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Nômades de guerra: deslocamentos perpétuos de famílias sul-sudanesas no Alto Nilo

29/04/2015
“As pessoas têm estado em deslocamento desde o início da guerra, elas não têm mais nenhum lugar para chamar de lar”

Foto: Beatrice Debut/MSF

Confrontos contínuos no estado do Alto Nilo estão levando a mais mortes e deslocamentos de pessoas; algumas delas já estão deslocadas e vivem em condições terríveis, de acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Em Malakal, mais de 6.600 pessoas fugiram de suas casas para buscar abrigo na base de proteção de civis (PoC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU), enquanto em Melut, uma cidade ao norte de Malakal, mais de 1.665 famílias buscaram refúgio cruzando o rio Nilo desde o começo de abril. A organização pediu a todas as partes envolvidas no conflito do Sudão do Sul que permitam o acesso humanitário necessário em todas as partes do país.

Essa nova onda de deslocamento, provocada por confrontos que se iniciaram no começo deste mês, fez com que o número total de deslocados internos abrigados na base da ONU em Malakal – local para onde começaram a ir desde o início do conflito em dezembro de 2013 – subisse para 26.500, causando superlotação. Os novos deslocados internos estão vivendo em grandes tendas, com dezenas de famílias dividindo a mesma tenda e dormindo no chão. MSF continua oferecendo serviços médicos no hospital da base da ONU, enquanto outras agências estão no local para garantir suprimentos de água suficiente e saneamento adequado. Porém, com a superlotação, os poucos recursos existentes estão ficando restritos.

“A estação chuvosa está apenas começando e com a superlotação do PoC nós começamos a observar ocorrências de defecação a céu aberto e longas filas nos pontos de água devido à baixa quantidade e pressão da água. Casos de diarreia aguda estão aumentando, então estamos reforçando nossas medidas de vigilância para garantir que surtos sejam evitados. No ano passado, MSF lançou uma resposta de combate à cólera e uma campanha de vacinação contra a doença no acampamento e estamos prontos para replicar essas ações caso seja necessário”, disse Juan Prieto, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul. “Porém, estamos com receio de que, se o conflito continuar, haja mais deslocamentos, aumento da superlotação do PoC e uma deterioração das condições de saúde e de vida em geral.”

Em Melut, as mais de 1.665 famílias que fugiram para o lado oeste do Nilo são, em sua maioria, membros do grupo étnico shilluk, que já estavam deslocadas e vivendo em um acampamento. A maioria das pessoas fugiu para a região de Noon, a cerca de 10 km do Nilo. Essas famílias estão vivendo debaixo de árvores, com acesso a latrinas extremamente limitado, o que faz com que defequem a céu aberto e percorram longas distâncias para buscar água do Nilo. Ao menos que a água esteja tratada, ela não é adequada para beber. Outras famílias estão espalhadas por toda margem ocidental do Nilo, em Kaka, Kuju e Toruguang Payams, a cerca de 80 km de Melut. Essas famílias também não têm abrigo, e seus recursos alimentícios estão, lentamente, esgotando-se, na medida em que elas consomem o que conseguiram guardar de quando se deslocaram no começo do mês.

“O maior problema é a água. Eu tenho de ir ao Nilo de três a quatro vezes por dia. É uma caminhada de 25 minutos em cada sentido”, disse Teresa, de 17 anos, uma shilluk que fugiu para Noon recentemente. “Nós tememos por nossas vidas e por nossos futuros, se sobrevivermos.”

MSF está prestando assistência a cada família com kits de tratamento de água, a fim de que elas tenham água limpa, além de utilizar barcos e burros para transportar e distribuir itens alimentares e não alimentares a famílias espalhadas por diferentes partes de Noon. A organização está conduzindo regularmente clínicas móveis com serviços ambulatoriais e salas de emergência para a população em Noon, e transferindo casos médicos agudos para instalações de saúde nas cidades de Melut e Kodok. Em um dia, MSF trata uma média de 150 pacientes com doenças como sarampo, diarreia aquosa aguda, e infecções do trato respiratório em Melut. No entanto, devido a contínuos conflitos na região, MSF é, por vezes, forçada a suspender suas atividades, como medida preventiva, deixando a população em uma situação ainda pior.

“As pessoas aqui têm estado em deslocamento desde o início da guerra. Elas não têm mais nenhum lugar para chamar de lar, na medida em que a insegurança as tornou nômades, que vão de um lugar para o outro em busca de refúgio seguro. Sempre que os confrontos começam, elas são forçadas a se mover. Crianças com menos de cinco anos e mulheres grávidas são especialmente vulneráveis nessas ocasiões”, disse Joao Martins, coordenador do projeto de MSF em Melut.

A situação de segurança no Alto Nilo, e em outros estados gravemente afetados pelo conflito, continua instável. A desconfiança entre as comunidades leva a confrontos que, por sua vez, têm enormes consequências humanitárias. As pessoas estão constantemente em fuga e as áreas para onde fogem não oferecem condições de vida favoráveis.
Na medida em que mais pessoas se deslocam, algumas para áreas remotas onde elas mal têm meios para sobreviver de forma autossuficiente, MSF pede a todos os grupos armados que facilitem a movimentação livre de assistência humanitária e de profissionais para todas as regiões afetadas pelo conflito no Sudão do Sul. Só assim essas vidas podem ser salvas.

MSF atua na região que hoje constitui a República do Sudão do Sul desde 1983. A organização responde a emergências, incluindo deslocamentos em grande escala, influxos de refugiados, situações alarmantes de nutrição e picos de doenças como sarampo, malária, diarreia aquosa aguda e calazar, além de oferecer cuidados de saúde básicos e especializados. Desde que o conflito teve início no Sudão do Sul, em dezembro de 2013, duas milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas. Algumas vivem em acampamentos, enquanto outras cruzaram a fronteira rumo aos países vizinhos Quênia, Uganda, Etiópia e Sudão.
 

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