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MSF reinicia atividades no Afeganistão

13/10/2009
Organização volta a trabalhar no país após cinco anos de ausência, oferecendo apoio ao Hospital do Distrito de Ahmed Shah Baba

Às 11h30m, a maioria dos pacientes no Hospital do Distrito de Ahmed Shah Baba, ao leste de Cabul, já foram examinados. Eles tendem a chegar de manhã bem cedo, fazem fila para as consultas e tratamento, e voltam para casa antes que o período mais quente do dia comece.

Antes das equipes pararem para almoçar, há apenas um paciente na sala de emergência, e duas grávidas na maternidade. Apenas a sala de vacinação e a sala de espera estão cheias de mulheres vestidas com burcas azuis e seus filhos. O registro mostra que a equipe já vacinou 150 crianças hoje.

Ahmed Shah Baba é um bairro enorme, que cresce rápido. Em 2004, quando Médicos Sem Fronteiras (MSF) parou de trabalhar aqui, a população era formada por cerca de 80 mil pessoas. Hoje, ninguém sabe ao certo, mas mesmo os comentaristas mais conservadores estimam que esse número tenha duplicado ou triplicado. As pessoas vêm de Jalalabad, e de mais longe ainda, atravessando a fronteira, refugiados do Paquistão. A maioria espera encontrar trabalho em Cabul, especialmente com toda a ajuda internacional que chega ao Afeganistão, mas muitos estão desapontados e o índice de desemprego é alto.

A sala de emergência evidencia outros problemas. O médico de plantão explica que atende muitas pessoas com ferimentos. Um grande número deles resultante de acidentes nas estradas. Ahmed Shah Baba está localizado entre duas estradas muito movimentadas que ligam Cabul e Jalalabad. Mas muitos ferimentos, principalmente por facas e também por balas ocasionais, são resultados de confrontos.

“Eles brigam por causa de terras, por exemplo”, conta um médico. "Às vezes porque as pessoas simplesmente não conseguem lidar com o fato de que estão sem trabalho”. A clínica está se tornando um hospital distrital e MSF chegou para fazer com que funcione como uma unidade de emergência. Até hoje, muitos dos pacientes precisam ser transportados para outros centros de saúde, localizados a pelo menos uma hora de distância, para tratamento de emergência. MSF vai oferecer apoio às unidades existentes, acrescentando uma sala de operações, assim como uma ala de internação, na qual os pacientes poderão passar a noite sob observação médica, e melhorar de maneira geral a qualidade do atendimento oferecido e dos medicamentos ministrados.

O apoio teve início recentemente. Ontem, pela primeira vez em cinco anos, um médico de MSF diagnosticou e tratou um paciente. A mulher havia chegado ao departamento de emergência com queimaduras em todo o rosto, braços e pernas, devido à explosão do gás de sua cozinha. Maria era a única médica no local e, portanto, a única a poder examinar o paciente debaixo da burca. Ela encontrou outras queimaduras graves espalhadas pelo peito da mulher e realizou curativos.

Nesta terça-feira, uma enfermeira de MSF, Leen, foi chamada para ajudar em um parto. Ela disse que o bebê, uma saudável menina, nasceu rapidamente e sem nenhum problema.

“Nós não estamos absolutamente pensando em tomar o lugar. É impressionante como a clínica continuou a funcionar mesmo sem ajuda”, conta a coordenadora do projeto de MSF, Sylvie Kaczmarczyk, referindo-se à saída de uma ONG há três meses, que havia assumido a administração do hospital depois do fim do envolvimento de MSF.

“Nós estamos dando início às reformas de alguns dos prédios e a construção de novas áreas para que, no futuro, o hospital também tenha os departamentos necessários para uma gama de atendimentos médicos de emergência e possam funcionar com capacidade total como um hospital distrital”.

Uma política de “proibição de armamentos” dentro da clínica foi adotada, mas nessa manhã um policial armado estava na área de emergência e teve de ser informado sobre nossa política. Nove guardas estão recebendo suas primeiras instruções hoje, incluindo como convencer cada visitante a deixar suas armas na entrada. “Essa regra se aplica a policiais e militares, mas também aos integrantes das Forças de Segurança Internacional (Isaf, na sigla em inglês) que atuam no Afeganistão”.  

Outra prioridade é ter certeza de que ninguém está pagando por consultas ou tratamentos. O diretor do hospital, Dr Sattar aponta com orgulho a placa na entrada da maternidade. “Ninguém tem permissão para dar presentes ou dinheiro à equipe da policlínica”, diz o aviso. “Se alguém vir isso acontecer, por favor, telefone para o diretor de Ahmed Shah Baba no número:….”

É importante ter MSF de volta ao Afeganistão, diz Kaczmarczyk. “À primeira vista, esse é apenas um bom projeto de MSF – urbanização rápida com serviços que não podiam ser mantidos, distância da cidade onde você encontra mais unidades de saúde, dificuldades da população em ter acesso aos cuidados médicos –, mas não é necessariamente um problema específico do Afeganistão. O que é crucial é que MSF use sua presença para ter um panorama mais claro do que está acontecendo no país. Do pouco que sabemos hoje, podemos apenas concluir que as coisas estão piorando. A insegurança cresceu, o sistema de saúde apresenta falhas e, como sempre, são as pessoas comuns que pagam por isso”.

O apoio ao Hospital Ahmed Shah Baba marca a volta de MSF ao Afeganistão após cinco anos de ausência, após o assassinato de cinco colegas em 2004.

Dentro de semanas, MSF também vai começar a oferecer apoio ao hospital em Lashkargah, na capital da província de Helmand, coração dos confrontos entre a Isaf e o Exército do Afeganistão contra a oposição armada.

MSF não está aceitando recursos financeiros de nenhum governo para seu trabalho no Afeganistão, preferindo contar apenas com doações privadas.

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