MSF atende pessoas gravemente feridas após onda de violência em Gaza

No início de agosto, durante uma escalada de violência de três dias, 49 residentes de Gaza foram mortos, incluindo 17 crianças.

Wael, 13 anos de idade, após seus curativos serem trocados pelas equipes de MSF em Gaza. Palestina, agosto de 2022. Foto: MSF

Sakhar estava dormindo quando uma bomba atingiu a casa de sua família na cidade de Gaza. Quando acordou, ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Isso foi antes de ele perder a consciência, antes de ser transportado para o hospital, onde percebeu que, mais uma vez, ele e sua família haviam sobrevivido.

Sentado em uma clínica de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Gaza, em 10 de agosto, cinco dias após o bombardeio e dois dias após o anúncio de um cessar-fogo, Sakhar passa as fotos em seu celular enviadas por seus vizinhos. Nas imagens, os moradores mostram ele e seus irmãos inconscientes no chão, com os rostos cobertos de sangue e pó de cimento. Sakhar se espanta com o fato de que ainda estão vivos.

Ele, que tem 30 anos e é pai de quatro filhos, não só sobreviveu a este bombardeio de agosto de 2022 como também resistiu a outro ataque durante a guerra de 2014 em Gaza, quando necessitou, em decorrência dos ferimentos sofridos, de enxertos de pele. Recentemente, Sakhar veio à clínica novamente com suas costas cobertas de cortes recém-abertos, acompanhado de seus dois irmãos mais novos, ambos sofrendo graves fraturas e escoriações, para ter seus curativos trocados.

Durante a escalada de violência em agosto de 2022, Mahmoud, de 22 anos, sofreu queimaduras e fraturas graves quando o apartamento da sua família foi atingido. Palestina, agosto de 2022. Foto: MSF

Sua família está entre os cerca de 350 residentes de Gaza que sofreram ferimentos graves durante esta onda de violência, juntando-se a milhares de outros atingidos por uma das cinco guerras na região que ocorreram em um período de 15 anos. Desta vez, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), 49 residentes de Gaza foram mortos, incluindo 17 crianças.

Os irmãos de Sakhar, que têm 22 e 13 anos, lembram como suas vidas foram moldadas pelo trauma relacionado à guerra, apesar de terem se mudado de bairros repetidamente para escapar da destruição.

“Durante a guerra de 2008, eu estava na quarta série. Lembro-me que quando éramos crianças, costumávamos ouvir as explosões e ver os cadáveres. Em 2012, novamente vimos muitos feridos e pessoas mortas. Perdi muitos dos meus amigos na época. Depois, na guerra de 2014, nossa casa foi danificada. Ao longo dos anos, vimos imagens horríveis, mas não como esta”.
– Mahmoud, 22 anos, paciente de MSF.

Para residentes de Gaza como Sakhar e seus irmãos, o ciclo de guerras repetidas levou a traumas, agravando sua saúde física e mental. Para os profissionais de saúde também; as cenas nas salas de emergência tornaram-se muito familiares.

Dr. Osama Tawfiq Hamad, um anestesista, estava trabalhando em uma sexta-feira à noite quando as bombas começaram a atingir Gaza. Como médico de MSF desde 2019, ele prestou cuidados aos pacientes durante duas guerras. O profissional descreve como a sala de emergência do hospital Al-Awda ficou cheia em poucos minutos, recebendo mais de 15 pacientes, incluindo seis crianças. O médico atendeu uma criança que havia sido atingida com estilhaços no crânio e outra com um hematoma no peito, ambas exigindo cirurgia urgente.

“Em Gaza, (nos últimos 15 anos) tivemos cinco guerras, e toda vez que há um ataque aéreo, há uma enorme quantidade de pessoas feridas que vêm ao hospital de uma só vez. Você pode ter 50 ou mais pacientes ao mesmo tempo. Nesses momentos, sentimos emoções muito ruins, raiva e sentimentos mistos, mas você deve ser forte para lidar com os casos”.
– Dr. Osama Tawfiq Hamad, anestesista de MSF.

Dr. Osama aponta para o fato de que, com o tempo, para os pacientes que sobrevivem, o retorno ao hospital para acompanhamento de cirurgias, fisioterapia e apoio após os impactos mentais e físicos da guerra passam a fazer parte de seu cotidiano.

Seu colega Shadi Al-Najjar, que gerencia o departamento de fisioterapia do Hospital Al-Awda com MSF, está familiarizado com a rotatividade dos pacientes que surge em ondas após cada guerra.

“Ainda estou atendendo pacientes da escalada de maio de 2021, fazendo reabilitação e fisioterapia. Em nosso departamento, há uma alta quantidade de pacientes (de maio de 2021), bem como da Grande Marcha de Retorno. Agora estamos preparando o departamento, a nível ambulatorial e intensivo, para receber os feridos dessa escalada de violência”.

Profissionais de MSF preparam doações de medicamentos após ataque aéreo em Gaza. Palestina, agosto de 2022. Foto: MSF

Shadi voltou ao trabalho, gerenciando casos novos e já existentes, apesar de sua própria experiência recente. Sua casa foi parcialmente destruída no segundo dia da guerra, quando a moradia de seus vizinhos foi atingida. A família de Shadi não teve a chance de sair antes que o quarto de seu filho de nove meses de vida fosse danificado. Ele o encontrou no berço cercado por vidro e estilhaços, mas sem ferimentos. Shadi diz que a filha mais nova também está traumatizada.

“Ela (minha filha) não consegue dormir, chora o tempo todo. Estou tentando dar o máximo de apoio possível para eles (os filhos)”.
– Shadi Al-Najjar, coordenador do departamento de fisioterapia do Hospital Al-Awda.

Como Shadi, Sakher também enfatizou que uma das piores partes de lidar com as consequências é tentar apoiar emocionalmente seus filhos. “Meu filho mais velho tem cinco anos agora. E depois dessa escalada, ele vem me pedindo para parar a guerra e sempre grita à noite. Não dorme há três noites e, quando está dormindo, acorda com os pesadelos e começa a correr. Eu não sei o que fazer ou como ajudá-lo”.

O trauma da violência recorrente em Gaza teve um impacto notável na saúde mental das crianças e de seus pais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2021, 82% dos adolescentes em Gaza relataram níveis gerais baixos a muito baixos de bem-estar mental.

A Visão Geral das Necessidades Humanitárias das Nações Unidas para 2022 afirma que mais da metade (53%) de todas as crianças em Gaza precisam de serviços de proteção infantil e saúde mental. Além disso, 137 mil cuidadores necessitam de serviços de saúde mental.

Nos dias seguintes à escalada, os membros da equipe de MSF e os pacientes frequentemente expressaram preocupação com seus filhos e outros jovens em Gaza que cresceram ou crescerão em um ambiente onde as escaladas de violência ocorrem com uma regularidade perturbadora.

Depois que seus curativos foram trocados, Wael, o irmão de 13 anos de Sakhar e Mahmoud, foi perguntado por um profissional de apoio de MSF sobre o que ele quer para o futuro.

“Espero que não haja guerras no futuro e que a calma (em Gaza) permaneça, sem bombardeios”.

 

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