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Níger: malária e desnutrição podem causar nova crise

26/04/2013
Doenças precisam ser combatidas simultaneamente para que prevenir combinação fatal

O número de crianças severamente desnutridas que se espera tratar na região do Sahel em 2013 chega a 1,4 milhão; uma em cada cinco crianças no Níger. A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) observou um aumento no número de casos de desnutrição em diversos dos projetos desenvolvidos no sul do país durante o primeiro trimestre do ano, se comparado com o mesmo período de 2012. O número de casos de malária tratados pela organização em algumas regiões também aumentou nas últimas semanas. Com a proximidade da estação das chuvas, e a previsão de picos de desnutrição e malária, MSF acredita que a abordagem integrada, voltada para tanto para a prevenção como para o tratamento, é essencial para reduzir o impacto da crise médica e nutricional em crianças com menos de cinco anos no Níger.


Um pico de malária longo e precoce em 2012 causou um grande aumento no número de crianças desnutridas internadas e tratadas devido à malária grave. Um estudo sobre a mortalidade em retrospectiva realizado por MSF nos distritos de Madaoua e Bouza, em 2012, revelou uma taxa de mortalidade de sete mortes a cada 100 mil crianças com menos de cinco anos por dia, o equivalente a três vezes o patamar de emergência. A malária foi a causa de mais da metade das mortes. Ainda que não seja possível extrapolar esses dados para todo o país, os resultados demonstram a gravidade da situação humanitária em algumas áreas.


A malária e a desnutrição estão intimamente relacionadas. Os meses do chamado “período de fome”, quando a desnutrição alcança seu pico, coincidem com a estação das chuvas, quando os mosquitos se reproduzem e o número de casos de malária dispara. As doenças combinam-se em um círculo vicioso: crianças desnutridas estão com seus sistemas imunológicos enfraquecidos e, por isso, seus corpos têm menos capacidade de combater doenças como a malária; crianças infectadas com malária, por sua vez, são mais vulneráveis a se tornarem perigosamente desnutridas.


“Uma ação urgente é necessária para impedir que crianças continuem sendo vítimas de doenças que podem ser prevenidas”, afirma Luis Encinas, coordenador do programa de MSF no Níger. “Para combater a desnutrição e a malária, precisamos de abordagens inovadoras e trabalhar, simultaneamente, em duas frentes: prevenção e tratamento.”


Nos últimos anos, modelos de atuação para combater a desnutrição foram alterados, de forma a incluir a prevenção como elemento chave. MSF acredita que é essencial fazer o mesmo para a malária, implementando novas estratégias que já tenham se mostrado efetivas.


MSF planeja implementar uma nova estratégia em algumas regiões do Níger, conhecida como quimioprofilaxia para tratar a malária sazonal (SMC), na qual crianças recebem o tratamento completo antimalária nos intervalos da fase de pico da doença.  MSF implementou essa estratégia com sucesso no Chade e no Mali em 2012, conseguindo uma redução de 66% do número de casos simples de malária no Mali e de 78% no Chade.
 
Para MSF, estratégias de prevenção são cruciais, mas, ao mesmo tempo, precisam ser parte de um plano mais ambicioso que trate a desnutrição e a malária como problemas de saúde pública. Prevenção e tratamento precisam ser incluídos no pacote de medidas básicas de saúde voltado para crianças pequenas, como imunização, recebendo suporte nutricional com suplementos, para que as crianças cresçam fortes e saudáveis. É necessário, também, melhorar o acesso da população a cuidados de saúde por meio da descentralização dos serviços para regiões rurais. No distrito de Marandoufa, MSF já está desenvolvendo um programa com essa abordagem integrada para reduzir a mortalidade infantil.


“O esforço que está sendo feito para tratar a desnutrição no Níger é enorme e a estratégia precisa ser apoiada”, afirma José Antonio Bastos, presidente de MSF na Espanha. “O problema em 2012 foi que uma estratégia massiva para tratar a desnutrição foi elaborada e implementada, mas excluiu outras necessidades de saúde, principalmente a prevenção da malária e imunizações. Falhou ao desconsiderar o fato de que mesmo que você ofereça às crianças uma nutrição adequada, você ainda pode perdê-las para a malária ou para uma infecção respiratória. Existe uma necessidade de resposta integrada, ao invés de investimento em uma resposta que exclua as demais.”


A situação de segurança no Níger, que piorou durante 2012 e no início de 2013 devido a conflitos na região, pode prejudicar a oferta de ajuda humanitária no país; por isso, é essencial que estratégias alternativas, e que possam ser implementadas, sejam estruturadas antecipadamente mesmo diante das condições mais difíceis.


Para combater essa emergência crônica, MSF conduziu, em 2012, uma série de atividades no Níger, com o objetivo de melhorar o acesso de crianças com menos de cinco anos e gestantes a cuidados de saúde. Equipes médicas nas regiões de Zinder, Maradi e Tahoua administram programas ambulatoriais de nutrição em cerca de 37 centros de saúde. Pacientes severamente desnutridos que precisam de cuidados médicos foram internados em centros de nutrição nos hospitais de Zinder, Magaria, Madarounfa, Guidan Roumdji, Madoua e Bouza. Em 2012, mais de 90 mil crianças com desnutrição aguda e 390 mil com malária foram tratadas nas instalações médicas administradas por MSF e seus parceiros.

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