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“Não posso ficar de lado, assistindo meu povo morrer”

18/09/2014
O médico Jackson K.P. Naimah, de MSF, faz apelo à comunidade internacional durante sessão do Conselho de Segurança das Nações Unidas

Gostaria de agradecer à Embaixadora Samantha Power pelo convite feito à organização Médicos Sem Fronteiras, para fazer um apelo às nações aqui reunidas que podem ajudar meu povo, meu país e minha região.

Sinto-me honrado por representar MSF. Nós valorizamos o plano de resposta ao Ebola anunciado pelo Presidente Obama e torcemos para que sua implementação seja imediata. Nós também pedimos que todos os Estados-membros das Nações Unidas atuem de forma similar, a fim de mobilizar suas capacidades. A cada dia que passa, a epidemia se espalha e destrói mais vidas.

A primeira vez que soube de casos de Ebola foi em março. Logo depois disso, a doença chegou a Monróvia. Desde então, as pessoas começaram a morrer.

Minha sobrinha, Francila Kollie, e meu primo, Jounpu Lowea, ambos enfermeiros, foram infectados trabalhando. Mesmo que tenham recebido tratamento, eles morreram no final de julho. Muitos dos meus amigos próximos, colegas de universidade e colegas de profissão também morreram nos últimos meses.

Como eu tenho experiência médica, senti que era minha responsabilidade ajudar meu país.

Sou líder de equipe no centro de tratamento de MSF em Monróvia. Trabalhei na triagem, avaliando pacientes antes de sua admissão, na tenda dos casos suspeitos e com pacientes com Ebola confirmado. Devido ao fato de não haver cura, nós oferecemos cuidados de suporte aos pacientes, na forma de alimentação, hidratação e tratamento básico dos sintomas. Se tratados o quanto antes, as chances de sobrevivência são muito maiores.

Não posso ficar de lado, assistindo meu povo morrer. Mas eu, assim como meus colegas daqui, não posso combater o Ebola sozinho.

Vocês, a comunidade internacional, precisam nos ajudar.

Gostaria de ilustrar a batalha que enfrentamos.

Vimos muitos pacientes morrerem. E eles morrem sozinhos, aterrorizados, e sem seus entes queridos a seu lado. Como médico, é preciso ter uma maneira diferente de lidar com isso. Quando entro no centro de tratamento, mantenho meu foco nas necessidades dos pacientes. Tentamos atender, primeiramente, aqueles que estão mais fracos, aqueles que precisam de mais ajuda para comer e beber, ou aqueles que precisam falar com um de nossos conselheiros porque estão muito traumatizados e com medo.

Estamos tentando tratar tantas pessoas quantas possível, mas não há centros de tratamento suficientes nem leitos. Temos de recusar pessoas. E elas estão morrendo em nossa porta de entrada.

Neste exato momento, enquanto falo, as pessoas estão sentadas na entrada de nossos centros, literalmente implorando por suas vidas. Com razão, elas se sentem sozinhas, negligenciadas, negadas. Largadas para morrer de forma horrível, sem dignidade.

Estamos fracassando com os doentes porque não há ajuda suficiente em campo. E estamos fracassando com aqueles que irão, inevitavelmente, se tornar infectados, porque não podemos cuidar dos doentes de forma adequada, proteger os ambientes e prevenir a proliferação do vírus.

Um dia desta semana, sentei do lado de fora do centro de tratamento enquanto almoçava. Vi um garoto se aproximar do portão. Há uma semana, seu pai havia morrido de Ebola. Eu pude ver que sua boca estava avermelhada, com sangue. Não tínhamos espaço para ele. Quando ele se virou para andar rumo à cidade, pensei: esse garoto vai pegar um taxi, vai para casa encontrar sua família e vai infectá-los.

Durante meu turno noturno esta semana, vi um paciente que havia permanecido 12 horas em uma ambulância porque não havia outro centro de tratamento.

Nós precisamos urgentemente controlar essa doença, e precisamos da sua ajuda.

Precisamos daquilo que é chamado de rastreamento de contatos, para monitorar cada pessoa que esteve em contato com alguém que foi infectado pelo Ebola ou morreu por causa do vírus. Precisamos conscientizar as pessoas sobre a doença, porque tem havido tanta negação, mesmo agora, e apesar da atenção internacional.

Precisamos de mais centros de tratamento, para que todos possam ter um leito e não tenham que ficar em suas casas, correndo o risco de infectarem suas famílias. Precisamos treinar nosso pessoal médico acerca dos procedimentos adequados para que eles possam manter os centros em funcionamento. Nós também precisamos fazer com que os serviços de saúde tornem-se operacionais, e garantir a segurança das equipes de saúde ao saírem para trabalhar. Temos visto muitos agentes de saúde e motoristas de ambulância chegarem aos nossos centros de tratamento como pacientes, enfrentando o mesmo destino.

Por isso, por favor, enviem seus helicópteros, suas instalações, seus leitos e seus profissionais especializados. Mas saibam que também precisamos do básico. Ainda há casas em Monróvia que não têm sabonete, água e baldes. Mesmo essas coisas simples podem ajudar a conter a proliferação do vírus.

O Ebola afetou todos os aspectos das nossas vidas. Escolas e universidades fecharam as portas, juntamente com serviços civis.

Sinto que o futuro do meu país está por um fio.

Minha esposa trabalha no hospital JFK aqui em Monróvia. Estamos educando nossos filhos para que possam se proteger, para que possam sobreviver. Como filhos de agentes de saúde, eles podem ser um exemplo para aqueles com quem convivem.

Peço também que vocês sejam o exemplo para os seus semelhantes, como nações com recursos e habilidades necessárias para conter essa catástrofe.

Nós não temos a capacidade de responder a essa crise sozinhos. Se a comunidade internacional não se manifestar, nós seremos dizimados.

Precisamos de sua ajuda. E precisamos agora.

Obrigado.