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“Nos sentimos humildes diante da coragem deles”

19/08/2019
Stefanie, coordenadora da equipe médica a bordo do Ocean Viking, descreve um dia na clínica do navio
Stefanie, coordenadora da equipe médica a bordo do Ocean Viking, descreve um dia na clínica do navio

MSF/Hannah Wallace Bowman

“Depois de cada um dos quatro resgates, a equipe médica de MSF conclui uma avaliação de saúde primária, examinando as necessidades médicas das pessoas resgatadas. Além de avaliar as cicatrizes físicas, feridas e outras condições que exigem atenção médica imediata, identificamos aqueles que necessitam de apoio psicológico adicional.

Quando as pessoas chegam a bordo do Ocean Viking, elas estão completamente exaustas. Elas passaram muitas horas no mar, sem dormir, sem água e sem comida. Imediatamente após o embarque, os pacientes geralmente apresentam desidratação, fraqueza física geral, tontura, hipo ou hipertermia e queimaduras – causadas principalmente pelo combustível ou pelo sol – ou por lesões recentemente sofridas associadas à própria travessia. Após as primeiras 24 horas, as pessoas começam a se recuperar desses sintomas iniciais. Mas, nos dias subsequentes, elas continuam a nos procurar com condições menos graves, que podem ser dores no corpo, náuseas, dor abdominal generalizada ou sentimento de fraqueza. Esses sintomas são frequentemente psicossomáticos, o que significa que o corpo está respondendo fisicamente a um trauma psicológico que a mente está lutando para enfrentar.

É frequentemente durante as consultas iniciais para doenças físicas, feridas ou cicatrizes que somos capazes de identificar pessoas que estão mentalmente estressadas. Vemos que as pessoas muitas vezes desviam de seus pensamentos e mudam para um "olhar de mil milhas". Elas desenvolvem reações que não são esperadas de outros pacientes. Isso pode ser uma sensibilidade inesperada maior ou menor à dor ou ao toque em exames físicos, excesso de cautela ou mesmo reações físicas incomuns a certos medicamentos.

O trauma que as pessoas resgatadas experimentam geralmente não é específico de um único evento. Às vezes é o resultado de um acúmulo de várias situações a que foram expostas desde que eram crianças. Muitas nos dizem que cresceram em áreas afetadas por conflitos e tiveram que fugir com suas famílias. Algumas perderam parentes e fizeram essa perigosa viagem pelo deserto e pela Líbia desacompanhadas.

A maioria dos menores de idade que temos a bordo nunca soube como é viver em um local seguro e estável, ou como é ter um lugar seguro para brincar. O que eles sabem muito bem é como é estar sempre alerta, cercado de ansiedade e incerteza e estar em deslocamento. Durante a conversa, muitas vezes nos deparamos com a impressão de que esse modo de vida se tornou “normal” para eles.

Agora temos 356 pessoas a bordo e é importante que dediquemos tempo a cada uma delas. Algumas não têm contato com suas famílias e amigos há muito tempo. A consulta médica a bordo do navio de resgate pode ser a primeira vez que as pessoas estão sendo ouvidas ou tratadas respeitosamente por um longo tempo.

Algumas delas vêm à nossa clínica e choram, porque não estão acostumadas a receber atenção ou respeito. Algumas acham que não merecem atenção – seja médica ou não.

Um jovem que sempre se sentiu invisível talvez possa, pela primeira vez em sua vida, compartilhar sua história depois de sofrer em silêncio por tanto tempo. Na clínica, temos o privilégio de manter um espaço seguro. Nós nos sentimos humildes diante da coragem deles. E ouvimos o que eles têm a dizer.

Em nossa clínica a bordo do Ocean Viking, tratamos de feridas e condições físicas e tentamos, ao máximo, pelo menos oferecer um mínimo de primeiros socorros psicológicos. Mas o que as pessoas realmente precisam é de um apoio psicológico mais amplo do que poderemos oferecer com a nossa equipe em pouco tempo a bordo do navio.

Depois de todas as suas experiências de insegurança e a trajetória traumatizante desde seus países de origem, passando pela Líbia, até um barco de borracha, qualquer atraso em permitir que elas desembarquem em um porto seguro as expõem novamente à incerteza e à ansiedade, que fazem com que se sintam inúteis e indesejáveis.”

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