Nenhum lugar é seguro para mulheres e meninas em Darfur, no Sudão, aponta relatório de MSF

Documento denuncia violência sexual sistemática, dentro e fora das zonas de conflito

Sobrevivente de violência sexual, de 22 anos, atendida por MSF após fugir da violência em Darfur do Norte, no Sudão.
Sobrevivente de violência sexual, de 22 anos, atendida por MSF após fugir da violência em Darfur do Norte, no Sudão. ©Cindy Gonzalez/MSF

Mulheres e meninas em Darfur, no Sudão, exigem proteção, atendimento médico e justiça à medida que a violência sexual persiste em toda a região, tanto em áreas de conflito ativo quanto muito além da linha de frente dos combates, segundo um novo relatório divulgado hoje (31/03) por Médicos Sem Fronteiras (MSF).

O relatório “Há algo que eu quero te contar”: sobrevivendo à crise de violência sexual em Darfur reúne os relatos mais abrangentes já documentados sobre violência sexual na guerra do Sudão, com depoimentos de sobreviventes e dados das atividades médicas de MSF, que evidenciam claros padrões de abuso generalizado e sistemático.

Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, pelo menos 3.396 sobreviventes de violência sexual buscaram tratamento em unidades de saúde apoiadas por MSF em Darfur do Norte e do Sul. A organização alerta, porém, que este número representa apenas uma fração dos casos e da escala real, uma vez que muitas sobreviventes não conseguem chegar aos serviços de saúde com segurança. Mulheres e meninas representaram 97% das sobreviventes atendidas nos projetos de MSF.

A violência sexual é uma característica definidora deste conflito — não restrita às zonas de combate, mas sim disseminada por comunidades inteiras.”

– Ruth Kauffman, coordenadora de emergência de MSF.

“Esta guerra está sendo travada às custas dos corpos e das vidas das mulheres e meninas. Deslocamento, colapso das redes comunitárias de apoio, falta de acesso a cuidados de saúde e desigualdades de gênero profundamente enraizadas permitem que esses abusos continuem por todo o Sudão”, aponta Ruth Kauffman, coordenadora de emergência de MSF.

Testemunhos de sobreviventes e dados médicos de MSF mostram que soldados das Forças de Apoio Rápido (RSF – sigla em inglês) e milícias aliadas são responsáveis por atos generalizados e sistemáticos de violência sexual contra mulheres.

Após a captura de El Fasher, capital de Darfur do Norte, pelas RSF em 26 de outubro de 2025, MSF tratou mais de 140 sobreviventes que fugiram da cidade para Tawila em novembro, 94% das quais haviam sido atacadas por homens armados, muitas relatando agressões ao longo das rotas de fuga. Os ataques eram generalizados, frequentemente perpetrados por múltiplos homens na frente de familiares das vítimas como forma de humilhação e terror, e tinham como alvo deliberado as comunidades não árabes, ecoando as atrocidades anteriormente cometidas pelas RSF, como a destruição do acampamento para deslocados de Zamzam.

Em apenas um mês, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, MSF identificou mais de 732 sobreviventes em acampamentos de deslocados ao redor de Tawila, onde mulheres relataram ataques durante seus deslocamentos e, até mesmo, dentro dos próprios acampamentos. Abrigos superlotados, ausência de segurança básica e condições inseguras — incluindo pontos de coleta de água distantes, áreas de banho expostas e latrinas insuficientes — aumentaram ainda mais a vulnerabilidade dessas mulheres.

 

Ataques generalizados

As sobreviventes descreveram ataques não apenas durante confrontos, mas também em situações cotidianas — em estradas usadas para fugir da violência, em campos agrícolas onde famílias cultivam alimentos e em mercados e acampamentos para pessoas deslocadas — demonstrando como a violência sexual se estende muito além das zonas de combate.

Em Darfur do Sul, a centenas de quilômetros dos confrontos terrestres ativos, 34% das sobreviventes foram agredidas enquanto trabalhavam no campo ou se deslocavam para áreas agrícolas, e 22% enquanto coletavam lenha, água ou alimentos — indicando que a violência também ocorre durante atividades diárias.

Crianças também estão entre as sobreviventes: em Darfur do Sul, uma em cada cinco era menor de 18 anos, incluindo 41 crianças com menos de cinco anos.

 

Violência sexual perpetrada por grupos armados

Os dados de MSF também apontam para padrões de abuso sistemático: homens armados foram responsáveis por mais de 95% dos ataques em Darfur do Norte, enquanto quase 60% dos casos no Sul envolveram múltiplos perpetradores.

Uma sobrevivente descreveu a violência que sofreu ao fugir de casa: “Eles nos levaram para uma área aberta. O primeiro homem me estuprou duas vezes, o segundo uma vez, o terceiro quatro vezes. Além dos estupros, eles nos bateram com paus e apontaram armas para a minha cabeça.”

Para muitas, a ameaça de violência já se tornou parte da rotina: “Todos os dias, quando as pessoas vão ao mercado, há casos de estupro. Quando vamos para a fazenda, isso acontece”, disse uma mulher de 40 anos em Darfur do Sul.

 

Violência sexual usada como arma de guerra

As sobreviventes também enfrentam barreiras significativas no acesso a cuidados médicos — incluindo a insegurança, estigma e as limitações dos serviços de proteção.

MSF afirma que a violência sexual está sendo usada como arma de guerra e como instrumento sistemático de controle da população civil, em violação ao direito humanitário internacional.

Líderes comunitários, obstetrizes, ativistas e sobreviventes em grupos focais organizados por MSF pediram o fim imediato da violência sexual em todo o Sudão, exigindo proteção, acesso a cuidados médicos e dignidade — juntamente com justiça e responsabilização pelos crimes cometidos.

MSF pede a todas as partes envolvidas no conflito — incluindo as RSF e seus aliados — a interromper e prevenir a violência sexual e responsabilizar os perpetradores. A organização também solicita às Nações Unidas, aos doadores e aos atores humanitários que ampliem urgentemente os serviços de saúde e proteção em Darfur e em todo o Sudão.

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