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“Ninguém sabe quando eles se sentirão seguros o suficiente para voltar para casa"

15/10/2019
Entrevista com Simona Onidi, coordenadora do projeto de MSF, sobre a situação no estado de Benue, na Nigéria
“Ninguém sabe quando eles se sentirão seguros o suficiente para voltar para casa"

Foto: Benedicte Kurzen/NOOR

Por que MSF decidiu começar a trabalhar em Benue em 2018? 

“No estado de Benue, a violência intercomunitária resultante de disputas por terras para pastagem e agricultura existe há anos, mas a situação piorou nos últimos dois anos. A escassez de terra, devido a mudanças ambientais, aumentou os níveis de violência, o que obrigou milhares de pessoas a fugir de seus vilarejos.

A equipe de MSF em Benue está focada nas necessidades de milhares de pessoas que foram desalojadas de suas casas desde janeiro de 2018 na mais recente onda de violência entre pastores e agricultores. As pessoas deslocadas costumam nos dar relatos de violência e destruição angustiantes. Muitos perderam membros da família e tudo o que possuíam e, agora, estão com muito medo de retornar aos seus vilarejos".

Onde as pessoas deslocadas se estabeleceram e quantas precisam de ajuda?

“O número exato de pessoas deslocadas em todo o estado e em toda a região é desconhecido. A maioria vive fora dos seis campos oficiais para pessoas deslocadas internamente. Milhares encontraram abrigo com parentes ou outras pessoas em comunidades até agora não afetadas pelo conflito. Muitos estão sobrevivendo graças apenas às comunidades anfitriãs, que compartilham suas casas, alimentos e outros recursos. Em troca, as pessoas deslocadas frequentemente trabalham com e para elas.

Não podemos ter certeza de quantas pessoas precisam de ajuda. As pessoas deslocadas que não estão registradas não receberam apoio até o momento. Elas só podem obter assistência médica se suas famílias puderem pagar por isso – e a maioria não tem dinheiro”.

O que MSF está fazendo para ajudar?

“Perto da capital do estado, Makurdi, estamos trabalhando em dois campos chamados Mbawa e Abagana. Também trabalhamos em Ugba e Anyiin na área de Logo (cerca de 100 quilômetros a leste de Makurdi). Nos quatro locais, oferecemos atendimento médico primário gratuito a cerca de 8 mil pessoas deslocadas, além de outras pessoas das comunidades vizinhas que procuram ajuda, e encaminhamos pacientes em estado crítico ao hospital para tratamento especializado.

Na semana passada, por exemplo, nossa equipe diagnosticou um paciente com hérnia estrangulada e depois o transportou para cirurgia de emergência para o Hospital Universitário do Estado de Benue. MSF pagou pelo procedimento e todos os medicamentos necessários, porque a saúde pública não é gratuita e muitos dos mais vulneráveis (incluindo a população que MSF está apoiando) não podem arcar com os custos.

De maio de 2018 a setembro deste ano, nossas equipes realizaram 37.143 consultas ambulatoriais. Também fornecemos água potável, transportando água para os acampamentos, consertando os poços existentes e perfurando novos. Também distribuímos itens de primeiras necessidades, como kits de higiene, e construímos latrinas e chuveiros. Em um campo, construímos centenas de abrigos para proteger as pessoas da chuva e do vento”.

Quais são as principais necessidades médicas das pessoas?
“Nos quatro campos em que trabalhamos, vemos vários problemas de saúde recorrentes relacionados às condições de vida das pessoas e à falta de água e saneamento. Em locais sem abrigos adequados, nossos pacientes sofrem de infecções do trato respiratório. A doença mais comum que tratamos é a malária, que aumentou ainda mais durante a estação chuvosa. Vemos casos de diarreia aquosa aguda e infecções de pele como sarna. Também vemos pacientes com gastrite, que suspeitamos estar frequentemente ligada às dificuldades psicológicas que sofreram.

O ambiente dos campos e acampamentos informais tem um impacto negativo na saúde das pessoas. Vemos problemas como gestão inadequada de resíduos, superlotação e água estagnada em que os mosquitos podem se reproduzir.

Para quem mora fora dos campos, em prédios abandonados, a situação é ainda pior. Muitos não têm comida suficiente nem acesso aos serviços mais básicos, como cuidados de saúde primária, água potável, latrinas e instalações para higiene.

Mas o maior desafio para todas as pessoas deslocadas é a incerteza sobre o futuro. Alguns retornam às suas terras periodicamente para cuidar das plantações, mas fazem isso com alto risco pessoal. As mesmas pessoas que os forçaram a fugir podem atacá-los novamente.

O que melhoraria a situação para os milhares de pessoas deslocadas?

“O mais importante é que as pessoas estejam seguras. Elas nos dizem que querem desesperadamente ir para casa – se houvesse segurança suficiente para isso. Para que as pessoas retornem aos seus vilarejos, é necessário um retorno seguro, digno e, acima de tudo, voluntário.

Houve menos relatos de incidentes violentos nas últimas semanas. Pelo que nossos pacientes nos dizem, os grupos opostos se tornaram melhores em evitar um ao outro, enquanto as pessoas agora fogem de suas casas antes que qualquer violência possa ocorrer. Será necessário um diálogo cuidadoso, apoiado pelas autoridades nigerianas, entre todos os grupos envolvidos para garantir que as pessoas possam coexistir em segurança e paz no longo prazo. Mas até então, as pessoas que estão atualmente deslocadas e que ainda não se sentem seguras o suficiente para voltar para casa precisam de mais e melhores abrigos e acesso à assistência médica gratuita. As pessoas que não vivem em campos oficiais precisam especialmente de ajuda urgente“.

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