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Nigéria: "Tudo o que tenho neste mundo são as roupas do corpo"

08/01/2019
A migrante de 80 anos Maryam Sofo fala sobre as dificuldades da vida no campo de Bama
Nigéria: "Tudo o que tenho neste mundo são as roupas do corpo"

Foto: Natacha Buhler/MSF

Para os quase 2 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas no nordeste da Nigéria nos últimos nove anos, a emergência na região está longe de terminar. As pessoas continuam sendo deslocadas diariamente pela violência. Presas em um conflito de longa data, muitas pessoas nos estados de Borno e Yobe lutam para encontrar comida, água ou abrigo e dependem da ajuda humanitária para sobreviver.  

Maryam Sofo é uma viúva de 80 anos, que agora vive em um campo para pessoas deslocadas em Bama. Maryam Sofo é uma viúva de 80 anos, que agora vive em um campo para pessoas deslocadas em Bama. Dois anos atrás, sua família deixou a cidade natal de Banki, perto da fronteira com Camarões, depois que ataques frequentes tornaram a vida diária extremamente difícil. Maryam estava muito doente para se mudar, então sua família foi forçada a tomar a difícil decisão de deixá-la para trás. Depois que eles partiram, ela morava sozinha, sobrevivendo de alimentos distribuídos por organizações humanitárias, mas fraca demais para coletar lenha ou cozinhar para si mesma. Em novembro de 2018, ela se sentiu forte o suficiente para se juntar a seu filho e sua família em Bama, 60 km a noroeste. Mas chegando a Bama, ela descobriu que a vida no acampamento não era nada fácil.

"A vida aqui é cheia de preocupação", diz Maryam. “Cheguei há 20 dias, logo após a distribuição mensal de alimentos e itens de primeira necessidade no acampamento. Eu não recebi nada desde que cheguei aqui. Não tenho comida, nem cobertor, nem galão para coletar água, nem esteira para dormir. Tudo o que tenho neste mundo são as roupas do corpo.

Para Maryam, assim como os quase 2 milhões forçados a deixar suas casas na região, a única mudança significativa com a chegada da estação seca é o aumento da violência e da insegurança, tornando-os ainda mais vulneráveis. Além de perderem suas casas, muitos perderam membros da família e sobreviveram a ataques violentos. Confinados em campos, suas perspectivas são extremamente limitadas e dependem de ajuda para sobreviver.

“As pessoas estão confinadas nos campos há anos”, diz Luis Eguiluz, coordenador-geral de MSF na Nigéria. "Elas têm liberdade de movimento limitada fora dos campos, o que as impede de se sustentar, e têm poucas chances de voltar para casa por causa do conflito contínuo".

Apesar de as pessoas dependerem da ajuda nos campos, muitas vezes não há o suficiente para contornar a situação. “A assistência humanitária é insuficiente e não cobre todas as suas necessidades em termos de saúde, água, abrigo e proteção”, diz Eguiluz. “Em Gwoza, vimos a distribuição de alimentos sendo reduzida; em Pulka, o abastecimento de água é insuficiente e 4 mil pessoas estão em um acampamento transitório esperando para serem abrigadas. É o mesmo em Bama, onde as pessoas recém-chegadas às vezes dormem debaixo de árvores ou compartilham abrigos comunitários com outras 70 pessoas por meses a fio ”.

Prestar ajuda no nordeste da Nigéria é um desafio devido à situação de segurança muito volátil e ao fato de que muitas áreas são inacessíveis para as organizações de ajuda. Operações militares estão em curso em muitas partes do estado de Borno e os ataques ocorrem regularmente nas estradas, bem como nos centros das cidades. Como resultado, as organizações de ajuda são frequentemente forçadas a depender de aviões para transportar pessoal e / ou suprimentos para áreas fora da capital do estado, Maiduguri. Mas mesmo em locais com menos restrições de segurança, muitas vezes não há ajuda suficiente para contornar a situação.

As más condições de vida nos campos e a falta de ajuda provocaram uma série de emergências de saúde, incluindo um recente surto de cólera. “MSF teve que ampliar suas atividades em Maiduguri e em várias outras cidades nos estados de Borno e Yobe em resposta a um surto de cólera que foi declarado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2018”, disse o dr. Louis Vala, coordenador médico de MSF na Nigéria. “MSF tratou mais de 8 mil pacientes de cólera e vacinou 332.700 pessoas contra a doença só em 2018”.

No início de janeiro de 2019, MSF também interveio em Maiduguri para apoiar os recém-deslocados, fornecendo a eles apoio médico, distribuindo cobertores e sabão e construindo latrinas. De fato, mais de 8 mil pessoas chegaram a Maiduguri ao longo de duas semanas, depois de fugir do crescente conflito no norte do estado de Borno.

“A intensidade da crise e suas consequências humanitárias não diminuíram”, diz Eguiluz, “ao mesmo tempo que muitas pessoas que precisam de ajuda não a recebem”.

Enquanto isso, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) estima que 800 mil pessoas estejam vivendo em áreas fora do alcance das organizações de ajuda humanitária. Embora poucos fatos concretos sejam conhecidos sobre suas condições de vida e necessidades, a condição de pessoas que chegam dessas áreas é, em alguns lugares, extremamente preocupante. Um estudo epidemiológico realizado por MSF em setembro de 2018 mostrou que 8,2% das crianças que chegaram a Bama desde maio de 2018 sofrem de desnutrição aguda grave e 20,4% têm desnutrição aguda global – ambas muito acima do limiar de emergência. Essas taxas alarmantes refletem, provavelmente, as condições de vida desesperadas e as necessidades agudas das pessoas que vivem em áreas inseguras, inalcançáveis para as organizações de ajuda humanitária.

“A emergência no norte da Nigéria está longe de terminar. Os números nutricionais que encontramos em Bama em setembro de 2018 não são muito diferentes, se não piores, do que quando o estado nutricional crítico da população de Borno tornou-se de conhecimento público há alguns anos”, diz Eguiluz. “Agora não é hora de reduzir a assistência humanitária de emergência em Borno. As pessoas dependem muito de ajuda externa para sobreviver e, atualmente, essas necessidades básicas permanecem não atendidas. A população sofre diariamente com as consequências do conflito em curso e é vital garantir que eles tenham pelo menos assistência básica, especialmente em áreas fora de Maiduguri. ”


MSF oferece assistência médica vital nos estados de Borno e Yobe, no norte da Nigéria, desde 2014. Atualmente, MSF executa projetos em Maiduguri, Damaturu, Bama, Ngala, Rann, Pulka e Gwoza, enquanto equipes de emergência respondem a surtos de doenças e outras necessidades humanitárias urgentes. De janeiro a outubro de 2018, as equipes de MSF no norte da Nigéria ofereceram mais de 98 mil consultas ambulatoriais; internaram quase 32 mil pacientes no hospital; trataram 6 mil crianças gravemente desnutridas em atendimento ambulatorial; e internaram 6.300 crianças gravemente desnutridas no hospital.
 

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