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Não tratar portadores do vírus da Aids imediatamente é crime

11/07/2002
Novos dados reavaliam a possibilidade de tratamento a base de anti-retroviral em locais cujas instalações são precárias. Governos ainda se recusam a investir em medicamentos que poderiam estender a vida de portadores do vírus.

Na XIX Conferência Internacional de Aids, que acontece de 7 a 12 de julho em Barcelona, as organizações Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Health GAP acusaram os países desenvolvidos de negligência intencional em relação aos pacientes de Aids. Ativistas apontaram o fracasso da maioria dos governos em baixar os preços de medicamentos anti-retrovirais (ARVs), atitude esta que está condenando milhões de pessoas à morte.

“Se eu, como médico, não prestar assistência a uma pessoa que está precisando de cuidados, eu posso ser indiciado por crime”, disse Morten Rostrup, presidente do Conselho Internacional de MSF. “Hoje e todos os dias, mais de 8 mil pessoas morrem de Aids. Mesmo assim, a comunidade internacional recusa-se a patrocinar uma resposta global à altura do problema – nós estamos presenciando nada menos do que um crime contra a humanidade”.

Na Conferência, as discussões giraram, inicialmente, em torno do que seria mais eficaz, prevenção ou tratamento, sendo que o necessário é que se implemente as duas coisas ao mesmo tempo. Este debate poderia ser evitado se houvesse mais recursos disponíveis para lidar com a doença e se tais recursos fossem destinados à compra de medicamentos mais baratos. Sem a competição de genéricos e a compra de medicamentos em grande escala, alguns países continuarão a pagar 3 vezes mais do que o necessário pelos coquetéis ARVs.

“A recusa dos EUA, da União Européia e de outros governos doadores em destinar recursos para medicamentos mais baratos já condenou milhões de pessoas à morte”, disse Alan Berkman, membro fundador da Health GAP. “A possibilidade de tratamento nunca foi tão certa. Mas enquanto os países ricos se recusarem a pagar, esta possibilidade não importa. Os doadores devem ser responsáveis pela sua negligência”.

Na conferência, MSF apresentou os resultados de 7 projetos pilotos – na África do Sul, Malawi, Camarões, Quênia, Camboja, Tailândia e Guatemala – que mostram que propiciar tratamento a pacientes tem efeitos altamente benéficos. Os pacientes iniciam os programas em estado avançado da doença e são tratados em diversos centros de saúde, inclusive em clínicas localizadas em áreas pobres, rurais e cujas instalações são precárias. A probabilidade de sobrevivência para os 743 pacientes acompanhados pelo período de 6 meses foi estimada em 93%. A adesão dos pacientes ao tratamento também foi alta: 95% dos pacientes conseguiram seguir o tratamento da forma correta dentro do período de 6 meses.

MSF também participou da conferência satélite organizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) na última segunda-feira, dia 8. Esta conferência reuniu representantes da indústria farmacêutica – como a Merck Sharp & Dohme –, ONUSIDA (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids), ACT UP (de Paris), MSF, um representante da AAI (Accelerated Access Initiative) e outro de FarManguinhos, e o Banco Mundial.

15 mil pessoas participam da XIX Conferência Internacional de Aids.

Michel Lotrowska, representante da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de MSF no Brasil, participa da Conferência Internacional de Aids e nos escreve de Barcelona.