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"Nossos joelhos ainda tremem" - Programa de Saúde Mental de MSF para vítimas da tsunami

21/09/2005
"Algumas pessoas viveram experiências tão aterradoras, que talvez nunca voltem a ser o que eram antes (da tsunami)" – Entrevista com Renato Souza, psiquiatra brasileiro trabalhando atualmente com Médicos Sem Fronteiras na Indonésia

Em Meulaboh, na costa oriental de Aceh, a destruição causada pela tsunami ainda é visível para todos, quase nove meses mais tarde. Onde antes se encontrava a cidade hoje somente temos ruínas ao longo do mar. A maioria dos sobreviventes agora tem um teto sobre suas cabeças, ainda que seja provisório, e há comida, água limpa e acesso a cuidados médicos.

Mas a vida interior das pessoas está tão danificada quanto a cidade em que viviam até o dia 26 de dezembro. Essa é a razão pela qual Médicos Sem Fronteiras (MSF) presta cuidados de saúde mental aos sobreviventes traumatizados.

Nós conversamos com o psiquiatra Renato Souza, responsável pelo programa de saúde mental de MSF, atualmente no local.

Qual é a situação dessas pessoas?

Para muitas pessoas, a amplitude da catástrofe ainda é simplesmente insuportável. Tome o exemplo de uma mãe de Meulaboh: Ela vivia numa casa simples, perto do mar com seu marido, seus quatro filhos e sua sogra. Aí, num dia igual a qualquer outro, em dezembro, ela perdeu tudo que tinha em questão de minutos.

"Ela foi a única a sobreviver. A casa e tudo ao redor foi destruído. Como a água estava subindo, ela temeu pela sua vida. Ela ainda tentou agarrar uma de suas crianças, na tentativa de resgatá-la, mas foi em vão. Agora ela vive em condições difíceis, num campo de deslocados internos, sem privacidade e sem maneira de ganhar a vida, completamente dependente de outros.

Uma mulher como ela pode ter aparência saudável e não apresentar nenhuma seqüela física, mas até uma psiquê robusta tem poucas chances de passar ilesa por uma tal combinação de fatores de estresse. E a situação que acabo de descrever está longe de ser uma trágica exceção. Milhares de pessoas aqui escaparam com nada mais além que suas vidas. E perderam tudo mais o que possuíam.


Como é que essa pressão psicológica atinge o indivíduo?

Alguns sobreviventes perderam controle sobre suas atividades cotidianas em seguida às experiências traumáticas que viveram. Até coisas pequenas como o som de uma máquina ou uma rajada de vento podem trazer de volta memórias da tsunami, provocando taquicardia ou ataques de pânico. Abalos sísmicos, que ainda são parte do dia-a-dia aqui, causam pânico generalizado.

Num dos campos temporários para deslocados, encontrei pessoas que ainda acordam no meio da noite e deixam seus abrigos para buscar refúgio no que consideram um edifício seguro, num terreno mais alto, por medo de outra tsunami. Cedo ou tarde, pessoas que vivem com esse tipo de tensão por meses a fio - e que estão preparadas para correr para salvar suas vidas a qualquer momento - chegam a um ponto de exaustão física e psicológica.

Os homens voltaram a pescar e as mulheres realizam suas tarefas domésticas como costumavam fazer, mas as pessoas dizem: "Não somos mais o que costumávamos ser – estamos muito cansados e nossos joelhos ainda tremem".

Existe alguma informação sobre quantos sobreviventes sofrem de problemas psicológicos em decorrência da tsunami?

MSF se concentra nos grupos de pessoas que acreditamos terem sido as mais afetadas pelas conseqüências da tsunami, sobretudo aquelas que estão nos campos de deslocados internos. Muitas delas moram nesses abrigos porque perderam tudo o que tinham, enquanto outros estão simplesmente muito assustados para voltar para seus vilarejos à beira mar, por medo da tsunami.

Um estudo em alguns desses campos revelou que oito em cada dez residentes aqui apresentam sérios sintomas de estresse, que afetam sobretudo os mais jovens.

Além da tsunami, há muitas outras razões para isso, como por exemplo a guerra civil que durou dez anos, e que teve um impacto tremendo na região em que esse estudo foi realizado. Mas, a despeito das razões, uma coisa é certa: a necessidade de tratamento é enorme.


Como exatamente MSF está ajudando essas pessoas?

Nossas equipes estão concentradas no combate a sintomas como ansiedade, pesadelos, distúrbios alimentares, insônias, palpitações e dores de cabeça. Sessões de grupo semanais oferecem aos participantes a possibilidade de dividir suas experiências e saber como as suas queixas estão conectadas com o trauma.

Psicólogos e psiquiatras ajudam os participantes a questionar os seus medos e obter controle sobre eles. Por exemplo, alguns pais não enviam seus filhos para a escola em dias de chuvas fortes por medo de uma nova tsunami. Então os pedimos que pensem no dia 26 de dezembro, porque não houve chuvas naquele dia. Ao mesmo tempo, nós os ensinamos porque a tsunami acontece e fazemos sugestões racionais de maneiras para lidar com o medo e o pânico.

Nós encorajamos aqueles que acordam no meio da noite encharcados em suor, com medo da chegada de uma nova tsunami, a ir dar uma olhada do lado de fora ou acordar seus vizinhos para checar que tudo está bem. Isso é acompanhado de exercícios de respiração e relaxamento, que ajudam as pessoas a controlarem melhor seus sintomas de estresse.

Quais foram os resultados positivos até agora?

Na minha opinião pessoal, os programas de saúde mental deveriam estar baseados no "empoderamento" das pessoas para que possam lidar com os seus sintomas de estresse. Algumas pessoas viveram experiências tão aterradoras, que talvez nunca voltem a ser o que eram antes (da tsunami). Mas podemos ajudar muitas outras a desenvolverem estratégias para superar seus traumas, tornando mais fácil para elas encontrar o caminho de volta à vida normal".

Resultados preliminares mostram que 45% dos nossos pacientes tiveram melhora significativa e muitos outros pacientes ainda estão sob nossos cuidados. Nossos programas estão funcionando, mas para muitos pacientes ainda há um longo caminho a percorrer.