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Nordeste da Nigéria: “O conflito está se intensificando e as necessidades são enormes”

07/02/2020
Entrevista com Luis Eguiluz, coordenador-geral de MSF na Nigéria desde 2017, sobre a atual crise humanitária no nordeste do país
Nordeste da Nigéria: “O conflito está se intensificando e as necessidades são enormes”

Foto: Igor Barbero/MSF

Você chegou à Nigéria em setembro de 2017. Você acha que a situação da população em Borno melhorou desde então?
Após mais de 10 anos de conflito entre grupos armados não-estatais e as Forças Armadas nigerianas, a situação só está piorando. O conflito está se intensificando e as necessidades são enormes. As Nações Unidas estimam que mais de dois milhões de pessoas foram desalojadas de suas casas devido à violência e mais de sete milhões de pessoas dependem inteiramente da ajuda humanitária para sobreviver. O problema mais sério é que existem mais de um milhão de pessoas vivendo em áreas controladas por grupos armados não-estatais – as organizações humanitárias não têm acesso a essas áreas e as pessoas que vivem lá não recebem nenhum tipo de assistência. O conflito pode não ser novo, mas essa crise é extrema e está acontecendo agora. Em nossos projetos, acompanhamos o impacto que isso causa nos seres humanos.

Quais são as principais dificuldades para prestar assistência humanitária na Nigéria?
A situação de segurança se deteriorou claramente nos últimos meses e é um desafio para as organizações humanitárias prestar assistência adequada à população. Por um lado, as organizações enfrentam o risco de violência – infelizmente, os assassinatos e sequestros de equipes humanitárias aumentaram nos últimos meses – e, por isso, a presença de ajuda é muito limitada fora da capital do estado, Maiduguri. Por outro lado, as leis antiterroristas na Nigéria impõem limitações reais à ação humanitária e aos seus princípios.

Quais são as principais necessidades da população?
Nas “cidades da guarnição” (cidades controladas pelos militares nigerianos) há necessidades críticas que não são atendidas, especialmente quando se trata de cuidados de saúde, água potável, abrigo e proteção. Em muitos casos, a população depende totalmente da ajuda humanitária para sobreviver. No caso de Pulka, a população triplicou desde o início do conflito e não há terras agrícolas suficientes para cultivar alimento. Além disso, as pessoas não podem passar do perímetro militar da cidade. Se o fizerem, correm o risco de serem atacadas por grupos armados não-estatais ou de serem consideradas pelos militares nigerianos como membro dos grupos armados. E, fora das cidades das guarnições, estima-se que as necessidades sejam ainda maiores, pois existem mais de um milhão de pessoas que não recebem assistência humanitária desde o início do conflito.

Em locais como Pulka ou Gwoza, os projetos de MSF têm um componente de proteção. Como funciona isso?
Em nossos projetos, realizamos programas de extensão, que identificam pessoas mais vulneráveis, que estão em risco de violência, exploração ou perda de direitos ou serviços básicos. Nossa prioridade é garantir atendimento médico. Em seguida, com base nas necessidades, identificamos organizações que possam oferecer assistência e serviços específicos, como proteção à criança. Isso é especialmente importante no caso de menores não acompanhados que chegam a essas cidades de guarnição. Muitas vezes, essas crianças sofreram vários episódios de violência e podem facilmente sofrer mais abusos.

Você observou um aumento nos casos de violência sexual?
Estamos observando mais casos porque finalmente conseguimos chegar até essas pessoas – muitas vezes, os sobreviventes de violência sexual não buscam atenção devido ao estigma e ao medo. Portanto, em nossas atividades de extensão e proteção, trabalhamos para construir um relacionamento com a comunidade baseado na confiança. Sabemos que, em situações de conflito, mulheres e crianças geralmente são as mais expostas à violência, e MSF está cada vez mais atendendo pessoas afetadas pela violência sexual perpetrada por todas as partes do conflito. Nesse contexto, não existem mecanismos de proteção que impeçam esses abusos ou, pelo menos, que possam mitigar as consequências.

A falta de recursos econômicos aumenta a vulnerabilidade dessas pessoas?
Certamente. As pessoas deslocadas que não têm alimentos, combustível ou água o suficiente são muito mais vulneráveis ao abuso ou à exploração. Como eu disse antes, sair do perímetro de segurança para obter alimentos ou itens essenciais, como lenha, implica riscos significativos – aqueles que ultrapassam o perímetro são frequentemente atacados por grupos armados.
Apesar de tais riscos e do fato de essa situação continuar sendo uma emergência, alguns atores começaram a implementar programas de desenvolvimento em vez de oferecer ajuda humanitária de emergência. Isso leva as pessoas a se exporem a riscos adicionais em um contexto em que a segurança não é garantida. Por exemplo, algumas distribuições de alimentos foram reduzidas por causa de uma alteração nos parâmetros para atender as necessidades de desenvolvimento. Isso faz com que as pessoas tenham que buscar seu próprio alimento, geralmente, além do perímetro de segurança.
 
As pessoas deslocadas ainda estão chegando às cidades de guarnição?
Embora algumas pessoas continuem chegando às cidades de guarnição como Pulka e Gwoza, agora há menos deslocados vindo de áreas controladas por grupos armados não-estatais. Temos visto um número maior de pessoas que precisam se mudar pela segunda ou terceira vez de outra área controlada militarmente e acabam chegando aqui. Estamos preocupados com o fato de as políticas aprovadas pelo governo estarem incentivando as pessoas a voltarem ou se instalarem em locais onde não há serviços básicos suficientes e onde a insegurança está crescendo.

Depois de dois anos e meio como coordenador-geral na Nigéria, qual é a sua impressão da crise humanitária em Borno?
No momento, a situação não mostra sinais de melhora. As necessidades mais urgentes, abundantes e claras simplesmente não estão sendo atendidas em Borno. Sabemos que o conflito só está se intensificando e que devemos continuar prestando assistência médico-humanitária de emergência. Mas a gravidade desta crise simplesmente não está sendo tratada adequadamente pelo governo da Nigéria e por atores internacionais. Devemos continuar trabalhando e pressionando por mais ações humanitárias. Atender necessidades básicas deve ser prioridade, salvar vidas deve ser prioridade. Não devemos subestimar a urgência dessa crise, que continua sendo uma das mais agudas dos últimos anos.
 

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