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MSF enfrenta dilemas diariamente em Mianmar

13/06/2008
Responsável pela coordenação da resposta de emergência no país devido à passagem do ciclone Nargis, Vincent Hoedt fala sobre as dificuldades do trabalho humanitário

A operação está sendo realizada em larga escala porque o Delta do Irrawady é uma área enorme, com muitos vilarejos nos arredores. A situação é diferente de quando você tem alguns grandes grupos de beneficiários em apenas uma área. O fato de termos que nos transportar através de barcos torna a operação realmente difícil. É necessário um grande esforço para realizar as distribuições.

Uma das coisas mais difíceis sobre trabalhar na região do delta é ter acesso às comunidades. Temos que nos locomover a maior parte do tempo de barco, mas não há muitos disponíveis, uma vez que a maioria foi destruída pelo ciclone e todo mundo quer usar as embarcações que restaram. No entanto, nós conseguimos encontrar barcos para alugar eventualmente.

Esses barcos não são muito bons, mas os responsáveis por eles são muito capazes. A maioria das embarcações tem 30 metros de comprimento e tem cozinha na parte de trás, onde a família do comandante vive. O depósito está cheio de materiais nossos, como sacos de arroz, feijão, etc. Muito freqüentemente, a equipe tem que dormir nos barcos.

Para usar esses barcos, é necessário que a maré esteja favorável e que eles possam atracar no lugar certo. Recentemente, houve alguns avisos de tempestade, então as embarcações não puderam partir. Quando chegamos em um vilarejo, o vento estava soprando para a direção errada, então simplesmente não conseguimos atracá-lo. Os moradores conseguiram vir até os nossos barcos, mas gastou-se um tempo enorme para descarregar os suprimentos e levá-los para a margem.

Outro problema freqüente é que, uma vez que escurece, os comandantes não querem sair barco se eles não conhecem a área. O delta é um labirinto de grandes canais, pequenas bacias e canais menores ainda. Nós costumamos usar guias locais que conhecem a região para poder navegar.

Também muito freqüentemente, nossos cais são completamente destruídos ou os portos estão superlotados, então atracar o barco torna-se extremamente difícil. Além disso, as águas são muito rasas, então os barcos muitas vezes só podem navegar quando a maré está alta e com a corrente certa. Por isso, temos que ser muito pacientes, uma vez que é preciso esperar pela maré certa para sair.

Sempre descarregamos manualmente o barco. Geralmente, isso ocorre à noite, uma vez que levamos muito tempo para chegar a locais que estamos tentando acessar. Então, se você está tentando descarregar 200 sacos de arroz, as pessoas têm que ir uma após a outra até o barco. Levam-se horas e horas para tirar tudo das embarcações dessa maneira. Nos vilarejos maiores, nós recrutamos pessoas para nos ajudar, mas nos vilarejos menores, toda a população participa.

Outro problema é que nossas equipes só podem levar uma certa quantidade de suprimentos com eles em cada barco. Antes de partirem, as equipes têm uma estimativa de quantas pessoas estão morando no vilarejo até o qual eles vão tentar chegar. Mas o que freqüentemente acontece é que eles passam por outros vilarejos, onde as pessoas não receberam nenhuma ajuda e enfrentam as mesmas necessidades.

Obviamente, as equipes querem ajudar os dois vilarejos, mas isso significa que é extremamente difícil garantir que vamos distribuir suprimentos suficientes. É uma coisa dizer que vamos tentar alcançar uma população estimada em 200 mil pessoas. Nós enviamos alimentos suficientes dos armazéns para cobrir aquela população por um certo período de tempo. A dificuldade surge quando você olha os números após um mês de distribuições.

Quando você olha para a quantidade de ajuda que as pessoas receberam em cada vilarejo, freqüentemente descobre que essa população de 200 mil pessoas só tem entre 40% a 50% dos suprimentos básicos que eles precisam por mês. Claro, nem todo mundo perdeu tudo e há um pouco de comida em cada vilarejo. Existem também outras organizações distribuindo comida e pessoas ganham pequenas quantidades de alimentos do Exército. Mas ainda vão se passar algumas semanas até que todo mundo tenha suas necessidades básicas atendidas.

Com um desastre dessa proporção, você constantemente enfreta dilemas. O nosso é saber que podemos dar a um milhão de pessoas uma pequena quantidade de comida ou a 50 mil pessoas uma quantidade maior por dia.

Uma das dificuldades enfrentadas diz respeito à distribuição dos itens. Se tivéssemos realizado um levantamento apropriado da área, tentando direcionar o atendimento para as áreas que passam por maiores necessidades, no fim, não teríamos ajudado a quase ninguém. Do contrário, teríamos ido a três áreas muito fáceis de se chegar e dado a essas comunidades tudo que precisavam. Nós estamos tentando encontrar um equilíbrio. O fato que tentamos cobrir cerca de 50% das necessidades significa que ainda temos muito trabalho pela frente, mas também que tentamos dar o mínimo necessário do que precisavam, tentando cobrir a maior área possível.

O trabalho é muito difícil para nossa equipe nacional. Eles passam semanas nos barcos, estão se locomovendo constantemente e têm que acampanhar em monastérios à noite. As circunstâncias nas quais eles estão trabalhando são fisicamente muito difíceis. Temporais e muita lama fazem com que se locomover seja muito difícil – você tem que ficar descalço pois sapatos se perdem na lama, e por isso corre o risco de pegar infecções. Isso soma-se ao que eles têm visto.

Estou impressionado como eles têm trabalhado arduamente. Os trabalhadores nacionais são pessoas que estão acostumadas com nossos projetos normais, mas nunca realizaram um trabalho de emergência como esse. Eles estão muito motivados e sabem como o trabalho que vêem fazendo é apreciado pelas pessoas que vivem no delta. Eles sentem muita compaixão por seus compatriotas da área rural.

As maiores dificuldades que estamos enfrentando são o grande volume de necessidades e as distâncias que temos de cobrir. É muito difícil mapear a área, quais vilarejos você tem que alcançar e os que você tem de retornar. Como estamos, também, realizando atividades de saneamento, temos que escolher para quais cidades precisamos voltar com equipamentos e engenheiros – é muito mais complicado do que apenas entregar comida.

Distribuir comida e realizar consultas médicas é muito difícil – você tem como objetivo passar por quatro vilarejos em um só dia, mas pode encontrar também muitas pessoas já tão doentes que não há como tratar. Você pode arriscar perder a maré e não conseguir levar a ajuda a todo mundo ou sair sem tratar os pacientes apropriadamente.

Nós também tivemos problemas de pegar todos os suprimentos que precisávamos algumas vezes. Você tem que escolher entre partir sem coisas essenciais como lâminas de plástico ou partir com tudo e deixar as pessoas esperando por comida por mais alguns dias. As pessoas enfrentam esses tipos de dilemas todos os dias.