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Nova onda de mortalidade pode atingir o Paquistão com a chegada do inverno

23/11/2005
Responsável por projetos de emergência de MSF fala sobre a vulnerabilidade dos paquistaneses com a chegada do inverno na região afetada pelo terremoto. As equipes já observam um aumento das doenças relacionadas às condições precárias de vida

Mercedes Tatay, responsável por projetos de emergência de MSF, fala sobre a magnitude da destruição causada pelo terremoto de 8 de outubro, descreve a vulnerabilidade da população afetada, e demonstra sua preocupação com uma possível nova onda de mortalidade. Ela está atualmente em Mansehra, no Paquistão, coordenando as operações de ajuda humanitária de MSF na região.

Como esta tragédia pode ser comparada a muitas outras onde MSF atuou no passado?

A característica mais impressionante deste desastre é a sua magnitude: o número de pessoas que precisam de assistência médica é extremamente alto. Estamos falando em 3 milhões de pessoas afetadas que direta ou indiretamente ficaram sem abrigo. O número de feridos é surpreendentemente alto e é difícil de chegar até eles. Para dar uma idéia da grandiosidade, as tsunamis, que atingiram o sudeste asiático no ano passado, resultaram em 200 mil mortes e 20 mil feridos, uma proporção de 10 feridos para cada 100 mortes. No terremoto de 8 de outubro, a proporção de feridos é muito maior, com 60 mil mortes e cerca de 80 mil feridos, uma relação de 130 feridos para cada 100 mortes. Além disso, chegar aos feridos das tsunamis foi bem mais fácil, devido ao terreno plano e à proximidade com a costa. Nas áreas afetadas pelo terremoto, muitas pessoas estão tão isoladas nas regiões montanhosas que nós só podemos chegar a elas de helicóptero. Isto, associado às precárias condições de vida, significa que a proporção de pessoas precisando de ajuda é muito alta. Significa também que há um risco real de uma nova onda de mortalidade: ou nós fazemos o possível para ajudar essas pessoas ou elas irão morrer. É uma corrida pela sobrevivência.

Quais seriam as causas desta segunda onda de mortalidade? Como podemos evitar que isto aconteça?

As principais causas desta mortalidade estarão relacionadas à extrema vulnerabilidade das pessoas. Além de traumas, nossas equipes de saúde já observam um aumento das doenças relacionadas às condições precárias de vida: infecções respiratórias, hipotermia, infecções de pele e diarréias. Uma importante parte das nossas operações é distribuir material de ajuda humanitária para melhorar as condições de vida, oferecendo tendas apropriadas para o inverno, água potável e saneamento básico. Uma das grandes questões nos próximos dias será a extensão da mobilidade populacional. Se isto resultar em superlotações e piora das condições de higiene, poderá aumentar o risco de doenças como a febre tifóide ou a cólera. Até agora, nossas equipes ainda não observaram nenhuma grande concentração de deslocados, mas estamos monitorando a situação de perto.

Por que o número de feridos é tão alto e como isto influencia os serviços de assistência à saúde?

Isto está relacionado, em parte, ao tipo de construção e à hora do desastre. Nesta região do sul da Ásia, a maioria das casas é feita de concreto e foi afetada pelo terremoto, provocando ferimentos graves e fraturas. Além disso, muitas pessoas ainda estavam em casa quando ocorreram os primeiros tremores de terra. Em termos de assistência à saúde, nossas equipes estão tratando muitos traumas. Para atender a esta demanda, nós montamos uma tenda cirúrgica em Bagh e outro em Mansehra, e nossos cirurgiões trabalham em hospitais paquistaneses em outras localidades para melhorar a qualidade da assistência e para fazer o acompanhamento dos feridos mais graves.

Quais são os maiores desafios que vocês estão enfrentando? E quanto tempo MSF planeja permanecer na região?

A combinação de fatores como necessidades importantes de saúde, um sistema de saúde destruído e as dificuldades logísticas, tanto em termos de acesso quanto em termos climáticos, resulta em desafios assustadores. O terremoto deixou muitos hospitais rachados e os tremores dos dias seguintes derrubaram o que ainda estava de pé, obrigando os pacientes e os profissionais de saúde a operar em estruturas temporárias e bastante precárias. Isto para o caso das pessoas que conseguiram chegar aos hospitais. Também temos que encontrar formas de chegar até grande parte da população que permanece dispersa na região montanhosa. Muitas vezes é simplesmente impossível chegar até essas pessoas, mesmo de helicóptero. O inverno já está aí e a medida que avança as estradas se tornarão cada vez menos transitáveis. E o clima é bastante hostil ao trabalho de ajuda humanitária. Diante das informações disponíveis, MSF planeja permanecer pelo menos durante todo o inverno e provavelmente depois também.

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