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Níger: “Eles precisam de um lugar para se estabelecerem em paz e recuperarem sua dignidade”

12/06/2015
Profissional de MSF em Diffa fala sobre a situação das pessoas que fugiram do Lago Chade

Foto: MSF

Abaixo, uma entrevista com Aissami Abdou, coordenador do projeto de MSF em Diffa, no sudeste do Níger, sobre a situação de milhares de pessoas que fugiram do Lago Chade no começo de maio.

Como está a situação atual da população que fugiu do Lago Chade?

A situação é crítica; a maioria deles está abrigada em torno de dois acampamentos, um em Bosso e outro em Nguigmi, duas cidades localizadas perto do Lago. Alguns deles ainda estão ao redor de alguns outros vilarejos, que não ficam muito longe do Lago. Eles saíram das ilhas depois da ordem de evacuação das autoridades, após um ataque violento do grupo Boko Haram na ilha de Karamga, em 25 de abril, onde muitos soldados nigerinos foram mortos e alguns foram dados como desaparecidos. Então, eles se estabeleceram em locais aleatórios o mais rápido que puderam para salvar suas vidas e não tiveram tempo para se preparar para nada.

De acordo com os números divulgados pelas autoridades regionais, aproximadamente 11.200 pessoas chegaram a Nguigmi, enquanto 13 mil chegaram a Bosso, vindas das ilhas, nas primeiras semanas de maio. Além disso, cerca de 15 mil pessoas foram enviadas à cidade de Gaidam, no norte da Nigéria, por meio de um campo de trânsito em Diffa.

O que MSF está fazendo para ajudar essa população?

MSF iniciou suas atividades médicas nos primeiros dias após o deslocamento da população, além das atividades que já exercia na região. Atualmente, temos uma equipe no campo de Kimegana (em Nguigmi) e uma outra equipe no campo de Yebbi (Bosso), oferecendo consultas médicas para todos, dando prioridade às crianças com menos de cinco anos e mulheres.

Também continuamos apoiando o centro de referência regional para mulheres e crianças em Diffa, e os centros de saúde em Gerskerou, Ngarwa e Nguigmi, em colaboração com o Ministério da Saúde. Estamos planejando começar a oferecer um novo apoio, em breve, para dois centros de saúde adicionais em Baroua e Toumour, dois locais no distrito de Bosso.

O governo está planejando realocar a população deslocada. Por exemplo, aqueles no campo de Kimegana estão sendo transferidos para Kablewa, já que o local atual é muito perto da hidrovia do rio. Portanto, vamos adaptar nossa intervenção para continuar prestando assistência a essa população.

Quais são as principais necessidades dessa população?

As principais necessidades são abrigo, água, saneamento, saúde e proteção. No entanto, ainda há poucas organizações trabalhando na região e a maioria delas continua ao redor de Diffa e Nguigmi, onde a situação é menos crítica em termos de acesso e segurança.

Em Bosso, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) está, atualmente, conduzindo uma distribuição de alimentos e itens não alimentares à população deslocada em Yebbi. Porém, MSF é a única ONG com uma presença operacional diária no acampamento, com uma equipe estruturada ali para oferecer acesso constante em cuidados de saúde primária. Nós encaminhamos muitos pacientes para Bosso e Diffa todos os dias para salvar suas vidas.

Qual é o perfil dessas pessoas que fogem do Lago Chade?

Muitos deslocados são da Nigéria e do Níger, embora também tenha, nas ilhas, pessoas de outras nacionalidades, como Chade, Camarões e Mali.

A maioria dos pacientes que recebemos no centro de saúde estão traumatizados pela violência de longa data do Boko Haram. Alguns deles se mudaram muitas vezes da Nigéria para o Chade e o Níger. Muitos vieram de regiões de Malanfatori, Damasak e Baga, antes do atual deslocamento das ilhas.

Alguns deles perderam membros de suas famílias e seus pertences. Eles só precisam de um lugar para se estabelecerem em paz e recuperarem sua dignidade e o acesso a serviços sociais básicos.

Quais são os desafios de prestar assistência a essa população?

Um dos maiores desafios é a segurança; a zona é próxima do Lago Chade, onde as forças multinacionais estão conduzindo operações militares contra o Boko Haram. Outro desafio é o acesso; a zona é arenosa, e, embora seja muito calor hoje em dia – a temperatura fica facilmente acima dos 45º e você precisa beber líquidos o dia inteiro – a estação chuvosa começará em breve e, quando o rio Komagougou começar a transbordar, haverá muita lama na estrada.

Quais são as principais preocupações para o futuro?

Nós estamos muito preocupados com as próximas semanas e meses, porque espera-se que chova em breve e, com a população deslocada defecando a céu aberto devido às instalações sanitárias insuficientes, talvez não sejamos poupados da cólera. Há uma escassez de água no acampamento, e, atualmente, a população deslocada tem acesso muito limitado a proteção. Além disso, com o conflito contra o Boko Haram e o terrorismo, há uma necessidade de manter olhos abertos sobre questões de direitos humanos.

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