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'MSF capacitou os moradores de favela para realizarmos ações comunitárias por nós mesmos'

18/12/2003
Leia a íntegra da entrevista com Angelo Marcio da Silva, Gestor Comunitário, Presidente da ONG CIADS (Centro Integrado de Ação e Desenvolvimento Social) e Coordenador do Conselho de Gestores Comunitários do Rio de Janeiro (CONGESCO).

Entre 1997 e 2000, a organização Médicos Sem Fronteiras desenvolveu, na cidade do Rio de Janeiro, o projeto “Capacitação de Gestores Comunitários” que tinha como objetivo capacitar os moradores de comunidades carentes para que eles pudessem gerir organizações comunitárias, desenvolvendo projetos sociais e de saúde. Angelo Marcio da Silva, um dos gestores comunitários capacitados por MSF, nos conta - nesta entrevista - como passou de ‘usuário’ de um dos projetos de MSF na comunidade do Dique, no Jardim América, Rio de Janeiro, à Coordenação do Conselho de Gestores Comunitários do Rio de Janeiro.

1 – Como você iniciou esse trabalho de Gestor Comunitário?

R: Meu trabalho como gestor comunitário iniciou em 1997 com Médicos Sem Fronteiras. Meu primeiro passo foi no Programa Local de Prevenção (PLP) desenvolvido por MSF na comunidade do Dique, no Jardim América, onde eu fui usuário do banco de preservativo. Depois passei a ser agente multiplicador de prevenção às DSTs e Aids e depois um dos coordenadores do banco de preservativo da minha comunidade. Nesse ano (1997), MSF implantou o curso de Gestor Comunitário. Eu fiz o curso durante 9 meses e de lá pra cá passei a atuar mais efetivamente na linha de desenvolvimento comunitário.

2 – Que mudanças ocorreram na sua vida e no dia-a-dia da sua comunidade após este curso?

R: Esse curso foi o grande pontapé que eu tive para o movimento comunitário. Ganhei instrumento para organizar o trabalho, a comunidade, ter um conhecimento além da comunidade, sobre o que é um projeto social, o que são políticas sociais, o papel do líder comunitário, a relação favela-asfalto. A partir desse curso criamos um núcleo social na comunidade, o NIADS, que além de prevenção às DSTs e aids passamos a desenvolver outras ações sociais na comunidade em parceria tanto com o poder público, quanto com outras instituições, ditas do asfalto. Em 2000 esse núcleo se tornou uma ONG comunitária, o CIADS, uma das primeiras ONGs formadas por moradores de favela, também com ajuda de MSF.

3 – Você acredita que MSF ajudou na formação de lideranças comunitárias no Rio de Janeiro?

R: MSF não só ajudou, mas hoje para o movimento comunitário, MSF é uma referência, porque apresentou uma dinâmica nova de mobilização social: capacitar os moradores da favela para que nós pudéssemos desenvolver as ações por nós mesmos. Desde o primeiro momento sempre foi deixado claro que MSF apenas nos instrumentaria e depois teríamos que dar continuidade com nossos próprios passos, teríamos que ter a nossa independência. Hoje estamos organizados e não temos como falar do movimento que atuamos sem citar MSF.

4 – E por que foi importante essa dinâmica?

R: Porque nos deu a conscientização de que nós temos os nossos direitos, mas temos também nossos deveres. Não prega o assistencialismo, não nos torna totalmente dependentes, mas que temos também uma responsabilidade nessa situação social em que vivemos. E não gera conflitos. Porque a gente passa a ver a relação com os técnicos, com o asfalto e até com o poder público, não numa relação de confronto, mas sim de parceria. E tem também a dinâmica do multiplicar, porque tínhamos a responsabilidade de multiplicar o conhecimento que a gente adquiriu. No NIADS, por exemplo, fomos 4 pessoas capacitadas e hoje temos 44 pessoas da comunidade treinadas por nós nessa dinâmica de MSF, como gestores comunitários. A gente aprendeu a caminhar com as próprias pernas e criamos o Conselho de Gestores Comunitários do Rio de Janeiro, o CONGESCO, onde cerca de 70 comunidades de favelas do Rio de Janeiro se reúnem para tentar se articular para buscarmos, juntos, melhorias e parcerias para conseguirmos melhorar a qualidade de vida nas nossas comunidades.

5 – De lá pra cá, o que o NIADS e depois o CIADS têm realizado para a comunidade?

R: Nós avançamos muito. No início, era MSF quem tinha a parceria com o Ministério da Saúde, porque o próprio Ministério não via nas comunidades capacidade para gerenciar projetos. Hoje, temos um projeto de prevenção de DST e Aids, há três anos, com financiamento do Ministério da Saúde e da UNESCO, e não trabalhamos apenas com a favela do Dique, mas estamos em 15 favelas com projeto de distribuição de preservativo que nós gerenciamos. Temos também um projeto de reciclagem de lixo, em parceria com a Furnas Centrais Elétricas, onde trabalhamos com jovens para afastá-los da criminalidade, gerando emprego e gerando renda. Temos desde a coleta seletiva do lixo, onde trabalhamos a conscientização dos moradores, o que não é aproveitado vai para o ferro velho que é transformado em dinheiro que mantém a instituição e a outra parte do lixo é transformada em artesanato que é vendido e transformado em renda, numa bolsa-auxílio para eles mesmos. Eles ganham dinheiro e aprendem um ofício. E é um projeto auto-sustentável. Temos ainda um projeto de dança, temos futebol... O foco principal desses projetos é a prevenção à violência.

6 - Você acaba de retornar de Nova Iorque, o que você foi fazer nos Estados Unidos?

R: Esse foi um avanço muito grande. Quando eu comecei fazendo o curso de Médicos Sem Fronteiras eu era um dos líderes mais calados. Eu era a referência de uma comunidade agora sou referência de 70 comunidades. Porque o problema que o Dique vivia não era só do Dique, todas as comunidades de favela têm problemas em comum. Nós fomos participar do Fórum Mundial Social que aconteceu em Porto Alegre e lá conhecemos um pessoal de Nova Iorque que trabalha com movimento popular e que tem uma dinâmica parecida com Médicos Sem Fronteiras, de dar voz a quem está na ponta. Passamos a ter uma reunião via internet uma vez por mês, e agora em dezembro fomos convidados a ir a Nova Iorque para trocar experiência e aprender um pouco sobre o movimento lá. A proposta é que, pelo menos duas vezes ao ano, dois líderes do CONGESCO visitem o projeto em Nova Iorque e dois líderes americanos venham ao Brasil conhecer o movimento popular brasileiro.

7 – Quais são seus objetivos para o futuro?

R: Essa ida a Nova Iorque trouxe um novo ‘gás’ para o movimento. A minha perspectiva daqui pra frente é que a gente organize melhor o movimento, seja mais objetivo, que a gente consiga coisas mais concretas, para isso a gente vai trabalhar melhor a conscientização da população, do movimento comunitário, fazer mais parcerias... Hoje eu vejo que a metodologia de trabalho que Médicos Sem Fronteiras nos ensinou é avançada até para os padrões internacionais e eu acredito que seja nossa responsabilidade repassar essa metodologia para outros líderes comunitários, outros gestores.