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Níger: equipes de MSF são forçadas a deixar Maïné Soroa, na região de Diffa

09/08/2019
Depois de dois anos de atividades, ataques violentos colocaram nossos profissionais em perigo
Níger: equipes de MSF são forçadas a deixar Maïné Soroa, na região de Diffa

Foto: MSF/Alexander Wade

Três meses após um violento ataque por agressores desconhecidos em Maïné Soroa, na região de Diffa, no sudeste do Níger, a organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi forçada a deixar de oferecer assistência médica e humanitária para pessoas na região. MSF trabalhava em Maïné Soroa desde 2017 e na região de Diffa desde 2015. O coordenador-geral de MSF no Níger, Abdoul-Aziz O. Mohammed, explica as razões por trás dessa difícil decisão, as origens de nossa atuação na área e os resultados obtidos até agora.

Por que MSF começou a trabalhar em Maïné Soroa?   
“Nos últimos cinco anos, o conflito no nordeste da Nigéria se espalhou para a bacia do Lago Chade, atingindo a região de Diffa, no sudeste do Níger, com força total.

Os confrontos armados foram seguidos por violência contra civis, fazendo com que as pessoas fossem deslocadas de suas casas em grande escala: mais de 250 mil refugiados, deslocados e repatriados estão atualmente vivendo na região de Diffa. E não é só o conflito – o banditismo, com sequestros e roubos, também é um problema crescente.

Em 2017, mais de 250 mil pessoas desenraizadas viviam em abrigos e acampamentos improvisados ou permaneciam com famílias locais. As capacidades locais estavam sobrecarregadas e não podiam atender às necessidades das pessoas por comida, água, abrigo e assistência médica.

A situação de saúde era particularmente catastrófica no distrito de Maïné Soroa, 60 km ao sul da cidade de Diffa. As instalações médicas tinham recursos, suprimentos médicos e profissionais insuficientes. Os pacientes tinham que pagar por consultas e tratamento – o que a maioria deles não conseguia fazer.

Enquanto isso, o outro lado da fronteira, no estado de Yobe, na Nigéria, era um deserto de saúde. Milhares de pessoas, incluindo médicos e enfermeiros, haviam fugido da região, de modo que as unidades de saúde não estavam mais funcionando. Nenhuma organização humanitária havia atuado para oferecer cuidados às pessoas que ainda vivem lá.

É por isso que decidimos estender nosso trabalho na região de Diffa com um novo projeto transfronteiriço baseado em Maïné Soroa, que começou em julho de 2017. Nosso objetivo era atender às necessidades médicas das pessoas que vivem nos dois lados da fronteira, no Níger e na Nigéria, com um foco particular na mortalidade infantil e materna – um problema crônico na região, agravado pela atual insegurança.”

Que assistência médica MSF prestava em Maïné Soroa?
“Nos últimos dois anos, oferecemos atividades médicas em vários níveis.

No hospital distrital de Maïné Soroa, trabalhamos em conjunto com o Ministério da Saúde Pública do Níger para apoiar a sala de emergência, a ala pediátrica e os serviços de medicina interna, bem como o tratamento de crianças com desnutrição aguda grave e complicações. Ao todo, nossas equipes cuidaram de mais de 10 mil pacientes e mais de 3 mil foram hospitalizados.

Gradualmente, expandimos nosso trabalho para 12 áreas de saúde no Níger e na Nigéria, oferecendo cuidados básicos de saúde e cuidados de saúde materna por meio de clínicas móveis e encaminhando pacientes que precisavam de atendimento especializado para o hospital em Maïné Soroa. Além disso, mantínhamos clínicas móveis nos vilarejos de Tam, Boudoum, Maalam Boulamari, Chiri, Ambouramali, Mguelbéli e Foulatari, no Níger, e Dekwa, Deguel Toura, Boultwa e Marari, no lado nigeriano da fronteira. Ao todo, nossas equipes realizaram 134.601 consultas médicas gerais, 1.571 consultas pré-natais, e assistiram 126 partos.  

Ao mesmo tempo, nossas equipes ofereciam consultas médicas semanais e cuidavam das comunidades nômades enquanto elas se moviam pela região, pastando seu gado ou vendendo seus produtos, porque percebemos que essas comunidades raramente visitavam instalações médicas e queríamos impedi-las de esperar até que um membro de sua comunidade ficasse gravemente doente para procurar atendimento, quando geralmente é tarde demais para salvá-lo.  

Uma grande parte de nossos esforços foi concentrada na prevenção e na gestão de doenças no nível comunitário, com a ajuda de cerca de 30 agentes comunitários de saúde no Níger e cerca de 15 na Nigéria. Nós os treinamos no manejo de doenças simples, como malária e diarreia, e lhes dávamos remédios duas vezes por mês. Eles nos informavam semanalmente sobre o número de pacientes que haviam atendido e sobre quaisquer desafios que enfrentavam, para que pudéssemos oferecer a eles o apoio correto.”  

Por que MSF está deixando Maïné Soroa?
“Em 26 de abril de 2019, homens armados não identificados atacaram nosso escritório em Maïné Soroa. Um membro da equipe ficou levemente ferido, quatro veículos foram incendiados e as instalações foram danificadas. Nós suspendemos temporariamente algumas de nossas atividades enquanto analisamos a situação.

Não conseguimos determinar claramente quem estava por trás desse ataque nem como impedir que isso acontecesse novamente, com o risco de ainda mais consequências críticas para nossas equipes. Concluímos que não há condições para que MSF continue trabalhando na área.

Nos meses depois do ataque, a situação de segurança piorou. Em 15 de junho, um agente humanitário do Comitê Internacional de Resgate e o motorista de seu carro alugado foram mortos no vilarejo de Tcholori, a cerca de 15 km de Maïné Soroa.

Nossa decisão de fechar nosso projeto em Maïné Soroa não foi fácil. Sabemos que isso terá um impacto sobre as pessoas que não têm nenhum outro acesso aos serviços de saúde gratuitos e que isso acontece em um momento particularmente crítico para as crianças, à medida que o pico sazonal da malária está começando. Infelizmente, não temos escolha. Não podemos colocar em risco a vida dos membros de nossa equipe.

Entregamos suprimentos médicos ao Ministério da Saúde Pública e MSF continuará a oferecer assistência médica gratuita em outras áreas da região de Diffa. Nossas equipes ainda estão trabalhando nas cidades de Diffa e Nguigmi, apoiando dois hospitais distritais e vários centros de saúde. Também manteremos nas áreas adjacentes clínicas móveis e distribuições de itens de primeira necessidade, incluindo utensílios de cozinha, mosquiteiros e cobertores.”



MSF trabalhou pela primeira vez no Níger em 1985 e atualmente desenvolve projetos médicos e humanitários em seis regiões do país em apoio ao Ministério da Saúde Pública. O foco de MSF é reduzir a mortalidade infantil e materna; assistir refugiados, deslocados internos, repatriados, comunidades de acolhimento e migrantes; e responder a epidemias como cólera, sarampo e meningite.

 

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