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MSF implementa estratégias inovadoras de vacinação na República Democrática do Congo

23/09/2013
Para responder à epidemia de sarampo que devasta o país desde 2010, MSF desenvolve novas abordagens de vacinação

A enfermeira Tessy Fautsch foi com Médicos Sem Fronteiras (MSF) para Wamba, no norte da República Democrática do Congo (RDC), para participar de uma campanha de vacinação contra sarampo que faz parte de um novo projeto cuja meta é responder à epidemia que tem devastado o país desde 2010. Esse novo projeto tem dois objetivos. O primeiro deles é tratar casos confirmados para reduzir a mortalidade. O segundo é desenvolver novas abordagens de vacinação que possam ser adotadas pelo Ministério da Saúde do país para conter a doença.

Atendimento a populações remotas

O projeto de vacinação de que Tessy participou foi realizado na província de Orientale. Juntamente com Équateur, Orientale é uma das províncias mais afetadas pela epidemia no norte do país, assim como Kasai Ocidental e Bandundu, no sudoeste. “Quando a disseminação da epidemia de sarampo é constatada em uma área, é necessário vacinar o máximo de crianças, mesmo se for difícil chegar a essa área. Tratar as populações no local onde elas moram é fundamental para o sucesso de uma campanha de vacinação e, às vezes, um verdadeiro desafio. Por exemplo, o acesso à província de Orientale, no norte da RDC, é muito difícil.

Nessa região, há poucas estradas, pois a floresta equatorial é muito densa. Essas estradas não são bem mantidas e estão em péssimas condições. Antes da temporada das chuvas, levamos dois dias para percorrer 450 quilômetros entre Kisangani, a capital da província de Orientale, e Wamba. Na volta, foi ainda mais difícil, pois os carros e caminhões atolaram na lama”.

Às vezes, o acesso a determinados locais de vacinação pode levar uma semana. “Em regiões isoladas, a cobertura de vacinação é insuficiente e o sarampo causa muitas mortes em crianças com menos de cinco anos. Entretanto, também vemos muitos casos em adolescentes e adultos. Em Wamba, decidimos então vacinar pessoas entre seis meses e 15 anos de idade, assim como alguns adultos, para limitar a transmissão. A vacinação de pelo menos 95% da população alvo reduz a circulação do vírus e, como resultado, reduz o risco para populações desprotegidas. Na área de saúde de Wamba, MSF vacinou mais de 50 mil crianças – 97% da população alvo –, evitando a disseminação da epidemia. Agora, o projeto é ir para o sul, para a província de Kasai Ocidental, para responder a uma nova onda da epidemia”.

Novas abordagens de vacinação

MSF está desenvolvendo este novo projeto nas áreas mais afetadas pela epidemia, explorando estratégias inovadoras. Para reduzir a mortalidade ligada ao sarampo, uma abordagem de dois estágios foi posta em prática. “Primeiro, concentramos nossos esforços nas áreas mais afetadas, para responder à emergência. Tratamos os casos relatados auxiliando hospitais gerais de referência da área. Por exemplo, em Wamba, cuidamos de mais de 860 pacientes infectados com sarampo. Ao mesmo tempo, vacinamos a população nessas áreas de surto para conter a transmissão. Esse processo durou entre três e quatro dias, e foi possível vacinar de 400 a 500 crianças nas áreas rurais, em 24 horas. Em seguida, cobrimos toda a região. A meta era economizar recursos e priorizar a viagem para os locais onde havia casos para controlar a epidemia o quanto antes, de maneira direcionada. Nós nos adaptávamos de acordo com as informações disponíveis e alteramos a ordem de vacinação planejada originalmente para responder com mais rapidez à disseminação da epidemia”.

De um ponto de vista técnico, um dos problemas com uma campanha de vacinação como essa é a cadeia de frio, que permite a preservação adequada das vacinas. “Temos uma cadeia de frio centralizada, de forma que podemos armazenar as vacinas entre 2 e 8°C. Durante as campanhas de vacinação em áreas isoladas, não precisamos de eletricidade no local, já que nossas caixas térmicas são suficientes para cinco dias. Dessa forma, tentamos limitar ao máximo o uso de geladeiras, para mostrar que é possível realizar campanhas de vacinação com recursos limitados em áreas remotas. Com o uso das caixas térmicas para transportar as vacinas do local de armazenamento aos locais de vacinação, pudemos viajar para as áreas mais isoladas”.

Essa estratégia permite a redução da mortalidade com custos mínimos. “Implementamos essa estratégia para demonstrar sua eficiência ao Ministério da Saúde. Esperamos que ela seja adotada pelo governo e seus parceiros”.
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Desde 2010, mais de 200 mil pessoas foram infectadas por sarampo na RDC e mais de 4.500 crianças morreram da doença. Em dois anos, quatro milhões de pessoas foram vacinadas graças ao trabalho de MSF e à boa colaboração com as autoridades locais de saúde.