“Não havia tempo para processar, apenas para agir, para responder, para tentar ajudar a salvar suas vidas”

Safa Bleik, enfermeira de Médicos Sem Fronteiras no Líbano, relata o que viu em 8 de abril, quando forças israelenses atacaram o Líbano mais de 100 vezes em 10 minutos

Menos de 10 horas após o anúncio de um cessar-fogo regional, as forças israelenses realizaram um ataque em grande escala com vários ataques aéreos em todo o Líbano. © Jinane Saad

Na última quarta-feira, 8 de abril, as forças israelenses lançaram diversos ataques ao Líbano, horas após o anúncio de cessar-fogo regional no Oriente Médio. Em 10 minutos, foram cerca de 100 ataques, que deixaram centenas de mortos e feridos. Muitos atingiram áreas residenciais densamente povoadas e, mais uma vez, sem aviso prévio ou alerta – o que não minimiza ou justifica.

Safa Bleik, enfermeira de Médicos Sem Fronteiras (MSF) e assistente de coordenação médica no país, relata o que testemunhou durante seu trabalho no hospital público de Beirute, que recebeu um dos maiores fluxos de pacientes. 

Eu estava no Hospital Universitário Rafik Hariri para uma visita de rotina com o nosso médico de emergência quando bombardeio começou. Era um momento comumaté que deixou de ser. De repentefumaça branca e poeira envolveram o local. Por alguns minutosninguém entendeu o que estava acontecendoEntão, as ambulâncias começaram a chegarnão paravam mais.”

Os primeiros pacientes chegaram com ferimentos graves na cabeça, com fragmentos de vidro, metal e destroços alojados em seus corpos. Muitos estavam inconscientes. Alguns morreram logo após a chegada. Não havia tempo para processar, apenas para agir, para responder, para tentar ajudar a salvar suas vidas.

Em pouco tempo, a emergência ficou lotada de pessoas à procura de seus entes queridos: pais feridos chamando por seus filhos e famílias chegando com fotos das crianças, perguntando se alguém as havia visto — talvez ainda sob os escombros, talvez levados para outro lugar.

Eu tentava estancar o sangramento de um homem que havia chegado com traumatismo craniano grave e estilhaços no abdômen, quando um jovem se aproximou de mim segurando um celular, e me mostrou uma foto de seu irmão. Ele perguntou se eu o tinha visto. Eu não tinha uma resposta, mas procurei com ele, verificando salas e rostos, tentando encontrar seu irmão enquanto nosso médico de emergência ajudava a enfaixar feridas e estabilizar o paciente.

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As horas se passavam, mas pareciam anos. Os casos, muitos deles em estado crítico, não paravam de chegar. Em determinado momento, quase quatro horas após o início do bombardeio, cerca de vinte ambulâncias chegaram de uma só vez. Havia 50 pessoas dentro delas, todas já sem vida.

Conheci um jovem que não consigo esquecer. Ele perdeu as duas pernas, e havia um pedaço de escombro alojado em seu abdômen. Quase ainda consigo ouvir os gritos de seu irmão em meus ouvidos. Tentamos tudo o que podíamos para estabilizá-lo, para controlar o sangramento, para suturar, mas o perdemos.

A emergência estava sobrecarregada. Eu me vi correndo ao lado da equipe do hospital, passando de um paciente para o outro, de um corredor para outro, tentando acompanhar a enorme escala de necessidades com suprimentos médicos limitados.

Hospitais no Líbano atenderam um grande número de vítimas. ©MSF

Apesar de tudo, mais e mais médicos começaram a chegar. O sindicato dos médicos havia enviado um pedido de apoio a todos os hospitais, especialistas chegaram em ondas — cirurgiões, médicos — todos prontos para ajudar. Havia um incrível senso de solidariedade. Mas na emergência, os suprimentos disponíveis se esgotaram rapidamente, as macas estavam cheias e muitos pacientes chegavam em estado crítico ou já sem vida.

O que vimos naquele dia não foi apenas uma emergência médica. Foi o impacto direto dos ataques contra civis, áreas residenciais, famílias e crianças.

A equipe do hospital fez tudo o que podia, tanto aqui, em Beirute, quanto em todo o Líbano, enquanto outros hospitais enfrentavam também grandes fluxos de pessoas. Vi uma dedicação extraordinária no Hospital Rafiq Hariri, com profissionais se esforçando além do cansaço para cuidar dos outros. Mas a dedicação por si só não é suficiente em uma situação de grande número de vítimas.

Continuamos apoiando hospitais e respondendo às necessidades das pessoas durante a escalada da violência no Líbano. Apelamos para que civis, profissionais e instalações de saúde sejam protegidos em todos os momentos do conflito. E que a guerra não se torne uma rotina.

MSF lançou uma resposta de emergência em todo o país desde a escalada da violência em 2 de março de 2026. Nossas equipes estão apoiando hospitais, auxiliando na triagem, no fluxo de pacientes e no manejo de casos de traumas graves. MSF também doou combustível, kits para tratar feridos em massa, além de outros suprimentos para ajudar os hospitais a lidarem com o aumento repentino das necessidades. MSF continua sua resposta de emergência por meio de 20 clínicas móveis em todo o país, ao mesmo tempo em que amplia a distribuição de itens essenciais. Além disso, distribuímos água, realizamos atividades de saneamento e apoio em abrigos.

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