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MSF pede acesso livre à saúde para a população de Mianmar

02/06/2021
Quatro meses após a tomada do poder pelos militares, testemunhamos as consequências médicas e humanitárias no país
MSF pede acesso livre à saúde para a população de Mianmar

Foto: Ben Small/MSF

Médicos Sem Fronteiras (MSF) apela ao atual governo militar e a outros grupos de Mianmar, que tomem todas as medidas necessárias para garantir à população acesso livre e seguro a cuidados de saúde. Da mesma forma, a equipe médica deve ser capaz de fornecer cuidados vitais sem ataques, detenções ou intimidações.

À medida que Mianmar se aproxima dos quatro meses de regime militar, os serviços de saúde pública continuam gravemente interrompidos. Muitos hospitais e clínicas públicas estão fechados ou ocupados por militares. A unidades que estão abertas têm serviços limitados até que a greve dos profissionais de saúde termine. Neste momento, MSF tem poucas opções para encaminhar pessoas para tratamento especializado. Esses desafios fazem com que muitas pessoas enfrentem dificuldades para ter acesso à saúde.

Se uma nova onda de infecções por COVID-19 atingir Mianmar, será um desastre de saúde pública, considerando que a capacidade do país de testar, tratar e vacinar é uma fração do que era antes da tomada de poder pelos militares.

A insegurança limita o acesso aos cuidados de saúde

Os pacientes normalmente devem escolher entre buscar tratamento em uma instalação privada, que eles podem não ter condições de pagar, ou em um hospital controlado pelos militares, onde sua segurança pode estar em risco, especialmente para quem se envolveu em protestos ou no movimento de desobediência civil.

Existem clínicas de ONGs em alguns locais, mas elas não podem atender a todas as necessidades e tiveram suas atividades restringidas pelas autoridades militares. Uma clínica apoiada por MSF foi informada pelas forças de segurança, que não poderia tratar os manifestantes. As forças de segurança visitaram as instalações, ordenaram a remoção dos leitos de emergência e insistiram para que todos os feridos fossem levados para os hospitais militares ou controlados por militares. A polícia também prendeu um dos voluntários por envolvimento em protestos e exigiu nomes e endereços de outras pessoas que trabalhavam ali. A instalação foi forçada a fechar temporariamente e agora mal funciona, sendo operada por uma equipe reduzida.

Pacientes em Mianmar são forçados a viajar longas distâncias para obter atendimento, em um momento em que os riscos são muito maiores. As forças de segurança nos postos de controle fiscalizam aqueles que se deslocam, revistam seus pertences, os intimidam e contribuem para um clima de medo. Para pacientes com condições que exigem cuidados regulares e de longo prazo, como HIV, tuberculose e hepatite C, a insegurança contínua e a demora no acesso aos medicamentos podem ser fatais.

“O que os pacientes estão preocupados agora é se eles podem acessar a clínica para obter medicamentos”, disse um médico de MSF no estado de Kachin. “Se as forças de segurança nos postos de controle não deixam os pacientes passarem, o que a equipe médica pode fazer por seus pacientes?”

Ataques a profissionais de saúde

Médicos e enfermeiros continuam sendo alvos da violência. MSF tem apoiado as equipes que trabalham nas instalações médicas da organização, e que compartilham relatos sobre profissionais de saúde presos ou detidos.

Desde o início da tomada de poder pelos militares, houve 179 ataques a equipes de saúde e instalações com 13 pessoas mortas, de acordo com o Sistema de Vigilância de Ataques à Saúde da OMS.

Reportagens na mídia mostraram profissionais de saúde de emergência e socorristas na linha de frente dos protestos pacíficos sendo alvejados com tiros ao tentar ajudar os feridos. Parceiros de MSF também testemunharam ataques a organizações que prestam primeiros socorros a manifestantes feridos, e que tiveram seus suprimentos destruídos.

As consequências econômicas ameaçam a resposta humanitária

Não é só o sistema de saúde pública, em Mianmar, que está se deteriorando. A economia do país também está entrando em colapso. Está cada vez mais difícil obter dinheiro, com pessoas enfrentando longas filas de espera em caixas eletrônicos, que são abastecidos com notas esporadicamente. O kyat - moeda local - caiu 17% em relação ao dólar, elevando o custo das importações e de bens como óleo de cozinha, arroz e combustível.

Os agentes humanitários não estão imunes a esta crise financeira. Enfrentar a falta de dinheiro e o aumento dos custos pode impedir que organizações, incluindo MSF, comprem suprimentos e medicamentos, paguem salários de profissionais e movimentem mercadorias.

Já estamos observando o impacto disso em nosso programa de HIV no estado de Kachin. Antes de 1º de fevereiro, MSF estava gradualmente repassando suas atividades com pacientes portadoras do vírus HIV para o Programa Nacional de AIDS do governo. No entanto, essas clínicas não estão mais abertas. Temos visto quase dois mil pacientes retornarem às nossas instalações para consultas e para obter medicamentos. Mais de 200 novos pacientes com HIV também foram registrados.

No estado de Rakhine, a água e o saneamento sempre foram um problema nos acampamentos para refugiados Rohingya, onde as pessoas dependem da ajuda humanitária para ter acesso à água potável. Neste momento, muitas organizações estão reduzindo suas atividades, pois enfrentam dificuldades para conseguir dinheiro e suprimentos para os acampamentos. Como consequência, estamos vendo um aumento no número de pessoas que procuram tratamento para diarreia aquosa aguda.

O conflito agrava a crise humanitária

Desde a tomada do poder, em 1º de fevereiro, aproximadamente 60 mil pessoas em Mianmar foram deslocadas dentro do país e mais 10 mil em nações vizinhas, de acordo com os dados do ACNUR. Isso se deve em grande parte ao ressurgimento do conflito nas fronteiras de Mianmar, particularmente nos estados de Chin, Kachin e Kayin, predominantemente entre militares e grupos armados étnicos, mas também incluindo cada vez mais as forças de defesa popular pró-democracia. Ataques aéreos e bombardeios estão forçando as pessoas a fugir de suas casas e causaram um número desconhecido de vítimas civis.

MSF teve que retirar suas equipes de uma cidade no estado de Kachin devido aos combates, interrompendo temporariamente os seus serviços. Isso impacta nossas atividades, o bem-estar da equipe e levanta preocupações significativas quanto à capacidade das pessoas de viajarem em busca de assistência médica. A equipe médica e as organizações humanitárias devem ser protegidas da violência e ter acesso irrestrito às áreas de conflito para garantir que as pessoas em risco possam ter acesso a cuidados vitais.

MSF teme pelo povo de Mianmar nesta crise cada vez mais grave. Todos os obstáculos que impedem as pessoas doentes e feridas de procurar cuidados médicos, incluindo a violência, detenção e intimidação de profissionais de saúde, devem ser eliminados.

Desde 1992, MSF atua em Mianmar com nossos programas médicos e humanitários crescendo e se desenvolvendo significativamente. Atualmente, mais de 1.100 funcionários fornecem atendimento de alta qualidade por meio de uma rede de unidades de saúde e clínicas móveis.

Leia a declaração de MSF em Mianmar do dia 17 de fevereiro: https://www.msf.org/msf-concerned-welfare-people-myanmar

 

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