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Noroeste do Quênia: Febre do Vale Rift faz dúzia de vítimas após enchentes de dezembro

05/01/2007
Doença não tem cura e mata cerca de metade dos pacientes que contraem sua forma mais severa. Na região, 67 pessoas já morreram

No dia 4 de janeiro, oito novos casos suspeitos de Febre do Vale Rift foram descobertos por equipes de MSF no distrito de Ijara, na província Noroeste do Quênia. Um dos pacientes morreu, fazendo com que o número de mortos aumentasse para 67 desde que início do surto da doença no dia 7 de dezembro.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) começou a combater o surto no dia 22 de dezembro, quando a equipe começou a trabalhar na cidade de Garissa, instalando unidades de saúde para atender pacientes no hospital, onde 23 foram tratadas por infecção da Febre do Vale Rift. Hoje, as equipes de MSF estão trabalhando em Garissa, Ijara e no Rio Tano fornecendo informação, tentando localizar pessoas infectadas e tratando pacientes.

A Febre do Vale Rift é uma doença viral rara, sobre a qual se sabe muito pouco. Transmitida em um primeiro momento para os humanos através do contato com matéria animal infectada, como sangue ou outros fluidos, ou órgãos, também é transmitida de animais domésticos através do mosquito aedes. Acredita-se que o consumo de leite cru, um elemento importante na dieta de muitos pastores nômades, também possa provocar a infecção.

A epidemia foi desencadeada por grandes enchentes na região. Os ovos de mosquito infectados são freqüentemente colocados perto das margens de rios e podem permanecer inativos por muitos anos até serem submergidos. Uma vez cobertos por água, os ovos se transformam em mosquitos infectados que disseminam o vírus.

O último grande surto da doença na mesma região ocorreu em 1997 e também foi registrado após fortes chuvas. Na época, no distrito de Garissa foram infectadas 27.500 pessoas e 170 morreram.

Apenas 1% das pessoas que contraem a Febre do Vale Rift desenvolvem um tipo grave da doença. Mas entre os que a têm, cerca de metade morre.

"A grande maioria das pessoas infectadas só tem dor de cabeça e sintomas parecidos com os de gripe que lembram a malária", explicou o coordenador de emergência de MSF, Dr Ian Vanenglegem. "Mas a forma severa, como outras doenças hemorrágicas, ataca o fígado e pode fazer com que o paciente sangre por todos os orifícios. Não há cura, nós só podemos tratar os sintomas".

Um dos maiores desafios desse surto é logístico. "Grande parte da província do Noroeste do Quênia não é acessível por estrada por causa das enchentes, então a única maneira de encontrar pacientes é viajando de helicóptero", contou o Dr Vanenglegem. "Para chegar ao Hospital Masalani em Ijara pode-se levar até três dias pela estrada. Estima-se que até 500 mil pessoas estejam sob risco de infecção e essa população está espalhada por uma vasta área. Nós temos certeza de que o número de casos já descobertos é apenas a ponto do iceberg".

Outra dificuldade é o medo do surto entre a população. Com uma alta taxa de mortalidade entre os que contraem a forma mais grave da doença, muitas pessoas não vêem vantagem em percorrer o freqüentemente longo caminho até os centros de saúde. Para driblar esse problema, as equipes de MSF estão realizando atividades de conscientização para aumentar o conhecimento do que é a Febre do Vale Rift e quais medidas as pessoas podem tomar por conta própria.

"Essa é uma preocupação importante porque é provável que, com as águas das enchentes sendo um ambiente perfeito para a reprodução dos mosquitos, esse surto será seguido de um grande número de infecções por malária. Os sintomas iniciais podem ser parecidos com os da Febre do Vale Rift. Se as pessoas ficarem com medo de ir até os centros de saúde ou não vêem por que fazê-lo, então haverão mais mortes desnecessárias", concluiu Dr Vanenglegem.

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