nimule, enquanto outras equipes retornaram recentemente de Malakal e Bentiu. Temos equipes se preparando para ir a Bor. Nossas prioridades serão definidas pelas necessidades da população, mas eu tenho certeza que teremos que manter uma grande variedade de atividades, desde as médicas até nutrição, água e saneamento, assim como cirurgias.

Para MSF salvar vidas, três condições são fundamentais. Primeiramente, a organização precisa ser capaz de tratar todos que tenham grande necessidade, independentemente do grupo que detenha o controle daquela determinada região – governo ou oposição. Em segundo lugar, e muito associado ao item anterior, MSF precisa estar em diálogo com todas as partes envolvidas no conflito – sendo completamente transparente a respeito de todas as nossas atividades e intenções – para manter a confiança e os relacionamentos contínuos que contribuem para a solução de problemas. E, por último, e o aspecto mais importante, é o fato de que nós precisamos do comprometimento de todas as partes envolvidas no conflito, do mais alto comandante até o soldado comum, de suas resoluções quanto ao respeito ao invés do ataque aos pacientes, centros de saúde e equipes de MSF.

Tendo conhecido oficiais do governo em Juba e em Nimule, além de autoridades locais em áreas controladas pela oposição, estou impressionado com sua dedicação em apoiar nosso trabalho. Tenho consciência, entretanto, que a realidade em campo pode ser mais difícil de influenciar – o que minhas equipes de MSF dolorosamente viveram em Malakal, Bentiu e outros lugares. Nossos próximos passos estão claros: em contato com as autoridades relevantes, MSF irá mobilizar todas as equipes e recursos necessários para enfrentar essa emergência usando sua própria capacidade logística para garantir sua independência. Em troca, continuaremos a insistir que essas mesmas autoridades honrem seus compromissos de apoio ao nosso trabalho.  Tudo isso para que, no final das contas, o máximo esforço possa ser feito para suprir as necessidades de Marion e Deng, assim como de outras centenas de milhares de pessoas que merecem nossa solidariedade e apoio.”