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O paradoxo do sarampo: a epidemia cresce, a resposta global diminui

13/09/2011
A mobilização de recursos financeiros e técnicos deve ser prioridade política na luta contra epidemias da doença

Tendo em vista as preocupantes – e recorrentes – epidemias de sarampo que têm acontecido nos últimos três anos, Médicos Sem Fronteiras (MSF) pede a todas as organizações que formam a Iniciativa Contra o Sarampo que estabeleçam imediatamente um mecanismo de resposta a epidemias, com a garantia de recursos técnicos e financeiros. O pedido ocorre às vésperas do próximo encontro da Iniciativa, nos dias 13 e 14 de setembro, em Washington D.C.

“Nós temos evidências que provam que novas epidemias vão acontecer em um futuro próximo”, disse Florence Fermon, coordenadora de vacinação de MSF. “Não é correto simplesmente esperar que elas aconteçam. Precisamos de um sistema eficiente que nos permita prever próximos surtos, e nos preparar para eles”.

Desde 2008, MSF vem respondendo a epidemias que se estenderam por muito tempo. Em 2010, por exemplo, mais de 4,5 milhões de crianças foram vacinadas em uma campanha emergencial em diversos países: Iêmen, Zimbábue, Chade, Suazilândia, África do Sul, Malaui e Nigéria. Este ano, equipes médicas na República Democrática do Congo (RDC) vacinaram 3 milhões de crianças, mas não conseguiram deter a epidemia. Apesar das evidências que mostraram a necessidade de ações urgentes, as organizações do país foram lentas para mobilizar uma resposta. A RDC não é uma exceção: a maioria dos países que sofre com epidemias de sarampo não mobiliza adequadamente os recursos disponíveis para organizar campanhas de vacinação.

“A luta contra o sarampo não é mais vista pelos ministérios da saúde como uma prioridade política. Eles deveriam assumir seus compromissos em função das necessidades de saúde pública, ou pelos doadores, que estão reduzindo o financiamento”, disse Gwenola François, coordenadora da campanha de vacinação contra o sarampo na República Democrática do Congo. “No entanto, organizações não-governamentais, como MSF, não podem ficar correndo para resolver os problemas causados por essas deficiências estruturais nos programas de prevenção do sarampo”.

As epidemias de sarampo recorrentes apontam para um enfraquecimento dos programas de vacinação e demonstram o fracasso de estratégias globais na luta para eliminar a doença. As atividades de prevenção, como campanhas sistemáticas de vacinação e acompanhamento, têm muitos problemas. Elas superestimam a taxa de cobertura da vacinação; são muito rigorosas quanto a limitar a vacina a crianças com mais de um ano de idade; algumas campanhas de acompanhamento sofrem atrasos ou são canceladas; e áreas sob o risco de epidemias não são identificadas.

Além disso, sistemas de monitoramento pouco eficientes não conseguem detectar epidemias rapidamente. As declarações oficiais demoram muito, e as respostas não são implementadas em tempo adequado. Finalmente, um grupo cada vez maior de crianças com risco de contrair sarampo se desenvolveu, e agora se tornou grande o suficiente para dar início a uma grande epidemia.

Considerando que novas epidemias da doença são iminentes, as políticas de vacinação devem ser completamente revisadas – tanto em termos de resposta a epidemias quanto de programas de vacinação futuros, como forma de prevenção de novos surtos em áreas de risco. Os países mais afetados devem estar preparados para combater as próximas epidemias, e, para isso, precisam que recursos técnicos e financeiros estejam disponíveis, de modo que possam ser mobilizados rapidamente. O tratamento contra o sarampo também deve ser incorporado, sistematicamente, nas políticas de saúde pública.