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Níger: 63 mil crianças com desnutrição severa tratadas no último ano

15/02/2006
MSF faz um balanço da operação nutricional em Níger, a maior da história da organização, e alerta o governo, os doadores internacionais e a ONU para que intensifiquem as ações no sentido de evitar que a tragédia se repita em 2006

Em 2005, as equipes de MSF em Níger atenderam mais de 63 mil crianças menores de cinco anos com desnutrição severa em cinco regiões do país. Esta foi a maior operação nutricional já realizada por MSF.

Desde 2001, MSF vem percebendo um aumento sistemático no número de crianças atendidas nos projetos de nutrição terapêutica em Níger. Em Maradi, uma das regiões do país mais afetadas pela desnutrição, foram 5.200 crianças em 2002, 6.700 em 2003, 9.700 em 2004 e surpreendentemente mais de 39.000 em 2005. Diante disso, MSF conclui que Níger enfrenta uma emergência nutricional crônica, com picos de atendimento que variam de acordo com a época do ano (o maior número de admissões observado foi entre junho e setembro, pouco antes do início da colheita); e que a resposta internacional a esta emergência foi inadequada devido ao levantamento inadequado da situação e de escolhas de políticas inadequadas.

Diante dessa situação, o que podemos esperar para as crianças em Níger em 2006? As várias instituições que levam ajuda humanitária ao Níger (governo, doadores internacionais e agências da ONU) têm que tomar uma decisão política: tratar ou não as crianças que sofrem de desnutrição severa? Não se pode mais evitar essa questão com o argumento de que não há uma solução a curto prazo. Pelo menos duas medidas precisam ser implementadas urgentemente: tratar a desnutrição severa com alimentos terapêuticos efetivos, simples e fáceis de usar, e tornar os alimentos que atendem as necessidades nutricionais das crianças disponíveis às suas famílias.

Em Maradi e em Zinder, as regiões mais afetadas pela desnutrição severa e onde MSF escolheu centralizar suas ações em 2006, o impacto da desnutrição na população é assustador. No departamento de Guidam Roumjdi onde há 93.226 crianças com menos de cinco anos de idade, 10.223 foram tratadas por MSF em 2005 com desnutrição severa, o que representa 11% das crianças deste departamento. A grande maioria delas com menos de 30 meses (2 anos e meio) de vida.

Em 2006, MSF permanece nas regiões de Maradi e Zinder com unidades de internação para tratar crianças com desnutrição severa que apresentarem complicações de saúde, e com programas ambulatoriais de nutrição terapêutica para as crianças com desnutrição severa sem complicações de saúde.

Avaliações equivocadas e respostas inadequadas

Embora o sistema de alerta antecipado tenha sido soado no início de outubro de 2004, indicando que uma crise nutricional estava por vir e, apesar de já no início de 2005 muitas famílias estarem sofrendo com a falta de alimentos, até junho de 2005 doadores internacionais e agências da ONU apoiaram a decisão do governo de Níger de cobrar pelos alimentos distribuídos, sob alegação de que a ajuda gratuita poderia levar à instabilidade do mercado, à dependência da população, evitando que medidas fossem tomadas a longo prazo. No entanto, quando a emergência foi reconhecida, a safra insatisfatória - provocada pela seca e pela infestação de gafanhotos - foi apontada como responsável pela fome.

Além disso, a distribuição de alimentos feita pela Programa Alimentar Mundial da ONU não incluiu alimentação especializada (farinha enriquecida), adaptada às necessidades nutricionais das crianças mais novas.

Tratando a desnutrição severa

A estratégia de nutrição terapêutica de MSF vem mudando nos últimos anos, especialmente em 2005. Com a mesma quantidade de recursos, MSF está sendo capaz de tratar muito mais crianças hoje do que no passado. Isto foi possível graças às inovações médicas e à implementação de programas ambulatoriais.

Em 2005, apenas 15% das crianças que deram entrada nos projetos de MSF foram hospitalizadas. Aquelas sem apetite ou que sofrem de doenças permaneceram sob supervisão médica nos centros de nutrição. Todas as outras foram tratadas em casa, sob a supervisão dos pais. Elas recebiam cuidados sistemáticos de saúde e uma visita por semana das equipes de saúde de MSF, quando recebiam alimentação terapêutica para os sete dias seguintes.

Os resultados provam que esta estratégia permite que mais crianças se recuperem mais rapidamente e permaneçam saudáveis por mais tempo. Em 2005, das 39 mil crianças tratadas nos projetos de MSF em Maradi, 91,3% foram curadas e receberam alta, 3,3% morreram e 4,7% suspenderam o tratamento antes de serem liberadas. Em 2001, quando todas as crianças eram hospitalizadas, o índice de cura foi de 58,3% e de mortes foi de 6,8%.

Presença de MSF em Níger

· Durante o ano de 2005, 1.740 profissionais de ajuda humanitária de MSF trabalharam em cinco regiões do país (Maradi, Tahoua, Zinder, Diffa e Tillaberi). Desses, 140 eram profissionais estrangeiros e 1.600 profissionais locais.
· MSF mantém 10 centros de nutrição intensiva com capacidade para hospitalização de crianças, 50 centros ambulatoriais e 2 unidades pediátricas.
· 13 mil toneladas foi a quantidade de alimentos distribuída por MSF durante o ano de 2005 em todo o país, de forma gratuita.
· 63 mil crianças com menos de cinco anos de idade que sofriam de desnutrição severa foram tratadas por MSF.