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MSF encerra seu projeto em Ramtha, Jordânia

13/06/2018
Com a queda no número de sírios buscando atendimento médico, MSF decidiu encerrar projeto de mais de quatro anos
MSF encerra seu projeto em Ramtha, Jordânia

Maya Abu Ata/MSF

Depois de mais de quatro anos salvando vidas e tratando mais de 2.700 sírios feridos pela guerra, Médicos Sem Fronteiras (MSF) tomou a difícil decisão de encerrar seu projeto em Ramtha, no norte da Jordânia. A decisão foi tomada devido à diminuição no número de sírios transferidos para a instalação desde a instauração da zona de desanuviamento do conflito no ano passado.

Depois do início do conflito na Síria em 2011, o setor de saúde lutava para responder ao aumento das necessidades médicas da população síria. No sul do país, a complexidade das feridas dos pacientes requeria cuidados médicos especializados. Transferi-los para a Jordânia era uma das únicas opções disponíveis para sua sobrevivência.

Do outro lado da fronteira, a menos de cinco quilômetros de distância, a sala de emergência do hospital de Ramtha começava a ficar lotada de pacientes à medida que sírios cruzavam a fronteira para receber cuidados vitais. MSF realizou uma intervenção urgente em setembro de 2013, inaugurando seu projeto cirúrgico em Ramtha, com objetivo de auxiliar a resposta ao fluxo em massa de pacientes que chegavam com feridas severas causadas pelo conflito arrasador.

“Um dos nossos primeiros pacientes foi atendido em setembro de 2013 depois de ser atingido por um ataque aéreo no sul da Síria. Ele disse à nossa equipe médica: “deixe-me morrer, você não pode me curar’”, afirma Paul Foreman, coordenador de MSF na Jordânia na época. O paciente precisava passar por cirurgia para colocação de três fixadores externos – dispositivo que mantém os ossos estáveis até eles se regenerarem. Depois de nove meses recebendo cuidados no hospital e mais de 30 cirurgias, ele recebeu alta. “Não só sobrevivi, mas poderei sair daqui andando”, declarou.

Junto à escalada da violência no sul da Síria, MSF notou um aumento no número de feridos que chegavam à Jordânia. As atividades cirúrgicas em Ramtha tiveram um pico em meados de 2015, quando 125 pacientes sírios com feridas causadas por explosões chegaram ao hospital em junho. As equipes médicas correram contra o tempo para estabilizá-los e encontrar espaço na instalação, que contava com 41 leitos.

As equipes de MSF viram de perto a brutalidade do conflito. “Quase 75% dos pacientes que recebemos em Ramtha apresentavam feridas causadas por explosões e múltiplos traumas complexos”, diz Shoaib Muhammed, coordenador médico da organização no país. “Um dos nossos principais desafios era o número limitado de leitos na unidade de cuidados intensivos em Ramtha. À medida em que a dinâmica do conflito mudava, começamos a ver mais feridas neurológicas, na cabeça e na espinha dorsal, que precisavam de cuidados especializados que não podiam ser oferecidos no sul da Síria”, ele afirma.

As feridas dos pacientes fizeram a travessia da fronteira ficar ainda mais perigosa e ameaçadora. MSF defendeu um melhor acesso à fronteira para os casos mais críticos de pacientes sírios, tentando estabelecer um mecanismo de transferências organizado. Além disso, MSF pediu às autoridades jordanianas a garantia de que os pacientes que precisavam de acompanhamento médico tivessem a chance de completar sua recuperação na unidade de cuidados pós-operatórios da organização no campo de refugiados Zaatari.

Contudo, os atendimentos médicos de MSF foram diminuindo quando a fronteira entre a Jordânia e a Síria foi fechada em junho de 2016. Até mesmo aqueles com graves ferimentos não podiam mais cruzá-la. A instalação em Ramtha, junto a suas salas de operação, alas e corredores permaneciam silenciosas e quase vazias, enquanto o barulho dos bombardeios do outro lado da fronteira era ensurdecedor. MSF pediu a retomada das evacuações médicas para permitir que os feridos recebessem tratamento médico especializado.

“Foi extremamente difícil estar em Ramtha”, relata Peter Rinker, antigo coordenador médico de MSF no local. “Enquanto ouvíamos o violento barulho das explosões, estávamos amedrontados por diversas questões: há feridos do outro lado da fronteira? Se sim, conseguiram chegar rapidamente e com segurança a algum hospital? Receberam os cuidados médicos que precisavam? Não obtínhamos respostas para a maioria delas.”

A violência irrompeu novamente em fevereiro de 2017 e resultou em um grande aumento no número de cirurgias para salvar vidas. As evacuações médicas na fronteira também aumentaram e, mais uma vez, Ramtha foi inundada por feridos.

Logo depois, as atividades de MSF foram reduzidas novamente com o anúncio da criação de uma zona de desanuviamento do conflito no sul da síria, em junho de 2017, que diminuiu o nível da violência no local. O número de sírios transferidos dos hospitais do sul do país para a Jordânia caiu de 48, em junho, para 18 em julho e menos da metade em agosto.

Apesar disso, MSF continuou fornecendo atendimento médico aos pacientes que já estavam se recuperando nas alas da instalação. “Eu estava perto de minha casa, em um prédio antigo, quando um projétil ou uma bomba explodiu e demoliu o imóvel”, relata Karimm*, um dos pacientes sírios de Dara’a. “O teto caiu em minha cabeça e fiquei debaixo dos escombros. Tive traumatismo e caí, inconsciente. Contaram-me que fui transferido para quatro ou cinco hospitais diferentes até decidirem que meu caso era crítico e tinha que ser transferido para a Jordânia.”

“Meus parentes na Síria insistiram para que eu ficasse na Jordânia até me recuperar completamente. Eles estavam preocupados com a minha saúde, já que não havia capacidade ou oportunidade de receber tratamento em meu país”, ele conta. “Adoraria continuar neste lugar seguro, longe da guerra e da morte, mas devo voltar ao meu país, como manda a regra. Sinto falta de casa, da minha mulher e da minha filha de seis meses de vida. Soube que ela começou a engatinhar. Espero estar lá quando ela falar suas primeiras palavras”, diz.

Com os anos, o projeto cirúrgico de MSF em Ramtha ajudou pacientes a se recuperarem não só das feridas físicas, mas também do trauma mental e psicológico. Os serviços oferecidos aos pacientes incluem cuidados gerais, acompanhamento, sessões de fisioterapia e apoio psicossocial. Desde sua inauguração em setembro de 2013, o projeto em Ramtha recebeu mais de 2.700 feridos de guerra em sua sala de cirurgia, realizou mais de 8.500 sessões de fisioterapia e mais de 5.900 sessões de apoio psicossocial.

MSF encerra o primeiro capítulo de um dos seus maiores programas na Jordânia. Um projeto que impactou a vida de pacientes sírios e de nossas equipes médicas. Ainda assim, a organização continua apoiando remotamente hospitais no sul da Síria desde a Jordânia e oferecendo tratamento médico a refugiados sírios e jordanianos em situação de vulnerabilidade através de outros programas de cirurgia, cuidados primários de saúde, tratamento de doenças não-transmissíveis, cuidados maternos e apoio psicossocial em diferentes províncias do país.

*Nome alterado para resguardar a privacidade do paciente.
 

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