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No Zimbábue, MSF combate o pior surto de cólera em muitos anos

15/12/2008
Mais de 11 mil pacientes já foram tratados pela organização

MSF já tratou de mais de 11 mil pacientes desde o mês de agosto no pior surto de cólera no Zimbábue em anos. A organização já abriu dezenas de centros de tratamento da doença em todo o país. Casos de cólera foram relatados em quase todas as províncias. Mais de 500 pessoas, entre staff nacional e estrangeiro, estão trabalhando para identificar novos casos e tratar os pacientes que precisam de cuidados.

Harare tem sido o centro do surto. MSF já tratou mais de 6 mil pessoas na capital, superpovoada. Uma cidade na fronteira com a África do Sul, Beitbridge, também sofre muito com a doença. MSF já tratou de mais de 3 mil pessoas com suspeita de cólera na região.

O Zimbábue já passou por outros surtos de cólera antes – a doença é endêmica em algumas áreas rurais – mas até pouco anos atrás era rara nas áreas urbanas.

"A escalada do número de infectados, especialmente em Harare não tem precedentes", diz um epidemiologista de MSF que trabalha periodicamente no Zimbábue há sete anos. Ele explica que as principais razões para o novo surto são a dificuldade do acesso a água limpa, esgoto correndo a céu aberto e lixo que não é recolhido e fica exposto nas ruas. "O fato de o surto ter se tornado maior é um indicador de que o sistema de saúdo do país está muito mal"

MSF está trabalhando em dois centros de tratamento de cólera localizados em instalações que já existiam em Harare. Só esses centros já atenderam mais de 2 mil pessoas com suspeita da doença na primeira semana de dezembro.

Um coordenador de emergências de MSF em Harare descreve a situação: "imagine um local de tratamento de cólera com dezenas de pessoas em condições muito precárias. Por exemplo, existe um pouco de eletricidade na cidade, então só há um pouquinho de luz. É difícil para os médicos e enfermeiros sequer verem os pacientes de que estão tratando".

Em Beitbridge, MSF armou centros de tratamento de cólera usando basicamente equipamento enviado do mundo todo. O auge da emergência foi muito cedo nesta cidade fronteiriça, o que resultou em um alto grau de mortalidade logo nos primeiros dias de surto. Aproximadamente pelo quarto dia, contudo, MSF montou o centro de tratamento e a taxa de mortalidade começou a cair de 15% para 1%.

Como MSF está no país desde 2000 mantendo programas de combate ao HIV/Aids, a organização pôde reagir sobre o terreno e rapidamente deslocar unidades de emergência de resposta à colera.

O surto é particularmente preocupante por ter começado antes da temporada de chuvas. Uma grande preocupação é que quando a chuva começar as reservas de água limpa sejam contaminadas, aumentando o número de casos novamente. A temporada de chuvas começa em novembro e continua até março. Em algumas áreas as chuvas pesadas ainda não começaram.

Um outro desafio é que os funcionários de saúde do governo em algumas regiões, particularmente em Harare, estão em greve. Este fato exigiu que MSF recrutasse rapidamente centenas de enfermeiros para lidar com a chegada dos pacientes novos. É preciso muito tempo e energia para treinar os novos membros da equipe, ainda mais quando o pessoal antigo está tão ocupado.

MSF também trabalhou em missões exploratórias comunidades rurais e respondeu a muitos avisos de casos de cólera. Poucos casos foram encontrados em vilas pequenas. MSF montou pequenas unidades de tratamento de cólera onde necessário. A organização possui 8 unidades em 5 distritos nas províncias de Manicaland e Mashvingo na parte leste do Zimbabwe e trataou mais de 770 pacientes.

Uma cidade na fronteira com Moçambique, Nyamapanda, também foi afetada. MSF trabalha com o Ministério da Saúde do Zimbábue na região. Mais de 1600 pacientes já foram atendindos no distrito de Mudzi.

MSF continuará a monitorar a situação e a tratar das pessoas nas áreas mais afetadas, assim como a mandar equipes de emergência e mantimentos para várias regiões do Zimbábue afetadas."Um surto de cólera destas proporções geralmente continua por muitos meses", diz o epidemeologista de MSF.