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Nigéria: implementação de uma resposta cirúrgica de emergência

13/08/2019
Mohana Amirtharajah, coordenadora e consultora de cirurgia de MSF, fala sobre lidar com desafios inesperados
Nigéria: implementação de uma resposta cirúrgica de emergência

Foto: Benedicte Kurzen/NOOR

A equipe de MSF na Nigéria tem uma piada: não somos apenas flexíveis, somos "elásticos".  Responder a uma emergência significa flexibilidade e estar disposto a mudar de prioridades à medida que surgem novas informações. Em Makurdi, no estado de Benue, a sudeste da capital nigeriana, Abuja, um petroleiro explodiu após um acidente de trânsito. A explosão resultou em mais de 100 mortos e feridos, e todos nós sabíamos que precisávamos agir.  Um influxo repentino desse número de pacientes com queimaduras, que podem necessitar de tratamento complexo e de longo prazo, sobrecarregaria até mesmo o sistema de saúde mais eficiente. Neste caso, os hospitais locais, incluindo os nossos parceiros do Hospital Universitário do Estado de Benue (BSUTH), já estavam trabalhando perto da sua capacidade máxima quando o incidente ocorreu. Poucas horas após o incidente, a equipe de MSF em Makurdi entrou em contato perguntando o que eles precisavam e como poderíamos ajudar.

Antes da explosão, as atividades de MSF em Benue incluíam água e saneamento e provisão de cuidados de saúde primária para uma população de deslocados internos. Não estávamos prestando atendimento ou cirurgia em regime de internação, mas esse acidente aconteceu em nosso quintal e afetou nossos parceiros locais, não fazer nada não era uma opção.  Embora os hospitais locais tivessem cirurgiões e médicos totalmente qualificados capazes de lidar com as necessidades imediatas de triagem, ficou claro que precisariam de pessoal e suprimentos de enfermagem extras (como curativos para queimaduras, pomadas e antibióticos) para tratar esse número de pacientes. Simultaneamente, enquanto a equipe no terreno dava apoio direto, os departamentos médicos e de operações de MSF em Amsterdã começaram a formular um plano para trazer recursos extras, incluindo suprimentos médicos, apoio financeiro e profissionais médicos e de logística. Em poucos dias, mudamos essencialmente de um projeto que oferecia assistência a deslocados internos para uma resposta cirúrgica altamente especializada.

Eu recebi a notícia do incidente pela primeira vez dois dias depois, quando terminei uma viagem de campo a Bangladesh. Iniciamos com as equipes médicas em Amsterdã e na Nigéria um plano preliminar de apoio técnico: determinar quais recursos humanos seriam necessários para apoiar o Ministério da Saúde, bem como a disponibilidade de equipamentos especializados. Meu primeiro telefonema depois de aterrissar em Amsterdã foi para o coordenador de cirurgiões e anestesistas, que também trabalhava até tarde em Berlim, para discutir quem poderia estar disponível para voar para a Nigéria em curto prazo. Uma semana depois da primeira conversa sobre o incidente, meus planos anteriores de visitar a Síria foram suspensos e, em vez disso, eu estava em um avião rumo à Nigéria. O orientador de anestesia seguiu um dia depois.  

Quando cheguei, a equipe de MSF no terreno já havia feito grandes progressos, com os pacientes do hospital recebendo cuidados da equipe conjunta do hospital universitário e de MSF. A avaliação dos pacientes revelou que muitos deles, embora tivessem sofrido queimaduras extensas, não foram queimados muito profundamente, o que significa que o prognóstico foi muito bom: com cuidados de enfermagem e de feridas, complicações como infecções poderiam ser evitadas. Nossos parceiros da equipe nigeriana do BSUTH – incluindo uma equipe completa de cirurgia plástica – já haviam feito um enorme trabalho, gerenciando um número muito grande de pacientes, inclusive realizando cirurgias de emergência e oferecendo cuidados intensivos. A maioria dos feridos eram homens jovens que estavam tentando salvar combustível quando a explosão aconteceu. Eles recebiam mudanças diárias de curativo – necessárias para prevenir a infecção, mas muitas vezes dolorosas e estressantes para o paciente. Nosso conselheiro observou que o simples fato de colocar música para tocar ajudou a aliviar a ansiedade, e logo toda a ala estava cantando junto para apoiar e proporcionar uma distração para aqueles que estavam passando pela troca de curativo.  

Enquanto isso, o fisioterapeuta ensinou aos pacientes técnicas simples para evitar contraturas nas articulações: “relaxe, respire, alongue, repita”.  Além disso, a enfermeira de prevenção de infecção de MSF estava treinando a equipe sobre trocas de curativos e higiene.  Depois de visitar o hospital, visitar pacientes e encontrar com a liderança do hospital, planejamos criar uma pequena sala de cirurgia dedicada para acomodar o volume extra de pacientes que precisam de cirurgia.

Foi um incidente tão grande que os pacientes foram espalhados por vários hospitais.  Portanto, nos propusemos a encontrar o maior número possível de pacientes internados. Em um dia, conheci todos os pacientes afetados em todos os hospitais e percebi o que as necessidades médicas remanescentes acarretavam. Onde quer que estivéssemos, desde o menor hospital-clínica de internação até o grande centro federal de atendimento terciário, conhecido como Centro Médico Federal, encontramos os pacientes sendo tratados por médicos nigerianos dedicados e cuidadosos que estavam fazendo o melhor uso possível dos recursos disponíveis. Fiquei impressionada que, apesar da localização rural e da falta de um plano de emergência, os hospitais locais haviam formado um sistema de resposta que funcionava bem, com os pacientes mais doentes sendo transferidos para cuidados especializados, e aqueles que podiam esperar recebendo tratamento nos hospitais menores.  Depois de ver todos os pacientes, nos reunimos com a equipe do Ministério da Saúde para formar um plano abrangente: transferir os pacientes restantes com necessidades cirúrgicas dos hospitais menores para um dos dois centros de atendimento terciário, com MSF oferecendo suporte extra de enfermagem e financeiro e assistência médica para que todos os pacientes recebam atendimento gratuito. Também planejamos uma segunda parceria com o Centro Médico Federal para ajudar a apoiar seus cuidados – já eficientes – com capacidade extra de prevenção e controle de enfermidades e infecções.  

À medida que os detalhes do plano geral foram finalizados, todos trabalhavam juntos, pois a resposta tornou-se a prioridade da equipe nigeriana de MSF. Chegou ajuda dos outros projetos de MSF na forma de recursos humanos e suprimentos. Um esforço conjunto de renovação foi acelerado para concluir a construção das novas enfermarias, a nova sala de operações e melhorias nas estruturas de água e saneamento. As equipes trabalharam incansavelmente para colocar a infraestrutura e os processos em funcionamento. Ao final de nossa estada de duas semanas, alguns pacientes estavam recebendo alta, enquanto outros estavam progredindo para dar seus primeiros passos, com um deles até tentando dançar com algum apoio do fisioterapeuta!

Depois de duas semanas, as novas enfermarias e a sala de cirurgia estavam quase prontas para abrir, nossa parceria estava em fase de finalização e tínhamos um plano que garantia que todos os pacientes afetados por esse desastre receberiam atendimento gratuito e de alta qualidade. Ao longo de tudo isso, a equipe local se adaptou a todas as circunstâncias necessárias: mudanças na estratégia, novas parcerias, novos desafios de infraestrutura e oferta de cuidados. Embora os desafios nesse tipo de cenário possam ser imprevisíveis, o compromisso da equipe de MSF na Nigéria é inabalável. Juntamente com parceiros locais, ela tem a elasticidade de responder a quaisquer desafios inesperados que surjam para garantir que nossos pacientes recebam o melhor atendimento possível.
 

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