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O medo que os segue: oferecendo cuidados de saúde mental para refugiados no Chade

28/08/2015
Psicólogos de MSF já atenderam cerca de 524 pacientes desde março deste ano

Foto: Sylvain Cherkaoui/Cosmos

Ataques perpetrados pelo grupo Boko Haram na região do Lago Chade se intensificaram nas últimas semanas, e, como resposta, a presença militar na área também foi ampliada. O número de pessoas forçadas a deixar suas casas mais que dobrou, levando a um total de 75 mil deslocados no Lago Chade. O medo que se instaurou entre a população – que é composta por refugiados do Níger e da Nigéria, além de chadianos – tem sido cada vez mais acentuado pela violência contínua, que não mostra quaisquer sinais de arrefecimento. As necessidades de saúde mental são muitas, e com esse recente aumento da violência, elas só continuarão crescendo.

Desde o início de sua resposta à crise no Chade, em março de 2015, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) observou uma necessidade imediata de incorporar cuidados psicológicos às suas atividades médicas. Hoje, atuando no campo de refugiados de Dar Es Salam, na região do Lago Chade, os psicólogos de MSF ouvem as histórias de horror e de medo que assombram o cotidiano dos sobreviventes do conflito. Entre os pacientes que buscam apoio psicológico na clínica de MSF no acampamento, um em cada quatro apresentam sinais de depressão. Distúrbios de sono, reações emocionais intensas e de ansiedade relacionadas com o trauma também são comuns.

“Eu atendi Abeni*, uma menina de 16 anos que fugiu de Baga, na Nigéria”, lembra Forline Madjibeye, psicóloga de MSF. “Os pais dela foram mortos, assim como seus vizinhos. Ela pegou a mão do seu irmão pequeno e do seu sobrinho, bem como das quatro crianças que pertenciam aos vizinhos, e, de alguma maneira, chegou até aqui. Eu falei com ela ontem e ela disse que ainda não tem um cartão de refugiada, então não está recebendo nenhum alimento. As crianças ficam chorando porque estão com fome.”

Escapar dessa situação e chegar a um local com condições de vida extremamente difíceis só intensificam os efeitos psicológicos de um trauma como esse. De acordo com Forline Madjibeye, a responsabilidade de tomar conta de seis crianças em um acampamento de refugiados, junto ao que ela presenciou na Nigéria, teve um peso enorme sob Abeni. Ela continua sentindo medo, não consegue dormir, é extremamente estressada, e está sofrendo com depressão porque seu futuro é completamente incerto.

“Nós queremos poder devolver à Adeni algum senso de controle, para que ela possa lidar melhor com o medo e a tristeza que está sentindo e cuidar de si mesma e das crianças”, continua Forline Madjibeye. “Essa não é uma situação fácil, e outras pessoas, infelizmente, também passaram por isso. Então eu a encorajo a compartilhar suas experiências com os demais refugiados, e a não ficar em casa sozinha.”

Com o aumento da violência na região, a insegurança tem perseguido os refugiados desde o momento em que deixaram seus lares. Embora possam ter acreditado estarem fugindo rumo à segurança, eles ainda são assombrados pelos eventos, não se sentem seguros, e, assim, continuam revivendo o trauma. Seu “lar” agora é uma junção de tendas estruturadas no meio do deserto, onde eles podem estar vulneráveis a futuros ataques.

Aurelia Morabito, uma psicóloga que atua com MSF no Lago Chade há dois meses, explica que os sintomas apresentados pelos pacientes estão intrinsecamente ligados aos eventos traumáticos que viveram, mas também às condições de vida precárias e ao sentimento de medo que os refugiados enfrentam quando chegam ao acampamento.

“O processo de recuperação é longo. As pessoas testemunharam coisas horríveis; elas se tornaram refugiadas e depois chegaram a um acampamento onde a vida é sombria e muito difícil. Inicialmente, os pacientes têm estresse, não pós-traumático conseguem dormir. Mas não há outra opção além de ficar. Você não é só uma vítima do Boko Haram, você agora precisa passar pelo processo de aceitação de viver como um refugiado, ou de ter que tocar a vida em outro lugar, ou de ter que conviver com a realidade de que você não tem ideia do que o amanhã lhe reserva.”

Desde que o programa teve início em março, os psicólogos de MSF atenderam cerca de 524 pacientes. As equipes ofereceram consultas individuais, em família ou em dupla, e as crianças também podem participar de uma oficina de desenhos semanal para expressar o que estão sentindo.

“É mais fácil para as crianças expressarem o que estão sentindo por meio de desenhos”, diz Aurelia Morabito. “Depois, nós conversamos com elas e com seus pais sobre os desenhos, com o objetivo de ajudá-las a controlar seus medos. Em cada sessão, as crianças relembram histórias horríveis por meio de seus desenhos. Nós vemos ilustrações de armas e de helicópteros, e de pessoas decapitadas. Ouvimos histórias de crianças que fugiram da Nigéria, para depois sofrerem outro ataque no Níger, para voltarem novamente à Nigéria e presenciarem a violência mais uma vez. Muitas fugiram sozinhas durante a noite, ou passaram a noite escondidas na água, esperando que ninguém as encontrasse.”

The aim of the MSF mental health team is to provide support to the refugees to lessen the burden of the trauma, and to ensure that they have a professional to talk to for as long as they need. Psychologists listen to patients in a safe and confidential space, and through acknowledgement of their suffering, help them find the best coping strategies.

O objetivo da equipe de saúde mental de MSF é oferecer apoio aos refugiados para diminuir o fardo do trauma, e para assegurar que eles tenham um profissional com quem falar pelo tempo que precisarem. Os psicólogos ouvem os pacientes em um espaço seguro e confidencial, e por meio do conhecimento de seu sofrimento, os ajudam a encontrar as melhores formas de lidar com aquilo.

“Durante nossas sessões, os psicólogos de MSF ouvem e tentam normalizar as reações dos refugiados”, explica Aurelia. “Isso ajuda a estabilizar e a passar segurança aos pacientes enquanto eles se conectam com outros e compartilham experiências. Nós sabemos que não conseguimos parar o sofrimento, mas podemos ajudar as pessoas a lidarem melhor com suas reações insuportáveis.”

MSF atua na região do Lago Chade, no Chade, desde março de 2015, pouco depois das primeiras ondas de refugiados fugindo da violência do Boko Haram na Nigéria. Além de seu programa de saúde mental no campo de refugiados de Dar Es Salam, MSF também está administrando clínicas móveis que oferecem cuidados básicos de saúde à população local e deslocada. Em breve, a organização também irá incorporar um componente de saúde mental a essas clínicas móveis.

Na capital N’djamena, MSF apoiou hospitais do Ministério da Saúde após dois ataques do Boko Haram que aconteceram nos dias 15 de junho e 11 de julho. Desde abril, MSF treina funcionários do Ministério da Saúde na gestão de vítimas em grande quantidade de uma só vez, e fez doações a três hospitais da capital, para ajudar a ampliar a capacidade nacional de responder a cenários de emergência.

MSF atua no Chade desde 1981. A organização administra programas regulares em Abéché, Am Timan, Massakory e Moissala. Em julho deste ano, MSF também começou a trabalhar em Bokoro, na província de Hadjer Lamis, em resposta à desnutrição aguda na região.

*O nome foi alterado para proteger a identidade.

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