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MSF nas Filipinas, três meses depois do tufão

14/02/2014
Ajuda está em curso, mas a recuperação das ilhas levará mais tempo

Três meses após o tufão Haiyan ter atingido as Filipinas, afetando 16 milhões de pessoas, equipes de emergência da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) reportam que, embora os esforços de ajuda estejam em andamento, a recuperação é lenta e vai levar mais tempo.

“Embora as pessoas estejam tentando voltar à normalidade, estão começando a se dar conta de que o ‘normal’ já não existe mais ali”, explica Alexander Buchmann, coordenador de emergência em Guiuan, onde MSF administra um hospital estruturado em tendas de 60 leitos. “Em Guiuan, não há ninguém que não tenha sido afetado pelo tufão. As pessoas perderam suas casas, seus empregos, pessoas queridas. Essas feridas vão demorar a cicatrizar.”
 
Nesses três meses que MSF vem atuando nas Filipinas, as necessidades médicas evoluíram. A equipe de MSF em Guiuan conta que após o surto inicial de casos que se seguiram ao tufão, a situação de saúde estabilizou. “Ainda há relação entre alguns dos casos que estamos tratando e o tufão”, explica Alexander. “As pessoas estão expostas aos elementos, e, por isso, estamos tratando um grande número de casos de infecções do trato respiratório e de pele. Estamos também atendendo pacientes com condições crônicas que perderam seus medicamentos. As pessoas precisam de tratamento para seus problemas de saúde cotidianos; elas não deixaram de ficar doentes porque suas vidas foram reviradas do avesso por um desastre natural.”
 
A equipe médica de MSF em Tacloban também está tratando pessoas que foram feridas tentando reconstruir suas casas. “Estamos também observando muitas lacerações nas mãos e pés causadas por pregos e ferro galvanizado”, explica a Dra. Emma Clark, em Tacloban. “Eu também tratei dois pacientes com queimaduras graves após terem carregado ferro galvanizado que esteve em contato com cabos elétricos.”
 
Houve também casos de crianças que se feriram brincando em meios aos escombros e áreas de construção. Pais estão trazendo seus filhos para tratamento de infecções respiratórias e gastrointestinais, que são resultado da superlotação em centros de evacuação e casas compartilhadas.
 
“Tivemos um caso terrível na semana passada”, conta a Dra Emma. “Uma família de cinco pessoas que vivia em uma tenda chegou com queimaduras graves – uma lâmpada de querosene havia caído. Um bebê e sua irmã faleceram devido aos ferimentos. Imagine ser parte dessa família: você perde tudo depois de um tufão e, três meses depois, perde dois membros de sua família.”
 
Toda semana, a equipe de Tacloban trata de duas a três crianças que confundiram querosene – que muitas pessoas estão usando para iluminação e para cozinhar – com alguma bebida.
 
No último mês, MSF adaptou suas atividades de acordo com as necessidades encontradas em campo, retirando-se gradualmente de áreas onde o sistema de saúde local se recuperou e de regiões onde outras organizações estivessem atuando. Mas MSF permaneceu nos locais onde seu trabalho ainda é necessário.
 
Tanto em Guiuan quanto em Tacloban MSF vai continuar oferecendo cuidados cirúrgicos e de internação, bem como apoio psicológico e outros serviços, até que a capacidade das instalações de saúde seja restaurada.
 
“MSF ainda está fazendo muita diferença aqui em Tacloban”, explica Foura. “Todos os dias, há filas para o nosso departamento ambulatorial, onde 2.406 pacientes foram tratados na última semana. O ritmo não está desacelerando na nossa maternidade ou na emergência. E quando as crianças voltaram às aulas começamos uma nova intervenção psicológica. Diariamente, as pessoas nos procuram para receber cuidados aos quais não teriam acesso em outro lugar.”
 
Recentemente, MSF recebeu aprovação para a construção de um hospital temporário em Guiuan. Esse hospital pré-fabricado vai receber os pacientes das tendas do hospital até que o hospital de Guiuan, que foi completamente destruído pelo tufão, possa ser reconstruído. Logo que o hospital temporário estiver pronto, será entregue aos cuidados e administração do Ministério da Saúde.
 
“Nossas tendas de emergência não são uma solução de longo prazo. Durante boa parte de janeiro, as chuvas torrenciais testaram o limite das estruturas e também fizeram com que a população de Guiuan temesse um segundo tufão, o que é muito compreensível. Começamos há pouco a preparar o terreno para o hospital temporário e em quatro meses a estrutura, que está sendo concebida para durar cinco anos, deve estar em funcionamento. Instalar nossos pacientes nesse novo hospital é a melhor coisa que podemos fazer para melhorar a qualidade dos cuidados que eles recebem.”
 
MSF nas Filipinas
Desde que o tufão Haiyan atingiu as Filipinas, há três meses, as equipes de emergência de MSF ofereceram cuidados médicos e suporte voltado para a saúde mental, além de terem entregue milhares de kits contendo itens de primeira necessidade. Seja por barco, helicóptero, avião ou automóveis, as equipes de emergência levaram ajuda essencial às regiões mais gravemente prejudicadas nas Filipinas.
 
Além de tendas, utensílios de cozinha, alimentos e ajuda para a reconstrução, MSF proveu água potável para dezenas de milhares de pessoas no entorno de Guiuan, no leste da ilha Samar, próximo a Tacloban, Ormoc, Santa Fe e Burauen, na ilha Leyte, e nos arredores de Estancia e no arquipélago a nordeste da ilha Panay.
 
Nos últimos três meses, as equipes de emergência de MSF realizaram 81.261 consultas ambulatoriais, internaram 1.639 pessoas no hospital, conduziram 516 cirurgias, assistiram 589 partos e distribuíram 94.033 itens de primeira necessidade, incluindo kits de abrigo, tendas, mosquiteiros, kits de higiene e utensílios de cozinha.
 
Equipes de emergência em Guiuan estão conduzindo atividades de prevenção da dengue e de provisão de água e saneamento – até o momento, 85 poços foram limpos e 372.800 tabletes de purificadores de água distribuídos. MSF também distribuiu alimentos para 11 mil famílias no arquipélago a nordeste da ilha Panay. Na mesma região, 14.999 crianças foram vacinadas contra o sarampo e 4.654 contra a poliomielite.