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MSF e Fiocruz se juntam em projeto para diagnóstico e tratamento de Mal de Chagas

16/11/2006
Parceria permitirá mapeamento da doença na região brasileira da Amazônia e um melhor diagnóstico e tratamento dos casos

Descoberta pelo brasileiro Carlos Chagas no início do século XX, a doença de Chagas continua a ser um dos mais importantes problemas de saúde pública na América Latina. Apesar de ser predominantemente urbana, recentemente casos do mal têm sido registrados em regiões até então consideradas livres da endemia, como a Amazônia. Para estudar melhor o problema, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) fecharam uma parceria para a implantação de Capacitação para o Diagnóstico e o Tratamento da Doença de Chagas na Região da Amazônia Brasileira.

De acordo com dados do Ministério de Saúde do Brasil, três milhões de brasileiros já foram infectados pelo Trypanossoma cruzi, o protozoário causador da doença. Na região da Amazônia brasileira, os primeiros casos humanos da doença foram registrados em 1969, na cidade de Belém do Pará. No entanto, nos últimos anos observou-se um aumento do número de casos agudos, de indivíduos sorologicamente positivos para a infecção chagásica na região amazônica. Além disso, também foram registrados os primeiros casos de cardiopatia chagásica crônica na microrregião do Rio Negro.

"A idéia é treinar profissionais para que eles possam identificar nas lâminas de malária o parasita que provoca o mal de Chagas", explica Pedro Albajar Viñas, assessor técnico de Médicos Sem Fronteiras e médico pesquisador do Laboratório de Doenças Parasitárias (LPD) do Departamento de Medicina Tropical da Fiocruz.

De acordo com Viñas, o uso desse método foi aprovado por consenso durante a II Reunião Internacional sobre Vigilância e Prevenção da Doença de Chagas na Amazônia (Amcha), realizada em 2005, que contou com a presença de delegados dos nove países amazônicos – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela. "Esse não é o procedimento mais sensível, mas pode identificar casos agudos e áreas ativas de transmissão da doença", afirma o médico.

Apesar de o método ter sido aprovado por consenso,o Brasil é o primeiro país da região a ter esse tipo de projeto. "Pensamos que, pelos recursos técnicos e científicos já existentes no Brasil, o projeto realizado aqui poderá ter efeito dominó sobre outros países da região", aposta Simone Rocha, diretora de Médicos Sem Fronteiras no Brasil.

Inicialmente a capacitação será realizada em sete centros de saúde da região amazônica, onde sabidamente há transmissão de malária. "Em outubro de 2007, vamos realizar a análise final de dados e, se os resultados forem positivos, o método deve passar a ser aplicado em mais 20 centros de saúde", diz Viñas.

Ainda na primeira fase, o estudo já começa a dar resultados. "Há dois meses, duas pessoas foram diagnosticadas com Chagas em Manaus através deste método. Com base no depoimento delas, soubemos que mais pessoas apresentavam sintomas da doença em Santarém, onde moravam, e conseguimos conter um surto de transmissão oral, umas das principais causas de morte pela doença atualmente", lembra Viñas.