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MSF: “Testemunhamos um outubro cheio de sofrimento no mar”

04/11/2016
Depois de mais de 4.200 mortes no Mar Mediterrâneo somente neste ano, um recorde vergonhoso, a União Europeia não pode continuar ignorando e sendo cúmplice de uma tragédia de dimensões crescentes. Ela deve assumir a necessidade urgente de começar a oferec
MSF: “Testemunhamos um outubro cheio de sofrimento no mar”

Foto: Mohammad Ghannam/MSF

Nicholas Papachrysostomou, coordenador de projeto do navio de resgate Dignity I mantido pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), relembra os dois dias mais movimentados no mar durante outubro. Com as estatísticas do último mês, 2016 se tornou agora o ano mais mortal desde os primeiros registros em termos de casos de pessoas que procuram refúgio na Europa por essa rota marítima.

A bordo do Dignity I (Mar Mediterrâneo), 4 de novembro de 2016 – Naquele dia, não muito longe da costa da Líbia, o sol ainda não tinha nascido. O mar estava agitado. Eram 4:20 da manhã do dia 22 de outubro e já estávamos próximos do limite da capacidade do Dignity I após um dia muito intenso. Fomos chamados para um novo resgate de um bote de borracha que não estava muito longe de nós, então chegamos bem rápido com dois botes de borracha infláveis e semirrígidos, sem saber muito bem o que encontraríamos ali. O que vimos superou nossos piores pesadelos. Quando chegamos ao local, o barco levava dúzias de pessoas em pânico. Elas se sentiam solitárias na escuridão e na imensidão do mar. A vontade de ser salvo era tão grande que eles não podiam mais esperar, eles não escutavam. O grupo era uma mistura de pessoas que vinham da Libéria ao Mali, entre muitos outros lugares. Homens, mulheres e crianças carregavam consigo o fardo pesado do sofrimento.

Enfermeiras de MSF a bordo do Dignity I com joven malinês ferido (Foto: Mohammad Ghannam / MSF)Antes de decidirmos como reagir, as pessoas começaram a pular na água. Elas gritavam e se agarravam aos nossos botes infláveis. Começamos a trazê-las a bordo, mas quando outras pessoas viram isso, acharam que essa seria uma forma segura de sair, e mais pessoas começaram a pular na água. Em questão de minutos, havia uma multidão no mar e as equipes estavam trabalhando sem parar para trazer todos a bordo. Muitos deles estavam inconscientes, queimados ou quase afogados. Também iniciamos as evacuações médicas com a ajuda de uma lancha da guarda costeira italiana. Conforme isso acontecia, empurramos o barco à deriva para perto do Dignity I, e só então nos demos conta da magnitude da tragédia: havia nove mortos ali dentro. O bote quebrou por dentro, e crianças e mulheres que normalmente sentam no meio foram pisoteadas. Elas foram sufocadas enquanto nadavam em uma mistura de água do mar com combustível.

Um cemitério flutuante

Meus colegas amarraram o cemitério flutuante ao Dignity I, de modo que não o perdêssemos, e avisamos outras embarcações sobre a situação, para que os corpos pudessem ser recolhidos. O dia continuava cheio de outros eventos. Em cerca de oito horas, realizamos um total de oito resgates. Como não tínhamos espaço suficiente para todos, estávamos limitados a ceder coletes salva-vidas, garantindo segurança e encorajando as pessoas até que elas fossem recolhidas. Levamos apenas os mais vulneráveis a bordo mas, no último dos resgates, descobrimos que o barco estava danificado e que, nesse caso, faríamos uma exceção e traríamos todos os passageiros a bordo. Terminamos a operação com 668 pessoas no Dignity I: um grande número de pessoas que precisavam ser limpas do combustível que inundou o barco, alimentadas e, principalmente, receber informações sobre os entes queridos que haviam perdido.

Foi um momento muito duro para assimilarmos. Infelizmente, esse tipo de imagem se tornou tão habitual que parece difícil aumentar a consciência das pessoas sobre o sofrimento que os imigrantes estão passando. Para nós, essas foram as operações finais de outubro, que acabou sendo o mês mais terrível do ano, em parte por causa das condições climáticas deteriorantes, com ventos fortes e ondas grandes devido à breve aproximação do inverno. Até agora, 4.200 pessoas morreram ou desapareceram nas águas do Mediterrâneo em 2016. Isso é um recorde desde que as estatísticas começaram a ser registradas, e ainda há dois meses até o fim do ano. A tragédia poderia ter sido muito pior. Os três barcos de MSF (MV Aquarius, Bourbon Argos e Dignity I) resgataram aproximadamente 18 mil pessoas neste ano e cerca de 333 mil pessoas conseguiram chegar à Europa pelo mar. Cada uma dessas pessoas tem um rosto e uma história de sofrimento: algumas fugiram de guerras, outras enfrentaram diferentes tipos de discriminação, violência e perseguição ou escassez de recursos. A jornada de sofrimento começa em países longínquos como o Paquistão, onde o conflito se tornou algo crônico, até lugares no coração da África Subsaariana, como Nigéria, Eritreia ou Somália, passando pelo Oriente Médio, devastado por anos de tensão e instabilidade. Grande parte dessas pessoas fez uma parada tenebrosa na Líbia, onde, de acordo com entrevistas feitas com centenas de pessoas por nossas equipes médicas, muitos sofreram detenção, violência sexual ou tortura. Devemos insistir em dar nomes e rostos a essas pessoas. Contudo, devemos admitir que nem sempre conseguimos. Alguns deixam este mundo anonimamente, devorados pelo mar, e muitas vezes nos encontramos em uma situação desesperadora, sem resposta às perguntas feitas.

Mortos anônimos

Isso aconteceu conosco em 3 de outubro, outro dia que marcou o ápice de nossas atividades. Nesse dia, realizamos uma operação de resgate com a colaboração de um navio de guerra irlandês. Eles já estavam no local quando chegamos. Ao chegarmos, percebemos que algumas pessoas já estavam na água há algum tempo. Algumas delas tinham inalado combustível e bebido muita água do mar. Havia alguns casos críticos de afogamento iminente e em pouco tempo o nosso hospital ficou lotado. Uma grávida nigeriana de 34 anos faleceu depois da nossa tentativa frustrada de reanimá-la. Isso era apenas o começo. Enquanto a equipe médica tratava dezenas de pacientes com queimaduras e outros problemas, eu comecei a receber perguntas difíceis. Uma mãe me perguntou sobre o paradeiro de seus filhos, mas não havia mais nenhuma criança a bordo que pudesse ser sua filha. Eventualmente, o coordenador do navio irlandês nos disse que, em meio à movimentada operação de resgate, havia seis corpos na água que não puderam ser recuperados. Essas pessoas morreram anonimamente. Elas sequer foram registradas, já que os corpos foram levados pela correnteza do mar. Quando falei para a mãe sobre essa informação, ela desmoronou em minha frente. Ela havia tentado proteger seus dois filhos, mas o barco rachou e quebrou, e de repente ela se viu na água, impossibilitada de continuar segurando as crianças. Ela manteve a esperança de que seus filhos pudessem estar vivos em algum lugar. Mas eles não estavam, e tiveram o mesmo destino terrível que outros quatro adultos.   

Necessidade urgente de passagens seguras e legais

Ninguém merece morrer anonimamente no mar. Ninguém deveria sequer ser abandonado a ponto de arriscar a própria vida atravessando uma rota perigosa em botes frágeis com um destino premeditado. Não importa o quão grandes sejam os esforços de MSF ou outras organizações em atenuar essa tragédia, ela continuará se desenrolando para além de nosso alcance. Continuaremos encontrando situações que superam nossos piores pesadelos. A União Europeia (UE) e seus estados membros não podem continuar testemunhando e sendo cúmplices dessa situação. Eles devem reverter a política destinada a refugiados e imigrantes que chegam a suas fronteiras. Em vez de se concentrar em medidas de dissuasão e acordos externos, a Europa deveria investir muito mais em recepção de acordo com os padrões da EU e desenvolver uma abordagem voltada para responder às necessidades médicas, humanitárias e de proteção dos que chegam às suas fronteiras. A UE deve respeitar o direito das pessoas de procurar asilo e perceber que é urgente começar a instaurar mecanismos para chegadas seguras e legais.

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